Ben chegou ao encontro no café perto da biblioteca com o caderno debaixo do braço e o coração batendo de um jeito que não tinha nada a ver com o café. Cloe já estava sentada numa mesa do fundo, pernas cruzadas, mexendo no celular com aquela expressão de quem não tinha pressa nenhuma. Quando o viu, guardou o aparelho e apontou para a cadeira em frente.
— Fala.
Ele se sentou, apoiou o caderno na mesa e tirou um envelope que tinha preparado na noite anterior. Dentro havia dinheiro contado — o valor que ele achava justo por aula — e uma folha dobrada com algumas anotações.
— Eu pensei nos termos — começou, a voz um pouco rouca. — A gente faz fora do campus. No meu apartamento. Eu compro comida e bebida. Você decide o dia e o horário, eu me adapto. Te pago por aula, em dinheiro, no final de cada uma. E… quando eu terminar o livro, eu apresento você pra minha mãe.
Cloe ergueu uma sobrancelha.
— Sua mãe?
— Ela é dona de um dos escritórios de advocacia mais bem-sucedidos da cidade. Direito de família, justamente. Quando você se formar, se quiser, ela te contrata. Eu já falei com ela ontem à noite. Disse que conheci alguém competente, do último ano, especializada no que o escritório mais precisa. Ela topou te conhecer.
Cloe ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos dela não se desviaram.
— Você falou de mim pra sua mãe sem nem saber se eu ia aceitar?
— Aceitei o risco. — Ben engoliu em seco. — E tem mais uma regra. A sua. Você pode fazer o que quiser durante as aulas. Eu não questiono. Não interfiro. Não peço nada além do que a gente combinou. Se quiser mudar de lugar, parar, continuar, falar sobre qualquer coisa… eu deixo.
Ela inclinou a cabeça, estudando-o com uma curiosidade lenta.
— Tudo o que eu quiser.
— Tudo.
— Sem questionar.
— Sem questionar.
Cloe estendeu a mão por cima da mesa. Os dedos dela eram frios.
— Trato fechado, então. Amanhã, sete da noite. Me manda o endereço. E compra champanhe de verdade, não aquela porcaria doce.
Ben apertou a mão dela. A pele era macia, e o contato durou só um segundo a mais do que o necessário.
— Combinado.
O apartamento de Ben ficava num prédio silencioso, de apenas quatro andares, a quinze minutos do campus. Não era luxuoso, mas era limpo, organizado, com cheiro de livros e de café fresco. Ele tinha passado a tarde arrumando. Comprou sushi, frutas, queijos, um vinho branco e duas garrafas de champanhe — uma aberta na geladeira, outra na mesa da sala. As luzes estavam baixas. O notebook e os rascunhos do romance estavam sobre a mesa de centro, prontos.
Quando a campainha tocou, ele quase derrubou o copo d’água.
Cloe entrou como se já conhecesse o lugar. Vestia uma saia preta curta, uma blusa de alças finas e sandálias de salto baixo. O cabelo solto. Nenhum maquiagem pesada. Só um batom escuro e o olhar direto.
— Cheiro bom — comentou, tirando o casaco e jogando no braço do sofá. — Onde fica a cozinha?
— Ali. Eu preparei…
— Depois. — Ela caminhou até a mesa, pegou a garrafa de champanhe ainda fechada e leu o rótulo. — Bom. Você tem hidromassagem?
Ben piscou.
— Tenho. No banheiro da suíte. Por quê?
Cloe virou-se para ele, o sorriso lento e sem pressa.
— Porque eu sempre quis entrar numa. E hoje eu quero. A gente continua a aula lá.
Ele abriu a boca, fechou, depois apenas assentiu. A regra que ele mesmo aceitara batia na cabeça como um martelo.
— Tudo bem.
Ela não esperou mais instruções. Seguiu o corredor até o banheiro, abriu a torneira da banheira e regulou a temperatura. O som da água enchendo o espaço ecoou pelo apartamento. Ben ficou na porta, incerto se deveria entrar ou esperar.
Cloe se virou de frente para ele. Sem pressa, puxou a blusa pela cabeça e a jogou no chão. O sutiã preto sumiu em seguida. Os s***s firmes, do tamanho que cabiam perfeitamente nas mãos, estavam à mostra. Nos b***s, dois piercings pequenos e brilhantes — argolas delicadas de prata que capturavam a luz do teto.
