Capítulo 3 – Pequenas Rotinas
Acordei alguns minutos antes do despertador tocar.
Fiquei deitada olhando para o teto por um instante, ainda meio perdida entre o sono e a consciência. O quarto estava silencioso, e a luz suave da manhã já começava a atravessar as cortinas.
Estiquei o braço, desliguei o despertador antes mesmo que ele tocasse e me sentei na cama.
Respirei fundo.
Gostava daquele momento calmo do início do dia, quando tudo ainda parecia tranquilo e organizado. Antes das aulas, dos trabalhos, das conversas e do movimento constante da universidade.
Levantei-me e caminhei até o closet.
Passei os olhos pelas roupas até escolher algo confortável, mas que ainda mantivesse meu estilo.
Peguei uma blusa de malha fina na cor verde-oliva, com mangas longas ajustadas, e combinei com uma calça jeans clara de cintura alta. Para completar, escolhi uma jaqueta leve bege, já que as manhãs ainda estavam um pouco frescas.
Nos pés, coloquei tênis brancos simples, perfeitos para caminhar pelo campus.
Depois segui para o banheiro.
Escovei o cabelo castanho até que ficasse alinhado e macio, deixando-o solto sobre os ombros.
Minha maquiagem, como sempre, foi natural. Apliquei uma base leve, um pouco de corretivo, blush suave, e nos olhos apenas uma sombra marrom clara, delineador discreto e máscara de cílios.
Por fim, um batom rosado hidratante.
Observei o resultado no espelho.
Simples.
Do jeito que eu gostava.
Desci para a cozinha e encontrei minha mãe terminando de preparar café.
— Bom dia, Elisa — ela disse.
— Bom dia.
Sentei-me à mesa enquanto ela colocava uma xícara de café na minha frente.
— Dormiu bem?
— Sim.
Peguei uma fatia de pão e passei um pouco de manteiga enquanto ela comentava sobre algumas tarefas do trabalho que teria naquele dia.
Conversamos por alguns minutos, depois terminei de comer e peguei minha bolsa.
— Até mais tarde — disse.
— Tenha um bom dia.
Saí de casa sentindo o ar fresco da manhã.
O caminho até a universidade já me era tão familiar que eu poderia percorrê-lo quase sem pensar. As mesmas árvores ao longo da rua, a padaria na esquina com o cheiro de pão quente, algumas pessoas caminhando apressadas.
Quando cheguei ao campus, o movimento já estava intenso.
Estudantes conversavam perto das entradas dos prédios, alguns sentados na grama dos jardins, outros caminhando com pressa.
Entrei no prédio de artes e segui para a primeira aula.
Durante as duas horas seguintes, ficamos concentrados em um exercício de composição visual. O professor pediu que criássemos um pequeno projeto usando formas geométricas e cores contrastantes.
Eu estava tão concentrada no trabalho que quase não percebi o tempo passar.
Quando o intervalo chegou, senti aquele leve cansaço nos ombros que sempre aparece depois de ficar muito tempo desenhando.
Encontrei Marina no corredor.
— Café? — ela perguntou.
— Sempre.
Descemos até o café da universidade, que estava ainda mais cheio do que nos dias anteriores.
Pegamos nossos pedidos e procuramos uma mesa livre.
— Você terminou o esboço do projeto? — Marina perguntou.
— Quase. Falta ajustar algumas cores.
Ela fez uma careta.
— Eu ainda estou completamente perdida.
— Não está tão r**m assim.
— Elisa, meu trabalho parece um quebra-cabeça quebrado.
Ri.
— Talvez seja arte moderna.
— Engraçadinha.
Continuamos conversando enquanto tomávamos café.
O assunto mudou várias vezes: aulas, filmes que queríamos assistir, um evento de arte que aconteceria na cidade no fim do mês.
Depois de algum tempo, Marina se levantou.
— Vou buscar um guardanapo.
Assenti, olhando rapidamente algumas mensagens no celular.
Quando levantei os olhos novamente, percebi movimento perto da mesa ao lado.
