Primeira Noite, Primeiro Inferno

1554 Words
A noite caiu mais cedo do que o costume, vestindo a cidade com um silêncio estranho. Laura sentia que algo dentro dela estava prestes a quebrar. As contas estavam em cima da mesa, o armário vazio, a febre de Beatriz voltara, e Lucas não falava com ela havia dois dias. Tudo cheirava a desespero. Sentada no chão, de frente para a parede, Laura passava os dedos pelo caderno azul. Havia palavras escritas em todas as páginas — pedidos, orações, raiva, medo. Mas nenhuma resposta. O diário era o único lugar onde ela podia ser quem era de verdade: uma menina com fome, cansada e exausta de ser forte. Escreveu com a caneta quase sem tinta: “Se eu fizer o que penso em fazer, que Deus me perdoe. Não é pecado quando é pra salvar alguém que você ama.” Fechou o caderno, respirou fundo e vestiu o casaco velho. A chuva fina fazia a rua parecer um espelho sujo. Caminhou devagar, olhando os rostos das pessoas apressadas. Ninguém a via. Ninguém nunca via. O ponto de Mônica ficava em uma esquina iluminada por um poste trêmulo, perto de um bar que nunca fechava. As mulheres ali usavam batom forte, roupas curtas e olhos cansados. Falavam alto, riam com ironia, como quem já esqueceu o gosto da esperança. Mônica estava fumando quando a viu. — Eu sabia que você ia aparecer — disse, soltando a fumaça. Laura ficou parada, envergonhada. — Eu… preciso de ajuda. — Não precisa se explicar, querida. Nenhuma de nós queria estar aqui. Mônica pegou uma sombrinha rasgada e a puxou para debaixo dela. — Quantos anos? — Dezessete. — Tem documento? — Não. — Melhor assim. Laura não entendeu. Mônica riu sem humor. — Documento é só pra quem tem história limpa. Aqui, o passado a gente deixa morrer. O primeiro cliente apareceu meia hora depois. Um homem de terno barato, cheiro de álcool e perfume forte. Olhou para Laura como quem escolhe uma mercadoria. — A nova? — perguntou a Mônica. — É. — respondeu seca. — Seja gentil, ela tá começando. — Gentil? — Ele riu. — Não pago pra ser gentil. Laura engoliu o medo. Mônica a puxou de lado e sussurrou: — É só o começo, flor. Você vai se acostumar. — Eu nunca vou me acostumar. — Vai sim. A gente sempre se acostuma ao inferno. O quarto era pequeno, m*l iluminado e cheirava a desinfetante velho. A cama rangia quando ela sentou. O homem tirou o paletó, sem pressa. — Tira a roupa. As mãos dela tremiam. Fez o que ele pediu, o coração batendo descompassado. Ele a empurrou na cama, rude, como se ela fosse um objeto. As lágrimas desceram silenciosas. “Pense nos seus irmãos”, repetia mentalmente. “Pense nos pratos cheios.” O corpo obedeceu, mas a alma fugiu. Quando tudo acabou, ele jogou o dinheiro sobre a mesa e saiu sem olhar pra trás. Laura ficou parada, olhando para as notas amassadas. Pareciam sujas, mesmo que estivessem novas. Levantou-se, foi até o banheiro e se lavou até a pele arder. A água escorria, mas o nojo não saía. No espelho rachado, m*l reconheceu o próprio rosto. Os olhos, antes castanhos e vivos, agora pareciam cinzentos. “É só uma vez”, disse a si mesma. Mas no fundo, sabia que não era. Na rua, Mônica esperava. — Sobreviveu? Laura assentiu em silêncio. Mônica acendeu outro cigarro e estendeu o maço. — Quer? — Nunca fumei. — Vai começar agora? — Não. — respondeu, firme. Mônica riu. — Então ainda tem alma. Aproveita enquanto tem. Laura não respondeu. Guardou o dinheiro no bolso e caminhou de volta pra casa. Cada passo era pesado, como se o chão puxasse suas pernas pra baixo. Ao entrar, a casa estava escura. Beatriz dormia abraçada ao travesseiro. Lucas fingia dormir, mas a viu chegar. Ela colocou o dinheiro dentro de uma lata e guardou embaixo do colchão. Depois sentou-se ao lado da cama e passou a mão no cabelo da irmã. O toque suave a fez chorar em silêncio. Naquele momento, entendeu que havia vendido algo que nunca poderia comprar de volta: a própria paz. Abriu o diário e escreveu: “Hoje matei uma parte de mim. Não sei qual, mas doeu como se fosse o coração.” Os dias seguintes foram iguais e piores. Os clientes vinham e iam. Alguns calados, outros cruéis. Havia os que pediam carinho e os que queriam humilhar. No começo, ela chorava depois de cada noite. Depois, parou de chorar. Não porque a dor diminuiu, mas porque o corpo aprendeu a guardar lágrimas. Mônica ensinou truques de sobrevivência: — Nunca olha nos olhos