Capítulo 2

1236 Words
A manhã começou como qualquer outra. O despertador tocou às seis e meia, e eu levei alguns segundos para perceber onde estava. A luz suave do sol já atravessava as cortinas do meu quarto, desenhando linhas douradas no chão de madeira. Suspirei, alongando os braços acima da cabeça antes de finalmente me levantar. Meu quarto ainda estava silencioso, e aquela tranquilidade sempre me ajudava a organizar os pensamentos antes de começar o dia. Caminhei até a janela e a abri um pouco. O ar fresco entrou imediatamente, trazendo consigo o cheiro leve das flores do jardim. Sorri. Gostava de manhãs assim. Depois de alguns minutos, fui até o closet. Escolher a roupa era quase um pequeno ritual diário para mim. Não porque eu quisesse impressionar alguém, mas porque me fazia sentir bem começar o dia sabendo que estava confortável e confiante. Passei os olhos pelas peças organizadas e escolhi uma blusa de tecido leve na cor lavanda, com mangas três quartos e pequenos botões delicados na frente. Combinei com uma saia midi branca plissada, que se movia suavemente quando eu caminhava. Nos pés, optei por sapatos baixos cor creme, elegantes e discretos. Soltei o cabelo, escovando lentamente os fios castanhos até que ficassem macios e alinhados. Depois deixei-os soltos, caindo naturalmente sobre os ombros. No banheiro, comecei minha maquiagem. Primeiro uma base leve, apenas para uniformizar a pele. Depois um pouco de corretivo, ** translúcido e um blush rosado suave que dava um aspecto saudável ao rosto. Nos olhos, usei sombra em tons neutros, delineador fino e algumas camadas de máscara de cílios. Finalize com um batom rosado suave, quase da cor natural dos meus lábios. Observei o resultado no espelho. Simples, elegante e natural. Perfeito. Peguei minha bolsa, coloquei dentro meu caderno de desenho, celular, carteira e desci para a cozinha. Minha mãe já estava lá. — Bom dia, querida — ela disse enquanto colocava café em uma xícara. — Bom dia. Sentei-me à mesa enquanto ela colocava algumas torradas e frutas. — Tem muitas aulas hoje? — ela perguntou. — Algumas. E depois tenho que terminar um projeto de design. Ela assentiu. — Não se esqueça de descansar também. Sorri levemente. — Vou tentar. Terminamos o café conversando sobre coisas simples: compromissos da semana, um evento que aconteceria na cidade no próximo mês, e algumas notícias que ela tinha visto pela manhã. Nada extraordinário. Mas eu gostava desses momentos tranquilos antes de sair. Depois de me despedir, peguei minha bolsa e saí de casa. O caminho até a universidade estava agradável. Algumas pessoas caminhavam pelas calçadas, lojas começavam a abrir, e o movimento de carros aumentava aos poucos. Quando cheguei ao campus, a movimentação já era grande. Estudantes atravessavam os jardins, conversando animadamente ou caminhando apressados para não se atrasarem. Entrei no prédio de artes e fui direto para minha primeira aula. A manhã passou entre explicações da professora, exercícios de composição visual e algumas conversas com colegas sobre trabalhos futuros. Durante o intervalo, sentei-me com minhas amigas no pátio. Marina estava contando uma história exageradamente dramática sobre um professor da semana anterior, fazendo todos rirem. — Ele olhou para o meu desenho e disse: “interessante”. — Isso não é r**m — eu disse. — Elisa, quando um professor de arte diz “interessante”, significa que ele não entendeu nada. Rimos novamente. Depois do intervalo tivemos mais uma aula, dessa vez prática. Eu estava concentrada no meu caderno de esboços quando o professor passou observando os trabalhos. — Muito bom, Elisa — ele comentou. — Você tem um bom senso de composição. — Obrigada. Esses pequenos elogios sempre me deixavam satisfeita. Quando a aula terminou, caminhei com