A noite caiu mais cedo do que o costume, vestindo a cidade com um silêncio estranho.
Laura sentia que algo dentro dela estava prestes a quebrar.
As contas estavam em cima da mesa, o armário vazio, a febre de Beatriz voltara, e Lucas não falava com ela havia dois dias.
Tudo cheirava a desespero.
Sentada no chão, de frente para a parede, Laura passava os dedos pelo caderno azul.
Havia palavras escritas em todas as páginas — pedidos, orações, raiva, medo.
Mas nenhuma resposta.
O diário era o único lugar onde ela podia ser quem era de verdade: uma menina com fome, cansada e exausta de ser forte.
Escreveu com a caneta quase sem tinta:
“Se eu fizer o que penso em fazer, que Deus me perdoe.
Não é pecado quando é pra salvar alguém que você ama.”
Fechou o caderno, respirou fundo e vestiu o casaco velho.
A chuva fina fazia a rua parecer um espelho sujo.
Caminhou devagar, olhando os rostos das pessoas apressadas.
Ninguém a via. Ninguém nunca via.
O ponto de Mônica ficava em uma esquina iluminada por um poste trêmulo, perto de um bar que nunca fechava.
As mulheres ali usavam batom forte, roupas curtas e olhos cansados.
Falavam alto, riam com ironia, como quem já esqueceu o gosto da esperança.
Mônica estava fumando quando a viu.
— Eu sabia que você ia aparecer — disse, soltando a fumaça.
Laura ficou parada, envergonhada.
— Eu… preciso de ajuda.
— Não precisa se explicar, querida. Nenhuma de nós queria estar aqui.
Mônica pegou uma sombrinha rasgada e a puxou para debaixo dela.
— Quantos anos?
— Dezessete.
— Tem documento?
— Não.
— Melhor assim.
Laura não entendeu.
Mônica riu sem humor.
— Documento é só pra quem tem história limpa. Aqui, o passado a gente deixa morrer.
O primeiro cliente apareceu meia hora depois.
Um homem de terno barato, cheiro de álcool e perfume forte.
Olhou para Laura como quem escolhe uma mercadoria.
— A nova? — perguntou a Mônica.
— É. — respondeu seca. — Seja gentil, ela tá começando.
— Gentil? — Ele riu. — Não pago pra ser gentil.
Laura engoliu o medo.
Mônica a puxou de lado e sussurrou:
— É só o começo, flor. Você vai se acostumar.
— Eu nunca vou me acostumar.
— Vai sim. A gente sempre se acostuma ao inferno.
O quarto era pequeno, m*l iluminado e cheirava a desinfetante velho.
A cama rangia quando ela sentou.
O homem tirou o paletó, sem pressa.
— Tira a roupa.
As mãos dela tremiam.
Fez o que ele pediu, o coração batendo descompassado.
Ele a empurrou na cama, rude, como se ela fosse um objeto.
As lágrimas desceram silenciosas.
“Pense nos seus irmãos”, repetia mentalmente.
“Pense nos pratos cheios.”
O corpo obedeceu, mas a alma fugiu.
Quando tudo acabou, ele jogou o dinheiro sobre a mesa e saiu sem olhar pra trás.
Laura ficou parada, olhando para as notas amassadas.
Pareciam sujas, mesmo que estivessem novas.
Levantou-se, foi até o banheiro e se lavou até a pele arder.
A água escorria, mas o nojo não saía.
No espelho rachado, m*l reconheceu o próprio rosto.
Os olhos, antes castanhos e vivos, agora pareciam cinzentos.
“É só uma vez”, disse a si mesma.
Mas no fundo, sabia que não era.
Na rua, Mônica esperava.
— Sobreviveu?
Laura assentiu em silêncio.
Mônica acendeu outro cigarro e estendeu o maço.
— Quer?
— Nunca fumei.
— Vai começar agora?
— Não. — respondeu, firme.
Mônica riu. — Então ainda tem alma. Aproveita enquanto tem.
Laura não respondeu. Guardou o dinheiro no bolso e caminhou de volta pra casa.
Cada passo era pesado, como se o chão puxasse suas pernas pra baixo.
Ao entrar, a casa estava escura.
Beatriz dormia abraçada ao travesseiro.
Lucas fingia dormir, mas a viu chegar.
Ela colocou o dinheiro dentro de uma lata e guardou embaixo do colchão.
Depois sentou-se ao lado da cama e passou a mão no cabelo da irmã.
O toque suave a fez chorar em silêncio.
Naquele momento, entendeu que havia vendido algo que nunca poderia comprar de volta: a própria paz.
Abriu o diário e escreveu:
“Hoje matei uma parte de mim.
Não sei qual, mas doeu como se fosse o coração.”
Os dias seguintes foram iguais e piores.
Os clientes vinham e iam.
Alguns calados, outros cruéis.
Havia os que pediam carinho e os que queriam humilhar.
No começo, ela chorava depois de cada noite.
Depois, parou de chorar.
Não porque a dor diminuiu, mas porque o corpo aprendeu a guardar lágrimas.
