A madrugada chegava devagar, arrastando os sons da rua: passos apressados, carros distantes, o barulho de garrafas e risadas que ela conhecia bem.
Laura caminhava de volta pra casa, os sapatos molhados, o corpo doendo, o rosto marcado pelo vento.
As luzes fracas dos postes iluminavam as poças d’água no asfalto, refletindo um pedaço da lua.
Era uma noite fria, daquelas que pareciam cortar a pele.
Carregava o dinheiro dentro de uma sacola plástica. As notas estavam amassadas, sujas.
Cada centavo ali tinha um preço.
O tipo de preço que ninguém imagina quando compra o pão de manhã.
Ao virar a esquina, avistou a janela de casa. Luz apagada. Silêncio.
Suspirou.
Aquela era a única hora em que o mundo parecia perdoá-la — quando todos dormiam.
Abriu a porta devagar, para não acordar os irmãos.
O chão de cimento fazia frio nos pés.
Deixou o dinheiro dentro da lata escondida e caminhou até o quarto.
Beatriz dormia abraçada a um urso de pelúcia remendado, os cabelos espalhados no travesseiro.
Lucas, ao lado, de bruços, o braço estendido para fora da cama, a respiração lenta e pesada.
Laura parou ali, observando.
Eles pareciam anjos — e talvez fossem.
Anjos cansados de viver num inferno que não era deles.
Ajoelhou-se ao lado da cama e ficou olhando os dois por longos minutos.
Os rostos serenos contrastavam com a turbulência dentro dela.
Pensou em quantas noites ainda teria de vender pedaços de si para garantir aquele sono tranquilo.
Um vento entrou pela janela, e ela se encolheu.
O corpo pedia descanso. A mente, silêncio.
Mas o coração não parava de gritar.
Foi até a cozinha, acendeu a lamparina e colocou água pra ferver.
O vapor subiu, embaçando o vidro da janela.
Pegou o caderno e se sentou à mesa.
A caneta deslizou devagar sobre o papel:
“Hoje vi meus irmãos dormindo.
Eles sonham, e eu apenas sobrevivo.
Às vezes me pergunto se vale a pena continuar,
mas então lembro que o sono deles é o meu único descanso.”
Fechou o diário, encostou o rosto sobre a mesa e ficou ali, ouvindo o som da água fervendo.
Um ruído pequeno, constante, que parecia acompanhar sua respiração cansada.
Por um instante, pensou em si mesma quando criança — deitada na mesma cama, ouvindo a mãe cantar baixinho.
A lembrança veio com força, como um soco.
“Dorme, Laurinha, que o amanhã vai ser melhor.”
Mas o amanhã nunca veio.
O relógio marcava três da manhã quando ela decidiu tomar banho.
A água fria fez o corpo estremecer.
As marcas nos braços, nos quadris, no pescoço, contavam histórias que ela nunca teria coragem de dizer em voz alta.
Fechou os olhos e deixou que a água lavasse o sangue invisível — aquele que escorria por dentro.
“Eu não sou o que eles dizem”, pensou.
“Eu sou o que sobrou depois que o mundo me quebrou.”
Secou-se rápido, vestiu a camisola simples e foi até o quarto de novo.
Os pequenos continuavam dormindo, serenos.
Laura deitou-se no chão, perto deles.
Não tinha coragem de ocupar a cama.
Sentia que o chão era o lugar que merecia.
Mas quando Beatriz virou-se sonhando e, ainda dormindo, murmurou “mana”, o peito dela doeu.
A menina esticou a mãozinha, e Laura segurou com cuidado.
Ficaram assim — a mão da criança e a da mulher ferida, entrelaçadas na penumbra.
Por alguns segundos, ela se esqueceu de tudo.
A dor ficou menor.
O silêncio pareceu paz.
Quando o sol começou a nascer, os passarinhos começaram a cantar.
Laura se levantou devagar, fez café e fritou um ovo só — o último.
Dividiu em três partes.
Beatriz acordou primeiro, com o cabelo despenteado e o sorriso fácil.
— Bom dia, mana.
— Bom dia, meu amor.
— Hoje tem ovo!
Laura sorriu.
— Tem, sim.
Lucas chegou em seguida, com o uniforme da escola amarrotado.
Olhou o prato e sentou-se.
Não falou nada, mas comeu.
O silêncio entre eles ainda era um muro, mas já não era intransponível.
— Como foi o trabalho? — perguntou de repente.
Ela se engasgou com o café.
— Cansativo, mas tudo bem.
— Você… tá bem? — insistiu ele, sem encará-la.
Laura respirou fundo.
— Tô viva. É o que importa.
Ele não respondeu, mas o canto da boca dele tremia, como se quisesse dizer algo e não conseguisse.
Beatriz olhava de um pro outro, sem entender nada.
Laura apenas sorriu e bagunçou o cabelo da menina.
— Vai se arrumar, pequena.
