As Moedas e o Sangue

1534 Words
As primeiras luzes da manhã entravam pela janela, atravessando o ar empoeirado e desenhando faixas douradas sobre o chão frio. Laura chegou em casa exausta, com o corpo dolorido e a cabeça cheia de vozes que não conseguia calar. Cada passo doía, cada respiração ardia. A madrugada tinha sido longa, pesada, e o dinheiro que trazia nos bolsos parecia pesar toneladas. Jogou o casaco sobre a cadeira e se encostou na parede. As mãos tremiam. O cheiro dos homens ainda grudava nela, misturado a perfume barato e cigarro. O estômago revirava. Correu até o banheiro, ajoelhou-se e vomitou o pouco que havia comido. Depois se levantou devagar e olhou o espelho. O reflexo devolveu o rosto de uma estranha. Olheiras profundas, boca seca, olhos sem brilho. Passou os dedos pelo rosto e sentiu o corte pequeno no lábio — lembrança da noite anterior, quando um cliente bêbado a empurrou com força. O sangue seco no canto da boca era o retrato exato da vida que começava a levar. “Eu não sou isso”, pensou, mas a frase soou fraca. “Sou uma irmã tentando salvar os meus.” E mesmo que acreditasse, não deixava de doer. Quando saiu do banheiro, Beatriz já estava acordada. A menina correu até ela com um sorriso sonolento. — Mana! Trouxe pão? Laura sorriu, forçando leveza. — Trouxe, sim. Pegou a sacola e colocou o café na mesa. Os olhos da irmã brilharam diante do simples pão com manteiga. Lucas apareceu em seguida, o rosto sério, o olhar frio. Sentou-se em silêncio, começou a comer sem dizer nada. Laura fingiu não perceber o desprezo disfarçado. Sabia que ele desconfiava. Sabia que estava aprendendo a odiá-la, e não o mundo que a empurrou pra aquilo. — Lucas… — começou. — Não precisa. — interrompeu ele. — Eu sei que é por nós. — Então por que esse olhar? — Porque eu preferia passar fome a ver você se machucar. As palavras o fizeram engolir seco. Ele se levantou e saiu sem terminar o café. Beatriz olhou confusa. — Por que ele fala assim com você, mana? Laura forçou um sorriso. — Porque ele ainda não entende, pequena. Um dia, vai entender. Quando ficou sozinha, abriu a lata onde guardava o dinheiro. Notas amassadas, sujas, e algumas moedas que pareciam manchar os dedos. Guardou tudo em um envelope e escreveu “aluguel” por cima. A cada semana, separava o suficiente para pagar a casa, comprar comida e remédios. O resto, usava para fingir que estava tudo bem. Mas nada estava. Durante o banho, notou manchas roxas nas coxas, o corpo coberto de marcas invisíveis e visíveis. Algumas vinham da brutalidade dos homens. Outras, da forma como se agarrava à própria pele, tentando não chorar. Lavava-se até arder, como se pudesse arrancar o passado com as unhas. Ao sair, vestiu a roupa limpa, prendeu o cabelo e se sentou com o diário no colo. As palavras saíram trêmulas: “O corpo apanha, mas o pior é a alma. O corpo sara. A alma sangra em silêncio.” Fechou o caderno, respirou fundo e se preparou pra mais uma noite. O tempo passou diferente depois daquilo. Os dias pareciam breves, as noites infinitas. Mônica continuava sendo sua única amiga naquele submundo. — Tem que aprender a se proteger, flor. — dizia ela. — Não dá pra confiar em ninguém. — Eu só quero sair disso. — Todo mundo quer. Mas ninguém sai inteiro. Numa das noites, Mônica lhe emprestou um batom vermelho. — Isso ajuda a parecer mais forte. — Eu não quero parecer nada. — Então vão te engolir viva. — respondeu, sem drama. — Aqui, quem não finge ser ferro vira pó. Laura passou o batom diante do espelho trincado. O contraste com a pele pálida a fez parecer outra pessoa. Por um instante, acreditou que talvez aquilo funcionasse — que talvez o batom fosse uma armadura. Mas ao ver o olhar vazio refletido, entendeu que era só maquiagem em cima da dor. Os clientes vinham como maré: imprevisíveis, às vezes violentos, às vezes gentis demais. Havia os que pagavam para esquecer suas esposas, os que pagavam para humilhar, e os que pagavam porque não sabiam amar de outro jeito. Cada um deixava um pedaço dela para trás. Uma noite, um homem mais velho, com cheiro de álcool e arrogância, apertou forte demais. Laura tentou se soltar, mas ele insistiu. — Cala a boca! — gritou, segurando seu rosto. Quando ele a empurrou contra a parede, o