capítulo 3

1231 Words
Júlio havia terminado de secar o cabelo, estava surpreso o quanto aquela gosma que passou o deixou sedoso e hidratado. Jamais imaginou que a Maria era adepta de hidratação natural, seus cabelos são lindos, brilhosos, bem cuidados e era louco para sentir o quão cheirosos eram. — Rapunzel, o almoço tá pronto. — Valério avisa a porta do seu quarto. — Vai se... — Olha a boca princesa — Valério o provoca. — Cozinhou? — Júlio perguntou, estava sem Antiácido e o irmão tendia a exagerar na pimenta quando cozinhava. — Não, foi a Maria. Fez uma língua ao molho com batata, provei e está uma delícia. — O irmão respondeu. — Nunca entendi porque ela não tem uma secretária do lar. Faz tudo em casa, antes era para enganar nosso pai, fingindo ser uma pessoa simples e agora, para tentar nos enganar? — Júlio tentava entender qual era o jogo da mulher. — Não faço ideia, tudo o que nos resta, é entrar no jogo dela e comer a comida, porque realmente está deliciosa, ela pediu para eu prova. — Valério diz, o deixando sozinho em seguida. Júlio balançou a cabeça, desde quando o irmão gostava de língua? Quando chegou na cozinha, encontrou Valério comendo com gosto, ele parecia bem animado, não deixou de notar que Maria ria do que ele falava, mas quando perceberam a presença dele, o irmão alargou o sorriso enquanto o de Maria sumia. — Sobre o que estão conversando? — Júlio pergunta, se sentando de frente para Maria, que sorri tímida. — Estou falando para Maria o quanto você estava admirando suas madeixas bem hidratadas com babosa. Até contei que você falava com o espelho perguntando qual o cabelo mais lindo do papai, quem é, quem é ? E aí você respondia, sou eu, sou eu. — Isso é mentira! — Júlio falou agudo com o irmão que estava queimando seu filme com a mulher. — Não acredite em nada que esse palerma diz. — Pede a madrasta. Maria balança a cabeça de um lado para o outro, os filhos de Camilo são dois bobos. Observou os irmãos em silêncio, estava um tanto surpresa por se juntarem a ela na refeição, desde que se mudaram em definitivo para a casa, sempre recusavam o convite de sentar a mesa para comer com ela. — Maria, eu estava pensando em fazer uma pequena reunião aqui em casa, tipo, não excederia o limite de 10 pessoas que está estipulado pelas medidas de prevenção. — Valério avisa. Estava cansado de ficar quase o dia todo na frente do computador desde0l que a pandemia explodiu. Júlio não sabia dos seus planos mas era uma certeza que concordaria. — Não excedendo dez pessoas, acho que vai ser bom. — Júlio confirma o que Valério pensava, estava de acordo. Os dois esperaram a confirmação de Maria, que estava travando uma luta interna sobre o pânico que a menção de receber pessoas na sua casa que estava tentando domina-la, a mulher dizia a si mesma que não poderia ir contra eles pois a casa pertencia tanto a eles quanto a ela. Contudo, era algo que ia além do seu controle, mesmo assim, se obrigou a dizer algo que ia contra o que estava sentindo naquele momento. — Tudo o que peço é que seus amigos não ultrapassem o limite da escada e me avisem o horário dessa reunião para que eu possa ficar no meu quarto. — o esforço que Maria fez para dizer aquelas palavras foi sobre humano. — Não pode estabelecer limites dentro da nossa casa. — Júlio jogou os talheres no prato. — Maria, essa casa nos pertence também, se nossos convidados precisarem usar o banheiro e os de baixo estiverem ocupado, terão que subi para usar o do segundo andar. — Valério intercede antes que o irmão estoure. — Nós faremos a reunião, você concordando ou não. — Júlio retruca como um adolescente mimado que acabou de ser contrariado. — Você é o advogado Valério. Me diga o que fazemos agora que chegamos a um impasse? — Maria passou a bola para ele, que não respondeu. — Eu entendi. — Maria se levantou abrupta. — Façam como bem entender já que o que eu penso não importa. Ela sai muito rápido da cozinha, contudo, nenhum dos irmãos fez menção de ir atrás dela e tentar conversar, não adiantaria, a casa era deles e eles fizeram o favor de informar sobre a reunião, Maria não tinha que estipular nada, mesmo que ela pudesse faze-lo. Eles continuaram a comer sem pressa e em silêncio. — Você não está pensando em ir falar com ela, está? — Júlio perguntou ao notar o irmão muito pensativo. — Ela pode ligar para Graça, sabe muito bem que está no seu direito. A casa pode ser nossa mais Maria detém uma parte. — Valério explica. — Acho que podemos fazer a reunião nos termos dela. — Sugere no fim. — Está cedendo aos caprichos daquela mulher muito fácil, ela tem que ceder aos nossos caprichos. — Júlio resmunga, de cabeça quente. — Chega Júlio! — Valério pede. — Não podemos critica-la pois ela está no direito dela. Já deu! E outra, eu preciso distrair minha mente, conversar com as pessoas sem ser por uma tela, então, ou concordamos com os termos dela, ou não faremos nada. — Faz o que achar melhor, a ideia foi sua. — Júlio se levanta num rompante. — Se quer agir que nem o cachorrinho dela, que seja. Problema seu! *** Maria sentia a cabeça latejar, tomou um comprimido para enxaqueca e se deitou, enrolada na coberta. Mari tinha razão, deveria voltar para a terapia, falar com a terapeuta, principalmente nesse período de pandemia e de luto, realmente poderia ajudá-la. Não deveria permitir que o medo a fizesse retroceder tudo o que já evoluiu. Já bastava a tentativa inútil de trabalhar numa creche após se formar em pedagogia por EAD. Duas semanas após iniciar o trabalho, um dos pais da criança a abordou, para repassar um recado da esposa e Maria teve uma forte crise. Depois disso, contra a vontade do marido, Maria passou a se dedicar apenas a ele, a casa e ao seu jardim. Escutou uma batida na porta, porém não levantou para abrir a porta. Não estava bem para falar com ninguém, especialmente quando esses ninguéns são pessoas que ela tenta ter uma boa convivência há anos, então ela simplesmente decidiu que desistiria de tentar. No dia da reunião ficaria no seu quarto, trancada a chave, para que nenhum convidado aparecesse no seu quarto com a desculpa que havia se perdido ou errado o caminho para o banheiro. Seu celular começou a tocar, era um toque do aparelho, contudo, não atendeu. Não viu quem estava ligando, mesmo sabendo que poderia ser sua irmã ou Clara que tem ligado todos os dias para conversar com ela, para que não se sinta tão sozinha. Para sempre lembrá-la de que ela é uma lutadora e nunca deve desistir, não importa a situação. Maria sentiu vontade de chorar ao lembrar que é tão patética que a única amiga que tem morre de medo que ela desista da vida. O telefone voltou a tocar sem parar, mais o remédio que tomou já começava a fazer efeito, sempre foi muito fraca para medicações fortes e os remédios para enxaqueca sempre a deixavam sonolenta...
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