Ano 23

3929 Words
Se eu soubesse  quando criança que o tempo é algo que se perde, eu o teria segurado com força em meus braços, assim como o sol mantêm os planetas girando ao seu redor desde sempre. Certamente, eu faria isso. Deixaria o tempo ali, bem próximo à vista. Para que eu nunca o perdesse. Mas, eu não sabia. Acho que só percebemos a verdade sobre o tempo quando crescemos. E, na maioria das vezes, já o perdemos quando notamos isso. Às vezes por completo, ou, para os poucos afortunados, resta-lhes um tempo bem curto, aqueles últimos minutos para apreciar bons e preciosos momentos. Momentos da vida. Um abraço. Um beijo. Um carinho, um olhar. Um piscar de olhos. Os pingos de chuva escorrendo pela janela, a queda de uma folha no outono, árvores se dobrando lentamente com o fim do vento, espirais de creme se formando numa xícara de café. Quando percebemos, nos damos conta de que tudo, a vida e o tempo, são extremamente frágeis. Um dia, você está lá. No outro, não mais. Num sábado, sua mãe está lá, oferecendo-lhe um suco que ela mesma prepara, e você rejeita por preferir o seu refrigerante. Talvez no domingo ela não esteja. Talvez, ela não venha acordar. Isso é o tempo. Essa é a vida. Dezembro, 24. Ano 23. Hora Oito. —Ele volta. Ele prometeu. Esse ano. Nesse Natal. — Harold, o mais novo, disse. —Mas, alguém ainda comemora o Natal? — Lance, o mais velho, riu. —A nossa família. Nós comemoramos. — falei, olhando pela janela, esperançoso. —Ele disse a mesma coisa ano passado. E ano retrasado. Nem perco meu tempo. —Você não costumava ser pessimista, Zach. — e me direcionei a ele. —Eu só enxerguei a verdade antes. Só isso, Lest. Cinco irmãos. Essa é uma história não muito convencional, admito. É sobre o amor. Mas, não sobre aquele amor, onde as pessoas se beijam, depois, vão para em uma igreja dizendo 'sim'. E em seguida, os fihos. Uma família. Quero falar sobre um amor que já nasceu em família, não sobre aquele que, talvez, possa se tornar uma se o universo estiver de acordo. Somos cinco. Ou éramos. Cinco irmãos. Mamãe não teve a dádiva de conceber uma menina. O primogênito é Lance. Os gêmeos, Zach e Nicholas. Depois, eu. Por fim, Harold, o mais novo. No momento, desde os últimos três anos, somos quatro. É que Nicholas sempre foi o que sonhou mais alto entre nós. E hoje ele é cientista-astronauta. É uma profissão bem mais comum hoje do que fora por muitos anos, mas ainda assim, muitos preferem permanecer em solo firme na Nova Terra. Após a Nova Ordem e um novo mundo aqui, na Terra 2, a procura por outros planetas habitáveis se tornou ainda maior. Não estamos próximos a Antiga Terra. Nem um pouco. Foram quase vinte anos luz de viagem pelo espaço até os primeiros chegarem aqui. Isso aconteceu lá por volta dos anos 4000. A civilização e o tempo recomeçaram aqui, do zero. Hoje, mais de vinte anos depois, já estamos totalmente estabilizados. Ou quase. Antes que venha a dúvida, já adianto: a Terra Original não existe. Não por completo. Não mais. Nós acabamos com ela. Nossos antepassados. Só espero que não acabem com a segunda daqui uns quatro mil anos.  —Bem, preciso ir. Alguém precisa trabalhar aqui. —Harold começou a trabalhar de verdade ontem e já se acha alguém. —Eu sou alguém, Lance. —Uma salva de palmas para o adulto da casa, pessoal. Vamos lá. Lance começou a bater palmas sozinho. Zach até ameaçou a acompanhar a brincadeira, mas eu o encarei a tempo. Lance é o mais velho, mas não o que coloca ordem na família. —  Harold está se tornando adulto. Diferente de você. Lance está regredindo, na verdade. —  Cala a boca, Lest. —  Eu não aguento mais vocês. — Zach fechou a cara. O clima não era bom. Quase nunca. O que eu tinha falando mesmo? Ah, que era uma história sobre o amor. Bem, de certa forma, é, porque eu amo esses garotos. Mas, o amor mudou durante todo esse tempo de história da humanidade. Ou foram as pessoas que mudaram? Há um Livro Antigo, não muito cultuado aqui na Nova Terra, mas que meus pais valorizavam muito,  onde diz que, com o passar do tempo, o amor se esfriaria no coração das pessoas. Hoje, a quantidade de corações diminuiu consideravelmente. Androides. A culpa é deles, e, de certa forma, nossa, dos Humanos também. Quanto mais robôs, menos corações. E quanto menos corações, menos amor. Acho que essa é a equação. Não que os robôs sejam ruins, eles até nos tratam bem, muito bem. Melhor que muitos humanos, por sinal. Um Androide sempre faz o trabalho dele certo, independente do dia, da hora, do momento. Não há riscos de um mau atendimento, até porque, robôs não possuem sentimentos, logo, não há chance de pegarmos um robô mau humorado numa manhã de segunda. —  Qual o problema dele? — Lance balançou a cabeça enquanto observávamos Zach sair de casa furioso. —  Cada um tem o seu. Esse é o dele. — Harold disse. —  Vai logo, pirralho. — Lance resmungou. —  Tenha um bom dia. — disse, e o mais novo de nós partiu para sua Jornada Diária. Essa Jornada Diária todos nós temos. Varia conforme a idade. Aos 12, por exemplo, quando tudo começa para os meninos e meninas da Terra 2, o nosso dever é ajudar a manter a cidade limpa e as crianças mais novas em ordem. Todas elas devem estar em suas casas quando a Hora 28 chega. É, o tempo mudou. Trinta e duas horas diárias. E, caso você se pergunte se nos sobra tempo por aqui, não posso afirmar uma verdade absoluta, afinal, cada pessoa administra o tempo de sua própria maneira. Acredito que na Terra Original havia pessoas que precisavam muito mais que vinte e quatro horas por dia, assim como deveria existir outras que achavam que era tempo suficiente ou até demais. Os depressivos, por exemplo. Para eles, um minuto é como um milhão de anos. E um milhão de anos é como um minuto. A felicidade passa rápido, já a tristeza, parece infinita. Harold completou 16 no último mês. A nova tarefa dele é participar da equipe que cuida do que chamamos de Nova Natureza. Diferente da Terra, o céu não é azul, como nas imagens dos arquivos antigos sobre o antigo planeta. O mar também não parece da mesma cor. E eu nunca vi um pedaço de chão tão esverdeado. Os animais, eles são bem diferentes também. Eu não consigo achar os daqui estranho, na verdade, eu acho os da Terra 1 exóticos, mas, pelo o que dizem, é o contrário. E é basicamente isso que Harold faz. Durante dois anos, ele irá estudar tudo sobre as plantas, os animais, as células, as bactérias. Tudo novo. Chamava-se Biologia, antigamente. Mas a forma como a estudavam era completamente estúpida. Já eu tenho 18. Saí da Nova Natureza há pouco. Agora, o meu dever é com o futuro da nossa T2. Passo pouco mais de dez horas em treinamento dentro do Centro de Reprodução Novo. Lá, garantimos nossas próximas gerações por anos e anos. O que me leva a contar a história da minha família. Logo após a saída de Harold, visitei Nancy antes de partir para minha Jornada Diária. Nós costumamos conversar quase todos os dias, às oito da manhã. É como tentamos lidar com toda nossa situação estranha. —  Acho que não estou preparada. — ela resmungou, quase uma hora depois de conversa. —  Para o quê? —  Centro de Reprodução. —É legal. Lá. — Hm. Nossas conversas