sangue escorreu do nariz. Ela não gritou. Não chorou. Esperou acabar. E quando ele foi embora, deixou o dinheiro na mesa como se tivesse pago um jantar. Laura ficou parada olhando as notas ensanguentadas. Limpou o rosto com a manga e pensou em jogar tudo fora. Mas o estômago de Beatriz voltou à mente. Guardou o dinheiro com as mãos trêmulas. “As moedas e o sangue se misturam, mas o pão precisa ser comprado.” No dia seguinte, foi até a farmácia comprar remédio pra dor. O farmacêutico, um homem jovem, a olhou com desconfiança. — Tá tudo bem? — Tá sim. — Sangue no lábio, olho inchado… parece que não. — Só cai da escada. Ele não acreditou, mas não perguntou mais nada. Saiu dali com a sensação de que todo mundo sabia, e que ninguém se importava. Ao voltar, encontrou Lucas sentado no sofá, o olhar duro. — Onde você tava? — Trabalhando. — Trabalhando ou se vendendo? — disse, cuspindo as palavras. Laura congelou. — Não fala assim. — Falo sim! — gritou ele, levantando-se. — Você acha que engana quem? A rua inteira fala de você! Ela sentiu o chão sumir. Beatriz acordou com o barulho e começou a chorar. — Para, Lucas! — pediu Laura. — Ela não precisa ouvir isso! — E eu precisava? — rebateu ele, a voz falhando. — Eu te amava, Laura! Te via como mãe! E agora só vejo… — parou, engolindo o resto. As lágrimas dela desceram sem pedir permissão. — Eu fiz isso por vocês. — Eu não pedi! — respondeu ele, saindo e batendo a porta com força. O silêncio que ficou foi pior do que os gritos. Beatriz a abraçou, assustada. — Não chora, mana. Eu te amo. Laura a segurou com força, como se o abraço da menina fosse o único fio que a mantinha viva. Naquela noite, Laura não foi trabalhar. Ficou sentada na janela, o diário aberto no colo, o vento frio entrando. As palavras fluíram sozinhas: “As moedas e o sangue se confundem, o certo e o errado também. Não há santidade em sobreviver, só culpa.” Fechou o caderno e chorou baixinho, como fazia sempre. Mas algo dentro dela começava a mudar. Não era força — era endurecimento. O tipo de força que vem quando já se perdeu quase tudo. Dias depois, Lucas voltou. Entrou calado, sem olhar para ela. — Eu… não devia ter gritado. — Tá tudo bem. — Não tá, Laura. — Ele olhou o chão. — Eu só… não aguento te ver desse jeito. — Nem eu. — respondeu, com um sorriso triste. — Mas às vezes, a vida não pergunta o que a gente quer. Lucas assentiu, mudo. E naquele instante, um pacto silencioso se formou: o de nunca mais falar sobre o que ela fazia. Cada um carregaria seu pedaço de vergonha em silêncio. As semanas seguintes trouxeram rotina. Trabalhar, voltar, esconder, fingir. O dinheiro começou a pagar dívidas antigas. O dono da casa parou de ameaçar despejo. Os vizinhos pararam de comentar alto. Mas o preço da paz era alto demais. Uma noite, enquanto Mônica retocava a maquiagem, perguntou: — Já pensou em parar? — Todo dia. — E por que não para? — Porque ainda tenho bocas pra alimentar. — E quando eles crescerem? — Aí eu paro. Mônica riu, amarga. — Nenhuma de nós para, Laura. A rua gruda na pele. Laura ficou em silêncio. Talvez Mônica tivesse razão. Mas dentro dela, uma voz pequena ainda insistia que haveria um fim — que um dia as moedas deixariam de vir manchadas de sangue. Ao voltar pra casa, encontrou Beatriz dormindo no chão, abraçada ao caderno dela. Tirou devagar das mãos da menina e abriu. A página estava rabiscada com corações coloridos. No meio, Beatriz havia escrito com letra torta: “Pra minha mana, que é a mais boa do mundo.” Laura chorou. Chorou até não ter mais forças. Porque, naquele papel infantil, havia um amor puro demais para alguém que já se sentia tão suja. Fechou o caderno e escreveu logo abaixo: “As moedas e o sangue não definem quem eu sou. Eu ainda sou a irmã que promete cuidar. E um dia, quando tudo isso acabar, vou provar que ainda sei amar.” Encostou a testa no papel e deixou que as lágrimas molhassem as palavras. Lá fora, o vento soprava forte, como se quisesse apagar o passado. Mas o passado não se apaga. Ele marca — e sangra. E, enquanto o sol nascia lá fora, Laura percebeu que estava viva, mas não inteira. Era uma sobrevivente. E sobreviver, às vezes, é a forma mais triste de existir.
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