As primeiras luzes da manhã entravam pela janela, atravessando o ar empoeirado e desenhando faixas douradas sobre o chão frio.
Laura chegou em casa exausta, com o corpo dolorido e a cabeça cheia de vozes que não conseguia calar.
Cada passo doía, cada respiração ardia.
A madrugada tinha sido longa, pesada, e o dinheiro que trazia nos bolsos parecia pesar toneladas.
Jogou o casaco sobre a cadeira e se encostou na parede.
As mãos tremiam. O cheiro dos homens ainda grudava nela, misturado a perfume barato e cigarro.
O estômago revirava.
Correu até o banheiro, ajoelhou-se e vomitou o pouco que havia comido.
Depois se levantou devagar e olhou o espelho.
O reflexo devolveu o rosto de uma estranha.
Olheiras profundas, boca seca, olhos sem brilho.
Passou os dedos pelo rosto e sentiu o corte pequeno no lábio — lembrança da noite anterior, quando um cliente bêbado a empurrou com força.
O sangue seco no canto da boca era o retrato exato da vida que começava a levar.
“Eu não sou isso”, pensou, mas a frase soou fraca.
“Sou uma irmã tentando salvar os meus.”
E mesmo que acreditasse, não deixava de doer.
Quando saiu do banheiro, Beatriz já estava acordada.
A menina correu até ela com um sorriso sonolento.
— Mana! Trouxe pão?
Laura sorriu, forçando leveza.
— Trouxe, sim.
Pegou a sacola e colocou o café na mesa.
Os olhos da irmã brilharam diante do simples pão com manteiga.
Lucas apareceu em seguida, o rosto sério, o olhar frio.
Sentou-se em silêncio, começou a comer sem dizer nada.
Laura fingiu não perceber o desprezo disfarçado.
Sabia que ele desconfiava.
Sabia que estava aprendendo a odiá-la, e não o mundo que a empurrou pra aquilo.
— Lucas… — começou.
— Não precisa. — interrompeu ele. — Eu sei que é por nós.
— Então por que esse olhar?
— Porque eu preferia passar fome a ver você se machucar.
As palavras o fizeram engolir seco.
Ele se levantou e saiu sem terminar o café.
Beatriz olhou confusa.
— Por que ele fala assim com você, mana?
Laura forçou um sorriso.
— Porque ele ainda não entende, pequena. Um dia, vai entender.
Quando ficou sozinha, abriu a lata onde guardava o dinheiro.
Notas amassadas, sujas, e algumas moedas que pareciam manchar os dedos.
Guardou tudo em um envelope e escreveu “aluguel” por cima.
A cada semana, separava o suficiente para pagar a casa, comprar comida e remédios.
O resto, usava para fingir que estava tudo bem.
Mas nada estava.
Durante o banho, notou manchas roxas nas coxas, o corpo coberto de marcas invisíveis e visíveis.
Algumas vinham da brutalidade dos homens. Outras, da forma como se agarrava à própria pele, tentando não chorar.
Lavava-se até arder, como se pudesse arrancar o passado com as unhas.
Ao sair, vestiu a roupa limpa, prendeu o cabelo e se sentou com o diário no colo.
As palavras saíram trêmulas:
“O corpo apanha, mas o pior é a alma.
O corpo sara.
A alma sangra em silêncio.”
Fechou o caderno, respirou fundo e se preparou pra mais uma noite.
O tempo passou diferente depois daquilo.
Os dias pareciam breves, as noites infinitas.
Mônica continuava sendo sua única amiga naquele submundo.
— Tem que aprender a se proteger, flor. — dizia ela. — Não dá pra confiar em ninguém.
— Eu só quero sair disso.
— Todo mundo quer. Mas ninguém sai inteiro.
Numa das noites, Mônica lhe emprestou um batom vermelho.
— Isso ajuda a parecer mais forte.
— Eu não quero parecer nada.
— Então vão te engolir viva. — respondeu, sem drama. — Aqui, quem não finge ser ferro vira pó.
Laura passou o batom diante do espelho trincado.
O contraste com a pele pálida a fez parecer outra pessoa.
Por um instante, acreditou que talvez aquilo funcionasse — que talvez o batom fosse uma armadura.
Mas ao ver o olhar vazio refletido, entendeu que era só maquiagem em cima da dor.
Os clientes vinham como maré: imprevisíveis, às vezes violentos, às vezes gentis demais.
Havia os que pagavam para esquecer suas esposas, os que pagavam para humilhar, e os que pagavam porque não sabiam amar de outro jeito.
Cada um deixava um pedaço dela para trás.
Uma noite, um homem mais velho, com cheiro de álcool e arrogância, apertou forte demais.
Laura tentou se soltar, mas ele insistiu.
— Cala a boca! — gritou, segurando seu rosto.
Quando ele a empurrou contra a parede, o sangue escorreu do nariz.
Ela não gritou.
Não chorou.