costumam ser assim. Eu não sei bem como responder as perguntas de Nancy. Ela sempre pareceu tão mais adulta que eu, e, vendo-a estranhar uma nova situação me deixou confuso. Nancy sempre pareceu muito preparada. Muito mais que eu. Em tudo. — Você gosta de mim? — Como assim? — ela semicerrou os olhos. —Você deveria gostar de mim. E eu de você. —Então você não gosta de mim? — Nancy virou o jogo. O meu rei estava em xeque temporário e eu não sabia como escapar da derrota. —Eu gosto. — sussurei, tenso, alguns segundos depois. —Quem sabe eu goste também. — foi o que ela disse, meio séria, meio engraçada. Xeque-mate. É uma história horripilante. O único que se deu bem, por enquanto, foi Lance, o mais velho. Quando nossos pais foram enviados da Terra 1, assinaram um termo onde eles se comprometiam a contribuir com o futuro da humanidade, tendo pelo menos cinco filhos do s**o masculino. E cada família tinha o seu par. E o meu, em específico, era Nancy. Ela tem outras quatro irmãs, geradas exclusivamente para os meus outros quatro irmãos. Todos nós fomos por fertilização, claro. A garantia do equilíbrio entre ambos os sexos na Nova Ordem é primordial, e todos sabiam disso desde o fim da T1. Mamãe explicou que, quando nem sonhávamos em nascer, há muito, muito tempo, famílias faziam alianças como esta, onde o filho de alguém se compromete a casar com o outra, de outro. É confuso, mas o nosso é um pouco menos complicado. Eu não preciso casar com Nancy Dyer, não mesmo. Nós só precisamos reproduzir, é o nosso dever como cidadão. O único problema, um grande problema, é que eu não sinto atração por Nancy. E nem por qualquer outra garota. — Que horas ele disse que chega? — Lance encurralou-me em nosso local de trabalho. —A noite. Depois da Hora 28. Então, você acredita que ele vem, não é? —Preciso voltar a trabalhar. —Sei que acredita. Nem adianta mentir. —Você não tem nenhum trabalho pra fazer não, garoto? — e saiu pelos corredor 12. Lance e eu trabalhamos juntos. Ele é superior a mim, claro, já tem 22, e a sua Dyer, Millie, tem 21 anos. Ambos escolheram permanecer no CRN por mais tempo. Quando se faz 20, o cidadão deve escolher em que área irá permanecer durante os seus próximos 10 anos. Zach era o próximo a definir o seu futuro. Nicholas definiu antes simplesmente por ser muito acima da média.  O caso de amor entre os dois foi o único que deu certo. Basicamente, Zach e Nicholas combinaram com suas Dyer's de t*****r  quando a idade obrigatória máxima para reprodução chegasse (21 anos). Millie está grávida de gêmeos. Eles já tem o seu par de gêmeas garantidos por um outro casal de mesma idade. E assim continua, até não mais ser necessário. Pelo menos foi o que nos prometeram. —Viu um fantasma, Lester? —Quê? —Fantasma. Mitologia da T1. —Eu sei o que são fantasmas. —E então? Viu um? —Mas, eles não existem, Gaten... —Lester, Lester... — Gaten riu. —Que foi? —Vive olhando pro nada, distraído. Ficou assim a semana toda. —AAAAAH! — sorri para ele. — É pelo meu irmão. Nicholas. Ele volta nesse Natal. —Natal? — Gat riu mais ainda. —Enfim. Ele vai voltar. Vai sim... —Desculpe. Gaten foi a solução para minha Grande Equação Existencial. Eu praticamente nasci sabendo que estava destinado, de certa forma, a ter uma relação com Nancy, mesmo que apenas casual. E, essa falta de atração por ela desde sempre me deixou perdido até eu entrar no CRN, onde o encontrei. Sempre ouvi Zach e Lance falar sobre garotas de uma maneira que eu não conseguia me enxergar, não do modo que eles falavam, e como falavam. Quando Gaten esbarrou comigo em minha