O Bilhete que Nunca Veio

1532 Words
O barulho do vento entrando pelas frestas da janela era o único som naquela manhã. Laura acordou antes do sol nascer, como fazia todos os dias. Sentou-se na beira da cama, olhou para os irmãos ainda dormindo e tentou se convencer de que tudo o que estava vivendo era apenas um pesadelo. Mas o frio no chão, o cheiro de mofo, e o estômago vazio confirmavam o contrário. Pegou o caderno velho de capa azul, onde escrevia o que chamava de “coisas que não dá pra dizer pra ninguém”. Virou a primeira página, onde havia desenhado o rosto da mãe — traços frágeis, cabelos longos e um sorriso apagado. Abaixo, estava escrito em letras tremidas: “Mamãe, ainda tô te esperando.” Laura suspirou e passou o dedo sobre o papel, como se pudesse sentir a pele dela ali. A lembrança do dia em que tudo acabou ainda era viva demais. Tinha chovido naquele fim de tarde. O cheiro de terra molhada e fumaça de vela enchia a casa pequena. A mãe estava inquieta, arrumando uma bolsa com pressa. — Pra onde a senhora vai? — Laura perguntou, segurando a barra do vestido dela. — É só por uns dias, Laurinha. A mamãe vai resolver umas coisas, tá bom? — respondeu com um sorriso que tremia. Laura olhou para os irmãos brincando no chão e sentiu um medo que não sabia explicar. — Mas e a janta? E o Lucas, a Beatriz? — Você é forte, filha. Vai cuidar deles, né? A menina assentiu, mesmo sem entender o peso daquelas palavras. A mãe a abraçou rápido demais, beijou o topo da cabeça e sussurrou: — Eu volto logo. Mas ela não voltou. E nenhum bilhete ficou sobre a mesa. Nos primeiros dias, Laura arrumava os pratos esperando ouvir a porta abrir. Contava os minutos, os passos, o barulho da rua. “Ela vai chegar quando escurecer”, pensava. Mas quando a noite vinha, só o som dos grilos respondia. A esperança durou uma semana. Depois virou desespero. Ela tentou procurar a mãe na feira, na vizinhança, na delegacia. Mas ninguém sabia de nada. Alguns diziam que a mulher fugira com um caminhoneiro. Outros, que fora presa. A verdade nunca veio — e talvez nunca viria. Aos poucos, o tempo foi transformando o amor em dor, e a dor em raiva. Laura começou a trabalhar lavando roupa para os vizinhos. As mãos pequenas rachavam de sabão, mas o dinheiro dava para o pão e o leite. Quando o serviço acabou, veio o vazio. A escola ficou distante — primeiro um dia faltado, depois uma semana, depois para sempre. Um dos vizinhos ofereceu ajuda. Mas ela aprendeu rápido que ajuda demais às vezes vem com segundas intenções. — Você é bonita, Laura. Devia aproveitar isso. — ele dissera um dia, enquanto a olhava de um jeito que fez seu estômago revirar. Naquela noite, trancou a porta e chorou até o amanhecer. Foi ali que percebeu que, no mundo, ninguém dá nada de graça. Quando Lucas começou a crescer, ficou curioso. — Cadê a mamãe? — perguntava sempre, como se o tempo não tivesse passado. Laura inventava histórias: dizia que ela estava doente, que trabalhava longe, que mandaria notícias em breve. Mas nenhuma carta chegou. Nem um bilhete. No fundo, Laura sabia que era mentira. Mas precisava manter a esperança viva nos olhos do irmão, porque ela já havia perdido a própria. Às vezes, à noite, ela imaginava mil versões para o desaparecimento. Talvez a mãe tivesse morrido e ninguém avisou. Talvez tivesse vergonha de voltar. Ou talvez nunca tivesse amado o suficiente para ficar. O que doía mais era não saber. A ausência sem explicação é um tipo de tortura que não acaba nunca. O tempo passou. Lucas cresceu e começou a entender o mundo. Aos quatorze anos, ouviu de um vizinho fofoqueiro o que ela tentou esconder a vida toda: — Tua irmã vende o corpo, moleque. É assim que vocês comem. Ele chegou em casa furioso. — É verdade, Laura? — gritou, com os olhos cheios de lágrimas. Ela travou. — Quem te disse isso? — Todo mundo! É verdade ou não é? O silêncio dela respondeu. Lucas jogou a mochila no chão. — Você é nojenta! — gritou. — Eu preferia passar fome do que viver de esmola suja! Aquelas palavras foram como lâminas. Laura tentou explicar, mas o choro não deixava. — Eu fiz isso por vocês, Lucas. Pra você e pra Beatriz. — Eu não pedi! — gritou. — Eu não pedi pra você