por muito tempo. Eles confundem olhar com entrega. — Fala pouco, pensa menos. — E, acima de tudo, nunca se apaixone. Laura ouviu tudo, mas não prometeu nada. Sabia que o coração humano é teimoso. Um dia, um cliente diferente apareceu. Terno caro, barba feita, voz calma. — Quanto tempo? — perguntou ele. — Uma hora. — Tá bom. Ele não a tocou de imediato. Ficou apenas olhando. — Você tem nome? — — Laura. — Eu sou Gabriel. O nome soou bonito. Ela desviou o olhar, tentando manter o ar profissional. — O que quer que eu faça? — — Nada. Só senta comigo. Laura estranhou. — Não quer…? — Não. Eu só quero conversar. Foi a primeira vez que alguém pediu sua presença, não seu corpo. E pela primeira vez em muito tempo, Laura se sentiu vista. Conversaram sobre coisas simples: o som do mar, o cheiro de café, livros que ela nunca leu. Gabriel tinha um jeito calmo de falar, sem pressa. Quando o relógio marcou o fim da hora, ele levantou-se, colocou o dinheiro na mesa e disse: — Se um dia quiser parar, eu posso ajudar. Ela riu, amarga. — Ninguém ajuda uma prostituta, moço. — Talvez alguém que já se perdeu também ajude. E foi embora. Laura ficou olhando para a porta fechada, sem entender por que aquele homem mexera tanto com ela. Guardou o dinheiro, mas o valor que ficou não era material. Era o início de uma lembrança que o tempo não apagaria. Nos dias seguintes, tentou esquecê-lo. Mas o nome dele ecoava na mente, entre uma noite e outra. Gabriel. Um nome simples, mas que trazia paz quando tudo nela era tempestade. Mônica percebeu. — Tá pensando em alguém, né? — Não. — Tá sim. E cuidado, flor. Quem pensa demais acaba sentindo. — Eu não posso sentir nada. — Então vai morrer por dentro. Laura ficou em silêncio. Talvez Mônica estivesse certa. Mas, para quem vive do corpo, morrer por dentro era a única forma de continuar viva. Certa noite, um cliente bêbado tentou machucá-la. Ela gritou, mas ninguém ouviu. Conseguiu fugir, o corpo tremendo. Mônica a encontrou no beco, chorando. — É assim mesmo, flor. Às vezes, a gente volta pra casa inteira, às vezes, em pedaços. Laura olhou para o céu nublado e pensou que Deus devia morar muito longe dali. Talvez fosse por isso que nunca aparecia. Dias viraram semanas. O dinheiro começou a entrar. A casa voltou a ter comida, remédios, até brinquedos para Beatriz. Mas a alegria não veio junto. Lucas percebia o vazio nos olhos da irmã e não perguntava. Aprendera a não querer respostas. Um dia, ao chegar do colégio, encontrou Laura dormindo sentada, com o rosto sobre o caderno. Abriu devagar e leu as últimas palavras escritas: “A fome deles acabou. A minha começou.” Fechou o diário e chorou baixinho, sem que ela percebesse. Certa madrugada, Laura se levantou e olhou o espelho do banheiro. Passou o dedo pelo vidro embaçado e desenhou um coração partido. Lembrou da primeira noite — do medo, do nojo, da dor. Pensou em quantas vezes ainda teria que repetir aquilo. Mas então, uma lembrança atravessou o pensamento: o olhar de Gabriel. A voz calma dizendo que ela podia parar. E por um instante, o coração dela acreditou que talvez existisse um caminho fora daquele inferno. Apagou o desenho no espelho, pegou o diário e escreveu: “O inferno não é feito de fogo. É feito de promessas quebradas e de olhos que te olham sem te ver. Mas ontem, um homem me olhou diferente. E isso me deu medo. Porque, se ele estiver certo, talvez eu ainda tenha salvação.” Fechou o diário e olhou pela janela. A chuva parava, o céu clareava. Lá fora, o mundo continuava o mesmo. Mas dentro dela, uma semente minúscula de esperança começava a germinar — e isso, para alguém que vive de dor, já era um milagre. Naquela noite, Laura voltou às ruas. O coração batia rápido, o corpo frio. Mas agora, no meio de tantas vozes, ela não se sentia completamente sozinha. A lembrança de Gabriel era uma chama tímida em meio à escuridão. E enquanto o barulho da cidade engolia seus pensamentos, ela caminhava, repetindo em silêncio: “Não é pra sempre. Um dia, eu vou sair daqui.” O vento soprou forte, balançando os fios do cabelo. As luzes da rua piscavam. E Laura, pela primeira vez desde que vendera o próprio corpo, olhou pro alto e imaginou um futuro. Talvez longe. Talvez impossível. Mas dela. O primeiro inferno terminava ali. E o recomeço, invisível, começava.
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