primeira semana no Centro de Reprodução, tudo fez sentido. Aquele sorriso, a sua voz, o seu olhar. Eu ainda não sei se ele sente o mesmo tipo de coisa que eu, mas, vez ou outra, eu acabo sonhando com um momento onde ele vem até mim e nos beijamos. Isso é bem Cinema da T1. Meus irmãos ririam de mim por isso. —Todos em casa, menos o Zach. —E o Nicholas. — Harold completou. —Ele não vem, i****a. — Lance completou. Millie, que estava presente para o jantar de Natal, o encarou bravamente. Mas ele nem ligou. —Dá pra manter a paz? Só hoje? —Acho que o Lance não conhece essa palavra. — Millie comentou, rindo. —Você gosta realmente dele? — Harold perguntou. —Cadê o Zach? Que d***a. — resmunguei. Estávamos todos sentados a mesa quando mais um irmão passou pela porta. Por um momento, pensamos que fosse Zach. Mas, era alguém bem parecido com ele. O Nicholas havia voltado. Ele finalmente havia voltado. —Você é uma miragem. Um Androide! Não é real! — disse Lance quando abraçou o irmão, contente. — Olhe, olhe. Vou ser pai. Millie, vem cá, mostre o nosso filho a ele! —Como você está enorme, garoto. — Nicholas disse quando Harold repousou sobre o seu peito. — Por quanto tempo eu sumi? —Três anos? — disse, quando finalmente fui abraçar meu irmão. O tempo. Ele escorreu pelas nossas mãos como o vento passa e ninguém vê, apenas sente. E nós sentimos falta dele. Do tempo que tínhamos com ele. Com o Nicholas. Ele certamente era o preferido de todos nós. O mais amável, mais inteligente, o prodígio, orgulho da família. Acho que Zach se sente um pouco m*l por isso. Por ter a mesma fisonomia de Nicholas, mas ser o oposto do irmão. Nós já cansamos de falar de que todos nós somos iguais, mas, na verdade, todos nós concordamos pela preferência do Nick, mas ninguém fala abertamente sobre isso. Zach tem os seus motivos para ser meio revoltado, afinal. Depois de tantos anos e todos os efeitos da Ciência Moderna, dizer que algo não tem explicação é inválido. Hoje, tudo tem uma razão. E Zach tem as suas razões. —Cadê ele? —Conta sobre a viagem! Como é lá? —Cadê o Zach? — Nicholas indagou. —Não sabemos. — informei.  —Como assim? Lance, você deveria cuidar dos meninos! Lembra quando eu disse que Lance era o mais velho mas não era ele quem colocava a família em ordem? Então. Eu não me referia a mim. — Zach já tem vinte, como você, lembra? Sabe se cuidar sozinho. Aliás, todos aqui. Até o Harold. —Não vamos discutir sobre isso aqui. Não agora. Não no jantar de Natal. —Também acho melhor. — Lance resmungou. —Tá tudo bem, Nick. O Zach chega. A Hora 28. Ele sempre chega. — tentei amenizar a situação. —Eu quero saber da viagem. — Harold reclamou em seguida. O jantar estava todo sobre a grande mesa de vidro de nossa Sala de Jantar. Três anos foram contados em pouco mais de 60 minutos, com imagens e vídeos de sua viagem pelo espaço e ao Novo Planeta Suspeito. Eu olhava para o relógio a todo tempo, mesmo a história contada por Nicholas sendo interessante o suficiente para nos prender ali por mais de uma hora. O peso da culpa começou a pesar quando o relógio marcou vinte três e um. Os outros da mesa não notaram. Um colapso do passado passou se formar dentro de mim quando me dei conta de que, talvez, eu havia perdido mais um. Como se não bastasse os meus pais, e Nicholas, que está de volta apenas temporariamente. Mais um perdido pelo tempo que eu não havia valorizado quando tive a oportunidade. Foi quando eu saltei da cadeira e corri para fora de casa. Gritei por Zach para todos os lados. As sirenes já eram ouvidas de longe, a caminho de minha casa. Tudo