A mesa já estava quase vazia.
Os pratos haviam sido deixados de lado, e restavam apenas as sobremesas.
Lua apoiou o queixo na mão, olhando Eduardo com atenção.
— Me conta sobre você.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Como se ninguém jamais tivesse feito aquela pergunta de verdade.
Respirou fundo.
— Eu nasci num bairro humilde chamado Vila Esperança. Era um lugar simples… mas todo mundo se conhecia.
Um sorriso nostálgico apareceu.
— Minha mãe fazia faxina. Meu pai era servente de pedreiro. Nunca tivemos muito, mas nunca faltou carinho.
Lua permaneceu em silêncio, apenas ouvindo.
— Quando eu tinha quinze anos… conheci a Bruna.
Ele sorriu de leve, lembrando.
— Ela morava na mesma rua que eu. A gente brincava junto quando era adolescente. Ela sempre dizia que queria estudar, fazer faculdade, sair daquele bairro…
A voz dele começou a ficar mais baixa.
— Só que os pais dela falavam que faculdade era perda de tempo. Diziam que mulher tinha que casar logo.
Lua franziu discretamente o cenho.
— Ela chorava muito por causa disso.
Ele abaixou os olhos.
— Aí eu prometi que ela ia estudar.
Lua não interrompeu.
— Arrumei meu primeiro emprego numa lanchonete.
Depois outro.
Depois outro.
Ele sorriu sem graça.
— Eu trabalhava de manhã numa padaria… à tarde como servente de pedreiro… e de noite como garçom.
Lua arregalou discretamente os olhos.
— Três empregos?
Ele assentiu.
— Eu quase não dormia.
A voz começou a pesar.
— Todo o dinheiro que sobrava eu mandava pra ela.
Faculdade.
Mensalidade.
Livros.
Material.
Até o alojamento da universidade.
Tudo.
— Eu ficava praticamente sem dinheiro.
Mas eu achava que valia a pena.
Porque era o nosso sonho…
Lua sentiu um aperto no peito.
Eduardo continuou olhando para a mesa.
— Ela queria muito participar da formatura.
A festa era cara.
A beca.
As fotos.
O baile.
Eu paguei tudo.
Tudo mesmo.
Ele sorriu de um jeito triste.
— Só que…
Ela não me convidou.
O silêncio caiu sobre o quarto.
Lua apertou devagar o garfo entre os dedos.
— Você não foi?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Ela disse que ia ser corrido.
Que não dava.
Eu acreditei.
Mesmo assim…
Continuei acreditando na gente.
A voz dele falhava cada vez mais.
— A gente ficou sete anos juntos.
Quatro anos e meio foram só à distância.
Ela estudava.
Eu trabalhava.
Ela quase nunca voltava.
Quando voltava nas férias… passava alguns dias comigo no bairro.
Eu nunca conseguia ir até a cidade porque não podia faltar ao trabalho.
Se eu faltasse…
Não tinha dinheiro pra mandar.
Lua já não tocava mais na comida.
Só olhava para ele.
— Faz alguns meses…
Consegui uma vaga de garçom aqui na cidade.
Era melhor.
Eu dormia no próprio trabalho.
Pra economizar aluguel.
E também…
Pra ficar mais perto dela.
Ele deu uma risada triste.
— Achei que finalmente nossa vida ia começar.
Então comprei uma aliança.
Não era cara.
Mas eu juntei dinheiro durante meses.
Cada hora extra.
Cada gorjeta.
Cada centavo.
Passei fome algumas vezes…
Mas consegui comprar.
Os olhos dele ficaram marejados.
— Hoje seria o dia mais feliz da minha vida.
Eu ia pedir ela em casamento…
E começar nossa família.
Só que…
Você viu como ela me humilhou, dizendo que ta com outro.
Lua sentiu um nó na garganta.
Eduardo abaixou a cabeça.
— Eu nunca imaginei que tudo aquilo…
Era só um sonho meu.
O quarto ficou completamente silencioso.
Lua levantou devagar da cadeira.
Caminhou até ele.
Sem dizer uma única palavra.
Apenas passou os braços ao redor dos ombros dele.
E o abraçou.
Eduardo ficou imóvel por alguns segundos.
Até que, pela primeira vez em muito tempo…
deixou algumas lágrimas caírem.
Lua fechou os olhos e fez um carinho lento em seus cabelos molhados.
— Você nunca foi pobre, Eduardo.
Ele respirou fundo, sem entender.
Ela afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele.
— Um homem que abre mão do próprio conforto para realizar o sonho de quem ama… pode ter pouco dinheiro.
Mas nunca será um homem pequeno.
Eduardo baixou a cabeça novamente.
Lua segurou seu rosto com delicadeza.