Ben sentiu o ar sumir dos pulmões. O olhar dele desceu, subiu, desceu de novo, e ele teve que se forçar a respirar pela boca.
Ela desceu o zíper da saia, deixou a peça cair e ficou apenas de calcinha preta. Sem nenhum vestígio de vergonha. Como se estivesse sozinha no próprio quarto.
— Você vai ficar aí parado ou vai entrar? — perguntou, já testando a água com o pé. — A água está boa.
Ben entrou. Tirou a camisa porque o calor no peito era absurdo, mas manteve a calça. Sentou-se na borda da banheira enquanto ela entrava devagar, a água subindo até a cintura, depois até os s***s. Os piercings brilharam debaixo da superfície. Ela se acomodou, apoiou os braços nas bordas e fechou os olhos por um segundo, como se finalmente estivesse exatamente onde queria.
— Pergunta — disse Ben, a voz mais baixa do que o normal. — Por que você fez os piercings?
Cloe abriu os olhos. Não piscou.
— Porque eu gosto de sentir. E porque a maioria dos homens fica sem jeito quando vê. Eu acho engraçado.
— Dói?
— Na hora doeu. Depois vicia. Você quer tocar?
Ele engasgou.
— Eu… não. A regra é só conversa.
Ela sorriu de lado, mas não insistiu.
— Outra pergunta — continuou ele, forçando-se a olhar para o rosto dela e não para a água. — Você realmente não acredita em amor? Ou é só o que você conta pra todo mundo?
Cloe tirou uma mecha molhada do ombro.
— Eu vi meu pai trair minha mãe durante anos. Vi ela fingir que não sabia. Vi o casamento virar um contrato de convivência constrangedora. Amor é a desculpa que as pessoas usam pra se machucar e depois dizer que valeu a pena. Eu prefiro desejo limpo. Sem promessa. Sem decepção.
— E se um dia alguém te fizer mudar de ideia?
Ela riu, curta e sem humor.
— Não vai acontecer. Próxima pergunta, ou a gente volta pro livro?
Ben pegou o caderno que tinha deixado perto da porta e o abriu sobre os joelhos. As páginas estavam um pouco úmidas da umidade do banheiro, mas ele não se importou.
— A cena. O personagem masculino finalmente toca a mulher pela primeira vez. Ele está nervoso. Ela não. Eu escrevi que ela guia a mão dele, que fala o que quer, que controla o ritmo. Mas… eu não sei se uma mulher realmente faz isso. Ou se é só fantasia.
Cloe se acomodou melhor na água, os s***s quase flutuando, os piercings piscando a cada movimento.
— Algumas fazem. Eu faço. A maioria não. Depende se ela está com pressa de gozar ou se está com pressa de agradar. No seu caso, se a personagem é como eu, ela vai guiar. Vai falar. Vai corrigir. Vai mandar ele parar se estiver errado e continuar se estiver certo. Escreve isso. Sem poesia. Só o corpo.
Ben anotou rápido, a caneta tremendo um pouco entre os dedos.
— E o que ela sente quando ele… quando ele toca nos piercings?
Cloe o olhou fixamente. A água se mexeu quando ela se inclinou um pouco para frente.
— Formigamento. Calor. Uma pontada boa que desce direto pra entre as pernas. Alguns homens têm medo de puxar. Outros puxam demais. O ideal é testar. Devagar primeiro. Depois com mais intenção. Escreve que ela arfa. Que mexe os quadris. Que aperta as coxas. Isso é real.
Ele escreveu tudo. A letra saiu torta.
Cloe fechou os olhos de novo, deixando a cabeça cair para trás contra a borda da banheira. A água borbulhava baixinho ao redor do corpo dela.
— Continua — murmurou. — Me lê a próxima parte. Eu te digo onde você ainda está mentindo.
Ben respirou fundo, abriu a página seguinte e começou a ler em voz alta. A voz saía rouca. A cada frase, Cloe interrompia, corrigia, explicava com uma honestidade brutal e sem nenhum pudor. A água esfriava devagar. O champanhe na sala esperava. E entre uma correção e outra, Ben percebeu que a aula tinha começado de verdade — e que ele não fazia a menor ideia de como ia sair daquilo sem se queimar.