ficou turvo. Meus irmãos gritavam para que eu parasse com aquilo. Mas, ele não apareceu. Infelizmente. E eu não podia voltar no tempo para consertar tudo. Dezembro, 25. Ano 23. Hora Dez. As buscas começaram pela noite, mas não nos foi permitido acompanhar a polícia durante a madrugada. Era a Ordem. Mas, pela manhã, no dia seguinte, nós corremos pela cidade à procura de Zach. Duas das Dyer's também nos ajudaram. Ficamos separados em três grupos: Nicholas, Nancy e eu; Harold, Shannon e Lance. Começamos pelo sul. Passamos pela Grande Ponte de Vidro, a mais alta de todas. É uma versão melhorada do que existiu na China da T1. Papo de História. —Há uma grande probabilidade dele estar lá, na floresta. Zach sempre gostou da natureza. —Espero que ele volte. — Nancy comentou enquanto admirávamos a vista da ponte. — Minha irmã está visivelmente abalada. Acho que eles se dão bem, não? —Ele nunca comentou sobre a Shannon. Não de forma positiva. —Ela diz que ele diz que vocês não conversam. Vocês, seus irmãos e o Zach. Você entendeu. —É, não muito... — concordei, meio atônito. —Vocês parecem unidos nas fotos... — Nancy disse, e caminhou mais rápido. Atravessamos a ponte, passamos o dia inteiro na enorme floreta, mas nada encontramos. Harold espalhou a notícia nas redes, Shannon e Lance atravessaram a cidade à procura do garoto, porém, nada. Nada além de nada. Só aí o desespero finalmente começou a tomar conta de meus irmãos. Como alguém poderia sumir de uma cidade onde todas as áreas são monitoradas por câmeras inteligentes? Era tecnicamente impossível. Tudo parecia impossível, na verdade. Quando o relógio marcou a Hora 20, eu já não tinha mais unhas para roer. Nossas esperança se fora. Ou quase. Hora 23. O alarme soou. Os poucos fora de suas casas deveriam retornar para elas. Era assim todos os dias, desde a inauguração da Novo Ordem. E foi por isso que todos à mesa trocaram olhares intensos enquanto o barulho soava em nossos ouvidos durante longos segundos. Ninguém disse uma palavra sequer, mesmo um minuto depois da Hora. De repente, uma voz. Recitava versículos do Livro Antigo. Soava do quarto. "E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz; Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco." — Onde você tava? — fui o primeiro a perguntar quando abrimos a porta do quarto juntos. E lá estava Zach. —Você romperam a tradição. — Zach disse. — Os versículos deveriam ser lidos hoje, na Hora Zero. — Que bom que está vivo. — Lance respirou. Nicholas correu para cama e pulou em Zachary. E o abraçou, o beijou, o bateu. Depois de fazer um certo suspense, ele acabou revelando a verdade. "Sempre estive aqui. Voltei para casa no horário normal, não mais tarde, como estão acostumados. Mas ninguém notou. Nem você. — ele disse, olhando para mim. O mais próximo a ele na medida do possível." —Estava escondido, você quis dizer. — Lance brincou. —Um pouco. Acho que eu não queria ser encontrado.Ou queria muito.  —Você não é nem maluco. — Harold gritou. —Não mesmo. — Nicholas concordou. —Você é um desgraçado. Eu chorei por sua causa, sabia? — Eu decidi. Decidi o que vou seguir. — Zach revelou subitamente. Na Hora Zero, mesmo atrasados, nós comemoramos o Natal. A única família, provavelmente. Mas, fazíamos isso em homenagem aos nossos pais, que acreditavam no Livro e nos ensinaram dessa maneira. Comemorar o nascimento do tal JESUS. Nós não conhecemos, mas o admiramos pela forma como mamãe o respeitava. E isso era o bastante para nós. Depois do jantar, Zach nos contou que precisava partir. Que havia escolhido sua  Nova