Esperou acabar.
E quando ele foi embora, deixou o dinheiro na mesa como se tivesse pago um jantar.
Laura ficou parada olhando as notas ensanguentadas.
Limpou o rosto com a manga e pensou em jogar tudo fora.
Mas o estômago de Beatriz voltou à mente.
Guardou o dinheiro com as mãos trêmulas.
“As moedas e o sangue se misturam,
mas o pão precisa ser comprado.”
No dia seguinte, foi até a farmácia comprar remédio pra dor.
O farmacêutico, um homem jovem, a olhou com desconfiança.
— Tá tudo bem?
— Tá sim.
— Sangue no lábio, olho inchado… parece que não.
— Só cai da escada.
Ele não acreditou, mas não perguntou mais nada.
Saiu dali com a sensação de que todo mundo sabia, e que ninguém se importava.
Ao voltar, encontrou Lucas sentado no sofá, o olhar duro.
— Onde você tava?
— Trabalhando.
— Trabalhando ou se vendendo? — disse, cuspindo as palavras.
Laura congelou.
— Não fala assim.
— Falo sim! — gritou ele, levantando-se. — Você acha que engana quem? A rua inteira fala de você!
Ela sentiu o chão sumir.
Beatriz acordou com o barulho e começou a chorar.
— Para, Lucas! — pediu Laura. — Ela não precisa ouvir isso!
— E eu precisava? — rebateu ele, a voz falhando. — Eu te amava, Laura! Te via como mãe! E agora só vejo… — parou, engolindo o resto.
As lágrimas dela desceram sem pedir permissão.
— Eu fiz isso por vocês.
— Eu não pedi! — respondeu ele, saindo e batendo a porta com força.
O silêncio que ficou foi pior do que os gritos.
Beatriz a abraçou, assustada.
— Não chora, mana. Eu te amo.
Laura a segurou com força, como se o abraço da menina fosse o único fio que a mantinha viva.
Naquela noite, Laura não foi trabalhar.
Ficou sentada na janela, o diário aberto no colo, o vento frio entrando.
As palavras fluíram sozinhas:
“As moedas e o sangue se confundem,
o certo e o errado também.
Não há santidade em sobreviver,
só culpa.”
Fechou o caderno e chorou baixinho, como fazia sempre.
Mas algo dentro dela começava a mudar.
Não era força — era endurecimento.
O tipo de força que vem quando já se perdeu quase tudo.
Dias depois, Lucas voltou.
Entrou calado, sem olhar para ela.
— Eu… não devia ter gritado.
— Tá tudo bem.
— Não tá, Laura. — Ele olhou o chão. — Eu só… não aguento te ver desse jeito.
— Nem eu. — respondeu, com um sorriso triste. — Mas às vezes, a vida não pergunta o que a gente quer.
Lucas assentiu, mudo.
E naquele instante, um pacto silencioso se formou: o de nunca mais falar sobre o que ela fazia.
Cada um carregaria seu pedaço de vergonha em silêncio.
As semanas seguintes trouxeram rotina.
Trabalhar, voltar, esconder, fingir.
O dinheiro começou a pagar dívidas antigas.
O dono da casa parou de ameaçar despejo.
Os vizinhos pararam de comentar alto.
Mas o preço da paz era alto demais.
Uma noite, enquanto Mônica retocava a maquiagem, perguntou:
— Já pensou em parar?
— Todo dia.
— E por que não para?
— Porque ainda tenho bocas pra alimentar.
— E quando eles crescerem?
— Aí eu paro.
Mônica riu, amarga.
— Nenhuma de nós para, Laura. A rua gruda na pele.
Laura ficou em silêncio.
Talvez Mônica tivesse razão.
Mas dentro dela, uma voz pequena ainda insistia que haveria um fim — que um dia as moedas deixariam de vir manchadas de sangue.
Ao voltar pra casa, encontrou Beatriz dormindo no chão, abraçada ao caderno dela.
Tirou devagar das mãos da menina e abriu.
A página estava rabiscada com corações coloridos.
No meio, Beatriz havia escrito com letra torta:
“Pra minha mana, que é a mais boa do mundo.”
Laura chorou.
Chorou até não ter mais forças.
Porque, naquele papel infantil, havia um amor puro demais para alguém que já se sentia tão suja.
Fechou o caderno e escreveu logo abaixo:
“As moedas e o sangue não definem quem eu sou.
Eu ainda sou a irmã que promete cuidar.
E um dia, quando tudo isso acabar, vou provar que ainda sei amar.”
Encostou a testa no papel e deixou que as lágrimas molhassem as palavras.
Lá fora, o vento soprava forte, como se quisesse apagar o passado.
Mas o passado não se apaga.
Ele marca — e sangra.
E, enquanto o sol nascia lá fora, Laura percebeu que estava viva, mas não inteira.
Era uma sobrevivente.
E sobreviver, às vezes, é a forma mais triste de existir.