1: Onde Não Se Pertence

1003 Words
O copo de cristal antigo rangia sob o pano de algodão, e Isadora limpava cada curva como se sua vida dependesse disso. Talvez dependesse. A superfície translúcida refletia seu rosto, mas distorcido — o que ela mais reconhecia nele. Um olho mais largo, a boca fina puxada para o lado errado, o nariz achatado pelo ângulo do vidro. Ela olhou por alguns segundos, hipnotizada. Às vezes, era assim que se sentia: um erro de forma, uma presença deslocada no lugar errado. Estava descalça. Os pés sujos pelo mármore lustroso da mansão Diniz. Suava sob a camisa branca de manga longa, que era dois números maiores e emprestada da lavanderia. Invisível — como sempre. — Senhorita Isadora, a senhora quer que eu leve os vinhos agora? — perguntou o novo ajudante, um adolescente com olhos gentis e a camisa amassada. Ela abriu a boca para agradecer, mas antes que qualquer som saísse, a governanta cruzou o salão com passos firmes. — Não a chame assim — disse, ríspida. — Ela não é da família. Não confunda. O garoto piscou, envergonhado, e não disse mais nada. Isadora apenas assentiu, segurando o pano com mais força. A mansão estava em silêncio cerimonial. Preparavam-se para um jantar de negócios — empresários importantes da alta sociedade paulistana viriam negociar investimentos com o patriarca, que agora vivia mais trancado no escritório do que na própria casa. Mas Clarisse, como sempre, fazia questão de que tudo estivesse impecável. O arranjo de flores no centro da mesa tinha sido trocado três vezes desde o início da tarde. — Isso aqui está horrível. — A voz cortante de Clarisse invadiu o ambiente. Ela usava um vestido de seda lilás que parecia feito sob medida para seu corpo esguio. O perfume cítrico a precedia em todos os cômodos. — Eu pedi orquídeas brancas, não essa palhaçada de flores mistas. Quem aprovou isso? Isadora deu um passo à frente. — Fui eu, senhora. As orquídeas chegaram com as pétalas manchadas, e achei que… — Achou? — Clarisse ergueu uma sobrancelha, sorrindo com desdém. — Se vai viver aqui de favor, ao menos sirva para algo. Não pagamos você para pensar. Pagando? Isadora abaixou os olhos. Não disse nada. Nunca dizia. A música clássica preencheu o ambiente antes mesmo que os saltos de Valentina batessem nos degraus. Era sempre assim — ela chegava com trilha sonora, como se o universo soubesse que precisava de atenção. Valentina desceu as escadas como se desfilasse num tapete vermelho. O vestido dourado abraçava seu corpo como seda líquida. Os olhos castanhos estavam realçados com sombra dourada, os lábios perfeitos com um batom nude de revista. — Meu amor! — Clarisse abriu os braços, a voz adoçando como um milagre. — Você está deslumbrante. Como sempre. Valentina aceitou o elogio como uma rainha entronada. Seu olhar caiu sobre Isadora, que ainda segurava o pano com o copo reluzente. — Ainda aqui? Pensei que tivessem mandado embora junto com os entulhos. O coração de Isadora bateu seco no peito. Ela não respondeu. — Ajude sua irmã a se arrumar — ordenou Clarisse, já se afastando. — E vê se não estraga o vestido com essas mãos de lavadeira. No quarto de Valentina, o clima era pior. A irmã se jogou diante do espelho de corpo inteiro e apontou para a bancada de maquiagem. — Pega o iluminador. O dourado. Não o rosado. Se errar, eu te mato. Isadora obedeceu. — Aperta esse laço. Mais forte. Mais. Você é fraca até nisso? Ela puxou com cuidado. Valentina virou-se lentamente, os olhos fixos nela como lâminas afiadas. — Não é cansativo viver onde ninguém quer você? Isadora parou. A pergunta soou mais baixa, quase sussurrada, como se houvesse curiosidade genuína nela. Mas não havia. — Eu… já me acostumei. — respondeu, tentando parecer neutra. — Que triste — disse Valentina, com um sorrisinho satisfeito. — Eu não suportaria. A cozinha estava quente e barulhenta. Isadora foi buscar os pratos quando ouviu as risadas abafadas de duas empregadas no canto. — Você viu a cara que ela fez quando a dona Clarisse chamou de lavadeira? — disse uma, enxugando as mãos no avental. — Dizem que ela é filha de uma prostituta. Uma daquelas de beira de estrada, sabe? — Se fosse minha filha, já teria sumido faz tempo. Mas né… fingem que é da família só pra parecer bonitos na mídia. O riso ecoou no azulejo. Isadora fingiu não ouvir, mas as mãos tremiam tanto que quase deixou cair o prato. A sala de jantar já estava cheia. Clarisse sorria e cumprimentava os convidados como se fosse a dama de Versailles. Valentina posava ao lado do pai, com um vestido novo, sorriso treinado e taça de vinho nas mãos. Isadora passou com uma bandeja de canapés. — Nova garçonete? — perguntou um dos empresários, franzindo o cenho ao vê-la. Clarisse não hesitou: — Não exatamente. É só uma… agregada. Valentina riu, e Isadora sentiu o rosto arder. O orgulho latejava como um corte recém-aberto. Já não conseguia respirar direito. Afastou-se, recolhendo taças vazias, e parou atrás da divisória de vidro que separava a sala de jantar do hall. Foi ali que escutou. Clarisse, com a taça na mão, falava com a sogra, Dona Celina — uma mulher com olhos de pedra e voz de funeral. — Ela ainda está aqui por pena. Mas nem isso ela sabe agradecer. — Devia estar é no orfanato — disse a velha, seca. — Bastarda ou não, ainda come melhor que muita gente. Isadora não reagiu. Nem uma vírgula. Mas por dentro, algo se rompeu. Deixou a bandeja sobre a bancada e subiu as escadas devagar, como se cada degrau a afundasse em lama. No banheiro, trancou a porta, ligou a torneira, e encostou a testa no espelho. O vidro estava embaçado pela umidade. Ela inspirou fundo, a garganta presa. — Eu vou sair daqui — sussurrou, para si mesma. — Nem que seja sangrando. E pela primeira vez, não foi só um pensamento. Foi uma promessa.
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