Jornada, bem longe da nossa cidade, e que não sabia como nos contar isso. Por isso escondeu-se, de certa forma. Queria ser procurado da mesma maneira que Nicholas era. E a chegada do irmão gêmeo o assustou ainda mais. A necessidade de sumir da presença do irmão preferido falou mais forte. E por isso o susto. Mas, foi apenas um susto. Ele está aqui. Nós não o perdemos. Temos tempo de sobra que não deve ser desperdiçado. É uma nova chance. — Mas, você m*l voltou e já quer ir embora? — Harold decepcionou-se. —É apenas por um tempo. Preciso disso. Vocês irão concordar comigo quando eu voltar. —E vai para onde? Fazer o quê? — perguntei. —Vão saber na hora certa. Daqui um ano. —Um ano? — Lance perguntou. —É. Quando eu voltar. —E quando parte? — Nicholas perguntou. —Já deveria ter partido. Mas, ainda estou aqui. Não sei como me despedir de vocês. Odeio despedidas... —Porque você não fica até de manhã? — Harold sugeriu. — Vocês lembram? Eu me lembro. As nossas melhores conversas sempre foram feitas durante a madrugada até o amanhecer. Nós costumávamos ficar acordados boa parte da noite logo após a ida de nossos pais. Esse sentimento de não saber lidar com a saudade é completamente de família. Nós conversávamos sobre tudo, principalmente sobre o que não era sobre nós. Ficávamos até com olheiras, quando mais novos. Costumávamos ser intensos, mesmo perdendo tempo por aí, juntos. Nós amávamos mais. E nós deixamos tudo isso. Deixamos de ser uma família desde que eles partiram. —Eu não vou pra sempre, seus dramáticos. — Zach brincou, emocionado. — Vocês sabem que eu sempre voltarei. Nós. —Espero que cumpra a promessa. Assim como Nicholas. — Lance o abraçou. —É, eu vou. Mas quando eu disser que volto... Eu realmente volto. — ele disse, rindo para o irmão gêmeo. Já era manhã. Mas, durante a madrugada, eu nem me lembrei que existia tempo. Quando estávamos juntos, os relógios eram quebrados, e o tempo, congelado. Era como se aquela noite pudesse durar para sempre. E durou, porque as lembranças daqueles nossos últimos momentos juntos ficariam eternamente em nossas lembranças. E ele partiu. Uma parte de mim se foi. Eu o pedi desculpas, assim como os outros garotos. E, logo depois daquela manhã de despedidas, eu precisava voltar ao trabalho. Na Hora Quinze, quando eu estava no meio de uma refeição com alguns outros colaboradores do CRN, Gaten foi até mim. Lá, no meio de todo mundo, ele me chamou para uma conversa particular. E Gaten é um garoto diferente. Sempre foi. E eu sempre soube disso, mas, quando ele me puxou para si dentro do elevador do prédio 3, meu coração parou. Foi o meu primeiro beijo, mas pareceu o centésimo. Eu disse a ele que não poderíamos acontecer. Que o meu destino com Nancy já estava traçado. Em 3 anos, nós tínhamos de reproduzir para garantir o futuro da Nova Ordem. Porém, surpreendente como só ele, Gaten disse o que eu já sabia, mas não praticava: —E quem disse que vamos ser pra sempre? Temos três anos, Lest. E você não é obrigado a casar-se com a tal Nancy. Mas, sei lá, apenas viva. Viva comigo esse tempo. Ou melhor, eu farei você esquecer esse tempo. Quero que três anos se pareçam mil. —E que mil se pareçam três. — sussurrei, e sorri para ele. Foi quando o beijei e as portas do elevador se abriram. E eu percebi que eu havia crescido o suficiente para perceber que o tempo precisa ser bem aproveitado, e que, felizmente, ainda me restava um pouco para usufruir dele.  Como o Sol e os seus Planetas, tudo estava em minhas mãos agora.  Até mesmo o tempo. 
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