Laura nunca gostou de espelhos. Eles mostravam o que o mundo fez dela — e o que ela mesma evitava ver. Por muito tempo, bastava um reflexo para que tudo voltasse: os quartos, os rostos, o dinheiro sujo, a culpa. Mas naquela manhã, algo era diferente. O sol entrava pela janela, suave. O apartamento estava silencioso, o som distante das risadas de Beatriz ecoava da sala. Laura parou diante do espelho do banheiro e ficou ali, imóvel. Não sabia se queria se reconhecer ou se perdoar. A mulher que a encarava não era mais a garota perdida de anos atrás. Os olhos ainda traziam dor, mas também uma força nova. Havia rugas leves, marcas de cansaço, mas o rosto tinha vida. — Olha pra mim — murmurou. A voz saiu trêmula. — Olha pra mim, Laura. Sem fugir. Os olhos encheram-se de lágrimas.