Marina até o café da universidade. O lugar estava movimentado, como sempre. Pegamos café e nos sentamos perto da janela. Enquanto conversávamos sobre um trabalho em grupo que precisaríamos entregar na semana seguinte, Marina parou de falar de repente. — Ei. — O que foi? Ela inclinou discretamente a cabeça. — Você viu quem está ali? Segui a direção do olhar dela. Do outro lado do café, um grupo de estudantes conversava perto do balcão. Entre eles estava o rapaz que eu tinha visto no jardim no dia anterior. Reconheci imediatamente. Ele parecia exatamente como lembrava: postura tranquila, expressão serena, rindo de algo que um dos amigos dizia. — Acho que já vi ele — murmurei. Marina olhou para mim surpresa. — Só “acho”? — Vi ele ontem no jardim. Ela arregalou levemente os olhos. — E você não sabe quem ele é? — Não. Marina apoiou os cotovelos na mesa. — Aquele ali é Josué Martins. Por um momento, apenas repeti mentalmente o nome. Josué Martins. Franzi levemente a testa. — Martins…? Marina assentiu. — Da família Martins. O sobrenome era impossível de ignorar. Eu já tinha ouvido aquele nome muitas vezes antes. Principalmente em conversas mais sérias dentro de casa. Não era exatamente um segredo que havia uma rivalidade antiga entre a família Carvalho e os Martins. Mas, sinceramente, aquilo nunca tinha sido algo que ocupasse muito espaço na minha mente. Era mais uma dessas histórias antigas que adultos mencionam ocasionalmente. Mesmo assim, ouvir aquele sobrenome me fez olhar novamente para ele. Josué parecia completamente alheio àquela informação. Ele conversava com os amigos de forma relaxada, sem qualquer sinal de arrogância ou importância exagerada. Parecia apenas mais um estudante comum. — Você já falou com ele? — Marina perguntou. — Não. — Dizem que ele é bem inteligente. — Dizem? — Administração. Um dos melhores alunos do curso. Voltei a tomar meu café. — Interessante. Marina sorriu de lado. — Só isso? Dei de ombros. — O que você quer que eu diga? Ela riu. — Nada. Continuamos conversando sobre outros assuntos: aulas, projetos, planos para o fim de semana. Em algum momento, o grupo de Josué saiu do café. Eu nem percebi exatamente quando. A tarde continuou normalmente. Tive mais uma aula prática e depois passei algum tempo na biblioteca pesquisando referências para um projeto. Quando finalmente deixei o prédio da universidade, o sol já começava a se inclinar no céu. O campus estava mais silencioso. Caminhei pelos jardins em direção à saída. Foi então que vi uma figura familiar mais à frente. Josué. Ele caminhava pelo mesmo caminho, alguns metros adiante. Não parecia ter notado minha presença. Seguia olhando o celular enquanto caminhava. Não havia nada de especial naquele momento. Apenas duas pessoas atravessando o mesmo espaço ao mesmo tempo. Quando ele guardou o celular e levantou o olhar, nossos olhos se encontraram por um instante. Ele pareceu reconhecer meu rosto. Talvez do café. Talvez do jardim. Seus lábios se curvaram em um pequeno sorriso educado. Aquele tipo de sorriso que se dá a alguém que já se viu antes, mas ainda não conhece de verdade. Retribuí com um gesto de cabeça. E continuamos caminhando em direções opostas. Sem palavras. Sem apresentações. Apenas um breve cruzar de caminhos. Quando saí da universidade alguns minutos depois, pensei rapidamente no que Marina tinha dito. Josué Martins. Agora eu sabia quem ele era. Mas, no fim das contas, aquilo não mudava muita coisa. Ele continuava sendo apenas mais um estudante da universidade. E minha vida continuava cheia de aulas, projetos, planos e pequenas rotinas que eu gostava de seguir. Ainda assim, havia algo curioso naquela coincidência. Aquela não tinha sido a primeira vez que nossos caminhos se cruzaram.
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