A manhã chegou lenta, arrastando um cheiro de maresia e arrependimento. Laura ainda sentia o corpo pesado da noite anterior. Dormira pouco, mas dormira. O choro a fez desabar, e o sono veio como descanso e castigo ao mesmo tempo. Quando abriu os olhos, o quarto estava claro, e os irmãos brincavam na sala. O som da risada deles a fez sorrir por um segundo. Mas logo o peso voltou. Levantou devagar, lavou o rosto e olhou-se no espelho. Os olhos vermelhos, a pele pálida, o mesmo olhar cansado de sempre — mas agora havia algo novo. Um brilho quase imperceptível. Um começo de recomeço. O dia passou em silêncio. Laura limpou a casa, cozinhou, ajudou Lucas nas lições. Mas a cabeça estava longe, na praia, na voz de Gabriel, na maneira como ele a olhava. “Olha pra mim”, ele tinha dito.