Era Josué.
Ele estava passando entre as mesas, segurando um copo de café.
Por um momento pareceu procurar um lugar para sentar.
Seus olhos passaram rapidamente pelo espaço até encontrarem uma cadeira vazia na mesa ao lado da nossa.
Ele se sentou ali, colocando a mochila no chão.
Não parecia ter percebido que eu estava ali.
Voltei a olhar para o celular.
Alguns segundos depois, Marina voltou e se sentou novamente.
Continuamos conversando normalmente.
De vez em quando eu percebia o som da voz dele conversando com alguém ao telefone. A voz era calma, baixa, e ele parecia falar de algo relacionado a um trabalho ou estudo.
Não prestei muita atenção.
Depois de alguns minutos, ele terminou a ligação, guardou o celular e ficou olhando o movimento do café enquanto bebia seu café.
Em determinado momento, ele levantou o olhar e me viu.
Reconheci a expressão breve de reconhecimento em seu rosto.
Aquele mesmo tipo de reação que acontece quando você vê alguém mais de uma vez no mesmo lugar.
Ele sorriu levemente.
— Oi — disse, de forma simples.
A surpresa me pegou desprevenida por um segundo, mas respondi com naturalidade.
— Oi.
Marina observou a pequena troca de cumprimentos com curiosidade evidente.
Josué voltou a beber seu café, como se aquilo tivesse sido apenas um gesto educado.
E, de certa forma, era.
Depois de algum tempo, ele terminou o café, pegou a mochila e se levantou.
Antes de sair, fez um pequeno gesto de cabeça em despedida.
— Até mais.
— Até — respondi.
Quando ele saiu do café, Marina imediatamente se inclinou sobre a mesa.
— Você disse que nunca tinha falado com ele.
— E nunca tinha mesmo.
— Mas agora falou.
— Foi só um "oi".
Ela sorriu.
— Ainda assim.
Dei de ombros, pegando minha xícara.
— Ele só foi educado.
Marina riu.
— Claro.
Terminamos o café e voltamos para nossas aulas.
O resto da tarde passou entre projetos, explicações do professor e algumas risadas com colegas.
Quando finalmente deixei o prédio no fim do dia, o campus estava mais silencioso.
Alguns estudantes ainda caminhavam pelos jardins, outros conversavam perto da saída.
Caminhei até o portão principal com a bolsa no ombro, pensando no trabalho que ainda precisava terminar em casa.
O céu começava a ganhar tons alaranjados enquanto o sol descia lentamente.
Respirei fundo o ar fresco da tarde antes de seguir meu caminho para casa.
***
Continuei caminhando pela calçada que levava para fora do campus, sentindo o peso leve da bolsa no ombro. O ar da tarde estava agradável, e uma brisa suave balançava as folhas das árvores que cercavam a entrada da universidade. Eu gostava daquele momento do dia quando as aulas acabavam e a mente começava a se libertar lentamente das preocupações acadêmicas.
Alguns estudantes ainda conversavam perto do portão principal, enquanto outros chamavam carros por aplicativo ou esperavam ônibus. Passei por dois colegas da minha turma que discutiam animadamente sobre um projeto de fotografia. Acenei para eles em cumprimento e continuei andando.
O caminho até em casa não era muito longo, e muitas vezes eu aproveitava para organizar mentalmente tudo o que precisava fazer. Hoje não seria diferente.
Primeiro, terminar o esboço do projeto de design.
Depois, talvez revisar algumas referências que o professor tinha indicado.
E, se ainda tivesse energia, começar a trabalhar em uma ideia que vinha surgindo lentamente na minha mente para um desenho novo.
Enquanto pensava nisso, atravessei a rua perto da padaria da esquina. O cheiro de pão fresco estava ainda mais forte naquele horário, e por um momento considerei entrar para comprar algo doce.
Acabei cedendo à tentação.
Empurrei a porta de vidro e o pequeno sino preso acima dela tilintou suavemente.