Depois que os dois saíram, a casa ficou em silêncio.
Um silêncio pesado, daqueles que fazem eco.
Laura lavou as louças, varreu o chão e abriu a janela.
O sol entrava tímido, iluminando o lençol pendurado.
Sentou-se de novo e abriu o diário.
As páginas estavam manchadas de lágrimas antigas.
Leu o que havia escrito nas últimas noites.
Palavras quebradas, frases curtas, pedidos sem resposta.
“Eu tenho medo de esquecer quem eu era.”
“Talvez a esperança seja uma mentira bonita.”
“Um dia, quero acordar e não me sentir suja.”
Fechou o diário com força e o abraçou contra o peito.
Chorou em silêncio, até o corpo amolecer.
Quando levantou, olhou o espelho.
Viu a mulher que sobrevive, mas também a menina que ainda espera.
E, por um momento, sentiu pena das duas.
À tarde, foi até a feira comprar legumes.
Os feirantes a cumprimentavam com olhares rápidos, alguns curiosos demais.
Um homem cochichou para outro:
— É ela, a da esquina.
Laura ouviu. Fingiu que não.
A vergonha queimava como fogo.
Mas a fome não esperava.
Comprou o que precisava e voltou.
No caminho, passou por uma vitrine e viu o próprio reflexo.
Roupa simples, rosto bonito, mas cansado.
Havia algo estranho naquele olhar: era forte e, ao mesmo tempo, vazio.
O tipo de olhar que carrega segredos pesados demais para a idade.
Por um instante, pensou em como as pessoas enxergavam apenas o rótulo.
“Prostituta.”
Uma palavra curta, mas que carrega mil julgamentos.
Ninguém via o que existia antes disso — a menina, a fome, o desespero, o amor.
Ao chegar em casa, encontrou Beatriz colorindo um papel.
— Olha, mana! — disse a menina, orgulhosa. — É a gente!
No desenho, as três figuras estavam de mãos dadas, com corações flutuando em volta.
— Tá lindo, meu amor.
— A mamãe vai ver da onde ela tá?
Laura engoliu seco.
— Vai sim.
Beatriz sorriu, inocente, e correu pra brincar.
Laura guardou o desenho entre as páginas do diário.
Como se fosse um lembrete de que ainda havia algo puro em meio a tanta sujeira.
Naquela noite, não saiu para trabalhar.
Disse a Mônica que precisava descansar.
Deitou-se no chão, perto da cama dos irmãos, e ficou observando o teto rachado.
Cada rachadura parecia um caminho — um que levava a algum lugar que ela nunca poderia seguir.
Fechou os olhos, mas o sono não vinha.
As vozes da rua invadiam o quarto.
Risos, motores, música distante.
Tudo o que ela queria esquecer.
Levantou-se, foi até a janela e olhou para o céu.
As estrelas pareciam apagadas, mas ainda estavam lá.
Pensou em Gabriel — o homem de olhos verdes, o único que havia olhado pra ela sem nojo.
Lembrou do tom calmo da voz dele:
“Se um dia quiser parar, eu posso ajudar.”
Será que ele lembrava dela?
Ou seria só mais uma lembrança que o tempo apagaria?
Sentiu o coração apertar, e o medo voltou.
“Não se iluda, Laura. Esse tipo de gente não ama quem veio da lama.”
Mas uma parte dela queria acreditar que talvez, só talvez, existisse alguém capaz de ver além da sujeira.
Horas depois, quando finalmente conseguiu dormir, sonhou.
Sonhou com o mar — o mesmo mar da noite em que conheceu Gabriel.
Mas, desta vez, o mar estava calmo.
Ela caminhava pela areia, os pés afundando lentamente.
O vento era quente, e alguém chamava seu nome.
Virou-se e viu duas crianças correndo na sua direção — Lucas e Beatriz.
Ambos riam, livres, felizes.
E atrás deles, uma mulher caminhava em silêncio.
Tinha o rosto da mãe.
Laura acordou assustada, o coração disparado.
O sonho parecia real demais.
Sentou-se, respirou fundo e olhou os irmãos dormindo.
Por um instante, acreditou que o sonho tinha sido um aviso — de que o amor ainda era possível, de alguma forma.
Abriu o diário e escreveu, com a mão trêmula:
“Eles dormem e o mundo parece bom.
Eu olho pra eles e penso: talvez eu ainda tenha salvação.
Talvez o amor exista, mesmo que eu nunca o mereça.”
Fechou o caderno, apagou a luz e se deitou novamente.
O vento entrava pela janela, frio, mas suave.
E no meio do silêncio, Laura sorriu pela primeira vez em meses — um sorriso pequeno, quase imperceptível,
mas sincero.
Porque naquela noite, enquanto os pequenos dormiam, ela percebeu que ainda era capaz de sentir.
E sentir, depois de tanto tempo fingindo, era o começo de algo novo.