virar… isso! Ele saiu batendo a porta. Beatriz acordou assustada, chorando. Laura caiu de joelhos e chorou junto, o rosto nas mãos, o corpo tremendo. Foi nessa noite que ela percebeu que o bilhete da mãe não era o único que faltava. Também faltava um bilhete dela mesma, algo que explicasse suas escolhas, sua dor, sua vontade de proteger. Mas ninguém quer ler o diário de uma prostituta. Dias depois, Lucas voltou. Estava envergonhado, mas não sabia como pedir desculpas. Laura o abraçou sem dizer nada. As palavras, às vezes, só atrapalham o perdão. Beatriz, pequena e inocente, desenhava corações no papel. — Esse é você, mana. E esse é o céu. — dizia, apontando. — Um dia, a mamãe vai ver a gente lá de cima, né? Laura apenas sorriu. — Vai sim, meu amor. Vai ver que a gente ficou forte. Mas por dentro, o coração dela sangrava. Não porque acreditava que a mãe estava morta, mas porque sabia que, viva ou não, ela nunca voltaria. Anos depois, o destino a levaria àquela praia onde gritou sozinha e conheceu Gabriel. Mas entre o abandono da mãe e aquele encontro, existiram anos de sobrevivência, noites que não terminavam, e um vazio que só aumentava. A fé foi embora devagar, como o sol se apagando atrás das nuvens. Laura aprendeu a se proteger de tudo — até do amor. Porque amar, pra ela, era o mesmo que ser deixada para trás. Naquela manhã, depois de escrever no diário, Laura olhou para o teto e imaginou o rosto da mãe. Perguntou-se se ela ainda estava viva. Se pensava nela. Se sentia culpa. E se um dia, por acaso, tivesse tentado escrever um bilhete e desistido. “Filha, me perdoa.” “Eu não sabia o que fazer.” “Eu te amo.” Mas o papel ficou em branco, assim como o vazio que ela deixou. Ao meio-dia, Laura saiu para trabalhar em um restaurante pequeno, onde fazia faxina algumas tardes. A dona, Dona Celina, era uma mulher de voz forte e coração mole. — Tu anda muito pálida, menina. Tá se alimentando direito? — perguntou, enquanto esfregava o balcão. — Tô sim, dona Celina. — Sei… com essa cara de quem carrega o mundo nas costas. Laura sorriu de canto. — O mundo pesa, mas eu ainda ando. A mulher a olhou com carinho. — Tu é boa demais pra esse mundo, Laura. Se ela soubesse de tudo, talvez não dissesse isso, pensou. Mas aquele elogio serviu como um sopro de ar. No fim do expediente, ela passou na escola de Lucas. O garoto agora estudava à noite, decidido a ser alguém “diferente”. Quando o viu, o coração dela se apertou. — Trouxe lanche pra você. — Obrigado. — respondeu, evitando o olhar. Laura estendeu o pacote com pão e suco. — Um dia, quando for adulto, você vai entender. — Entender o quê? — perguntou, seco. — Que às vezes, o certo e o errado se confundem quando a fome fala mais alto. Lucas abaixou a cabeça. — Eu já entendi, Laura. Só não sei perdoar ainda. Ela assentiu. — Então só me escuta. O perdão não é pra mim. É pra você. Ele ficou em silêncio. E naquele instante, ela percebeu que o amor, mesmo ferido, ainda morava dentro dele. Naquela noite, ao chegar em casa, encontrou Beatriz dormindo com o caderno aberto. Um desenho colorido mostrava três pessoas de mãos dadas e um coração em cima. A menina havia escrito com letras tortas: “A mamãe vai voltar.” Laura encostou o rosto no papel e chorou baixinho. Depois escreveu no próprio diário: “Hoje entendi que a saudade é uma casa onde o tempo não entra. E o perdão é o bilhete que nunca chega.” Fechou o caderno, apagou a luz e deitou-se entre os irmãos. O vento batia na janela, mas agora parecia mais suave, como se alguém a embalasse de longe. Por um segundo, imaginou que talvez, em algum lugar, a mãe tivesse se arrependido. Mas logo afastou o pensamento. Algumas feridas não pedem desculpas. Só cicatrizam — devagar, e com dor. Do lado de fora, a lua nascia alta e pálida. Laura olhou para o céu pela fresta e sussurrou: — Eu tô tentando, mãe. Tô tentando não te odiar. A brisa fria passou por ela como um sussurro. E naquela noite, mesmo sem bilhete, sem resposta e sem promessa, Laura dormiu com um pouco menos de raiva e um pouco mais de coragem. Porque, às vezes, o perdão começa quando a gente aceita que o outro não vai voltar.
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