Mônica ensinou truques de sobrevivência:
— Nunca olha nos olhos por muito tempo. Eles confundem olhar com entrega.
— Fala pouco, pensa menos.
— E, acima de tudo, nunca se apaixone.
Laura ouviu tudo, mas não prometeu nada.
Sabia que o coração humano é teimoso.
Um dia, um cliente diferente apareceu.
Terno caro, barba feita, voz calma.
— Quanto tempo? — perguntou ele.
— Uma hora.
— Tá bom.
Ele não a tocou de imediato.
Ficou apenas olhando.
— Você tem nome? —
— Laura.
— Eu sou Gabriel.
O nome soou bonito.
Ela desviou o olhar, tentando manter o ar profissional.
— O que quer que eu faça? —
— Nada. Só senta comigo.
Laura estranhou.
— Não quer…?
— Não. Eu só quero conversar.
Foi a primeira vez que alguém pediu sua presença, não seu corpo.
E pela primeira vez em muito tempo, Laura se sentiu vista.
Conversaram sobre coisas simples: o som do mar, o cheiro de café, livros que ela nunca leu.
Gabriel tinha um jeito calmo de falar, sem pressa.
Quando o relógio marcou o fim da hora, ele levantou-se, colocou o dinheiro na mesa e disse:
— Se um dia quiser parar, eu posso ajudar.
Ela riu, amarga.
— Ninguém ajuda uma prostituta, moço.
— Talvez alguém que já se perdeu também ajude.
E foi embora.
Laura ficou olhando para a porta fechada, sem entender por que aquele homem mexera tanto com ela.
Guardou o dinheiro, mas o valor que ficou não era material.
Era o início de uma lembrança que o tempo não apagaria.
Nos dias seguintes, tentou esquecê-lo.
Mas o nome dele ecoava na mente, entre uma noite e outra.
Gabriel.
Um nome simples, mas que trazia paz quando tudo nela era tempestade.
Mônica percebeu.
— Tá pensando em alguém, né?
— Não.
— Tá sim. E cuidado, flor. Quem pensa demais acaba sentindo.
— Eu não posso sentir nada.
— Então vai morrer por dentro.
Laura ficou em silêncio.
Talvez Mônica estivesse certa.
Mas, para quem vive do corpo, morrer por dentro era a única forma de continuar viva.
Certa noite, um cliente bêbado tentou machucá-la.
Ela gritou, mas ninguém ouviu.
Conseguiu fugir, o corpo tremendo.
Mônica a encontrou no beco, chorando.
— É assim mesmo, flor. Às vezes, a gente volta pra casa inteira, às vezes, em pedaços.
Laura olhou para o céu nublado e pensou que Deus devia morar muito longe dali.
Talvez fosse por isso que nunca aparecia.
Dias viraram semanas.
O dinheiro começou a entrar.
A casa voltou a ter comida, remédios, até brinquedos para Beatriz.
Mas a alegria não veio junto.
Lucas percebia o vazio nos olhos da irmã e não perguntava.
Aprendera a não querer respostas.
Um dia, ao chegar do colégio, encontrou Laura dormindo sentada, com o rosto sobre o caderno.
Abriu devagar e leu as últimas palavras escritas:
“A fome deles acabou.
A minha começou.”
Fechou o diário e chorou baixinho, sem que ela percebesse.
Certa madrugada, Laura se levantou e olhou o espelho do banheiro.
Passou o dedo pelo vidro embaçado e desenhou um coração partido.
Lembrou da primeira noite — do medo, do nojo, da dor.
Pensou em quantas vezes ainda teria que repetir aquilo.
Mas então, uma lembrança atravessou o pensamento: o olhar de Gabriel.
A voz calma dizendo que ela podia parar.
E por um instante, o coração dela acreditou que talvez existisse um caminho fora daquele inferno.
Apagou o desenho no espelho, pegou o diário e escreveu:
“O inferno não é feito de fogo.
É feito de promessas quebradas e de olhos que te olham sem te ver.
Mas ontem, um homem me olhou diferente.
E isso me deu medo.
Porque, se ele estiver certo, talvez eu ainda tenha salvação.”
Fechou o diário e olhou pela janela.
A chuva parava, o céu clareava.
Lá fora, o mundo continuava o mesmo.
Mas dentro dela, uma semente minúscula de esperança começava a germinar — e isso, para alguém que vive de dor, já era um milagre.
Naquela noite, Laura voltou às ruas.
O coração batia rápido, o corpo frio.
Mas agora, no meio de tantas vozes, ela não se sentia completamente sozinha.
A lembrança de Gabriel era uma chama tímida em meio à escuridão.
E enquanto o barulho da cidade engolia seus pensamentos, ela caminhava, repetindo em silêncio:
“Não é pra sempre.
Um dia, eu vou sair daqui.”
O vento soprou forte, balançando os fios do cabelo.
As luzes da rua piscavam.
E Laura, pela primeira vez desde que vendera o próprio corpo, olhou pro alto e imaginou um futuro.
Talvez longe.
Talvez impossível.
Mas dela.
O primeiro inferno terminava ali.
E o recomeço, invisível, começava.