— Ela perdeu alguém raro.
E eu… tive a sorte de encontrar você.
Eduardo permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Os olhos dele desceram até a mão delicada de Lua.
A aliança simples de prata brilhava discretamente em seu dedo.
Ele sorriu sem jeito.
— Você... aceitou a aliança que era pra ela...
Lua acompanhou o olhar dele e acariciou a própria aliança com o polegar.
Um sorriso tranquilo apareceu em seus lábios.
— Eu não ligo.
Ela ergueu os olhos.
— Se isso é o que você podia me dar... então está tudo bem.
Fez uma pequena pausa.
— E se um dia você quiser me dar outra... também vai estar tudo bem.
Eduardo respirou fundo.
A garganta apertou novamente.
— Lua...
Ela olhou para ele.
— Seja sincera.
Ela apenas esperou.
— Por que você quer um homem como eu?
O quarto mergulhou em silêncio.
Lua caminhou até a janela.
Ficou alguns segundos olhando as luzes da cidade.
Depois respirou fundo.
— Porque eu sou a Lua Lopes.
Eduardo franziu a testa.
O sobrenome soou familiar.
Muito familiar.
Então seus olhos se arregalaram.
— Espera...
Ele levantou da cadeira.
— Lua Lopes...
Engoliu seco.
— A dona da maior rede farmacêutica do país?
Ela sorriu de leve.
— Sim.
Eduardo ficou completamente sem reação.
— Meu Deus...
Ela voltou a ficar séria.
— Mas essa não é a minha história inteira.
Sentou-se novamente diante dele.
— Eu e minha irmã fomos adotadas.
Ele ouviu em silêncio.
— Nossos pais morreram em um acidente de carro quando nós éramos pequenas.
Sua voz perdeu um pouco da firmeza.
— Depois disso, a família Mendonça nos adotou.
Ela sorriu sem alegria.
— Não por carinho.
Não por amor.
Por dinheiro.
Eduardo abaixou os olhos.
— Eles queriam colocar as mãos na fortuna que meus pais deixaram.
Ela respirou lentamente.
— Durante anos conseguiram controlar praticamente tudo.
Mas quando completei dezoito anos...
Comecei uma guerra.
Estudei.
Aprendi.
Lutei na Justiça.
Recuperei grande parte do patrimônio dos meus pais.
Mas eles ainda controlam uma parte.
Eduardo escutava sem piscar.
— Minha mãe adotiva nunca desistiu.
Ela vive tentando me casar com algum bilionário.
Algum empresário.
Alguém que aceite fazer parte dos planos dela.
Ela deu uma risada amarga.
— Minha irmã ainda é nova.
Acabou de fazer dezenove anos.
Então toda a pressão caiu sobre mim.
Tenho vinte e quatro.
Sou quem administra tudo.
Sou quem lidera todas as empresas.
Ela suspirou.
— E, para recuperar completamente minha herança...
Eu precisava estar casada.
Eduardo arregalou os olhos.
— Então...
Foi por isso...
Lua assentiu.
— Sim.
Ela olhou diretamente para ele.
— Mas eu podia ter escolhido qualquer um.
E escolhi você.
Ele permaneceu imóvel.
Lua continuou, completamente sincera.
— Eduardo...
Se você quiser se separar de mim...
Eu vou entender.
Não vou prender você.
Ele abriu a boca, mas ela continuou.
— Mas...
Se você aceitar continuar ao meu lado...
Eu prometo que vou ser uma boa esposa.
Vou cuidar de você.
Os trinta mil por mês continuam de pé.
Você pode continuar trabalhando.
Na obra, se isso te fizer feliz.
Ou pode trabalhar em qualquer empresa minha.
No hotel.
No shopping.
Nos restaurantes.
Na farmacêutica.
Você escolhe.
Nunca vou obrigar você a nada.
Ela segurou delicadamente as mãos dele.
— Eu não me importo que você não tenha dinheiro.
Nunca me importei.
Os olhos dela começaram a marejar.
— Eu só quero alguém que olhe para mim...
...e veja a Lua.
Não a bilionária.
Não a dona das empresas.
Não a herdeira.
Só...
...a mulher.
Ela sorriu entre a emoção.
— Alguém que goste de mim de verdade.
Que não queira a minha riqueza.
Que queira segurar minha mão quando eu chegar cansada em casa.
Que ria comigo.
Que me abrace.
Que construa uma família comigo.
A voz falhou.
— Eu passei a vida inteira cercada de pessoas interessadas no meu dinheiro...
...e completamente sozinha.
Eduardo sentiu o coração apertar.
Naquele instante, ele finalmente entendeu.
Ela não havia salvado apenas a dignidade dele naquele mercado.
Também estava tentando salvar a própria solidão.