O lugar estava relativamente tranquilo. Uma senhora escolhia alguns pães no balcão, enquanto o atendente organizava bandejas recém-saídas do forno.
— Boa tarde — ele disse com um sorriso educado.
— Boa tarde.
Aproximei-me da vitrine e observei as opções. Bolos simples, croissants, pequenos doces polvilhados com açúcar.
Escolhi um pequeno folhado de creme e paguei antes de sair novamente para a rua.
Enquanto caminhava, dei uma pequena mordida no doce ainda quente.
Sorri sozinha.
Pequenos prazeres.
O resto do caminho até em casa foi tranquilo. Quando finalmente abri o portão, o jardim estava silencioso e iluminado pela luz suave do final da tarde.
Entrei em casa e deixei a bolsa sobre o sofá antes de ir até a cozinha pegar um copo de água.
Minha mãe ainda não tinha chegado do trabalho, então a casa estava silenciosa.
Depois de beber água, subi para o meu quarto.
Coloquei a bolsa sobre a cadeira e tirei os sapatos antes de me sentar na escrivaninha.
Abri o caderno de esboços e observei o trabalho que tinha começado na aula.
Algumas linhas ainda precisavam ser ajustadas, e eu queria experimentar uma combinação diferente de cores.
Peguei um lápis e comecei a trabalhar.
O tempo passou quase sem que eu percebesse.
Desenhar sempre teve esse efeito em mim. Quando estava concentrada, o mundo ao redor parecia diminuir de volume, como se tudo se tornasse secundário.
Algum tempo depois ouvi a porta da frente se abrir.
— Elisa? — a voz da minha mãe chamou.
— Estou no quarto!
Ela apareceu alguns minutos depois na porta.
— Como foi o dia?
— Normal.
Mostrei rapidamente o esboço que estava fazendo.
— Está bonito — ela comentou.
— Ainda falta muita coisa.
— Mesmo assim.
Ela sorriu antes de sair para se trocar.
Continuei trabalhando no desenho por mais um tempo até que a luz natural do quarto começou a desaparecer.
Acendi o abajur da mesa e observei o resultado.
Ainda havia ajustes a fazer, mas eu estava satisfeita com o progresso.
Fechei o caderno e me levantei para alongar um pouco os braços.
Meu celular estava sobre a cama.
Peguei-o e vi algumas mensagens no grupo da turma.
Alguns colegas discutiam detalhes de um trabalho coletivo que precisaríamos apresentar na próxima semana.
Respondi rapidamente algumas perguntas e deixei o celular de lado.
Depois fui tomar um banho.
A água morna ajudou a aliviar a tensão leve nos ombros que sempre aparecia depois de um dia cheio de aulas e desenho.
Quando saí do banho, vesti um conjunto confortável de moletom cinza claro e desci para jantar.
Minha mãe já estava terminando de preparar a comida.
— Parece que alguém trabalhou bastante hoje — ela comentou ao ver meus cabelos ainda úmidos.
— Um pouco.
Sentamos à mesa e começamos a comer enquanto conversávamos sobre o dia.
Ela contou algumas situações do trabalho, e eu mencionei brevemente os projetos da universidade.
Nada extraordinário.
Mas aquelas conversas simples sempre me faziam sentir relaxada.
Depois do jantar, ajudei a arrumar a cozinha e voltei para o quarto.
A noite já tinha se instalado completamente lá fora.
Abri a janela por alguns minutos para deixar o ar fresco entrar e me sentei na cama com um livro que estava lendo há alguns dias.
Li alguns capítulos antes de sentir o cansaço começar a pesar nos olhos.
Fechei o livro, desliguei a luz principal do quarto e deixei apenas o abajur aceso por alguns instantes.
O dia tinha sido cheio, mas tranquilo.
Nada fora do comum.
Coloquei o celular no criado-mudo, apaguei o abajur e me deitei.
O quarto ficou mergulhado na penumbra silenciosa da noite.
Fechei os olhos lentamente, deixando o cansaço do dia finalmente me levar para o sono.