Capítulo 4

1699 Words
Capítulo 4 – Entre Cores e Conversas O som suave do despertador me arrancou do sono naquela manhã, e por alguns segundos permaneci imóvel na cama, tentando reunir energia suficiente para começar o dia. A luz do sol já atravessava as cortinas do quarto, iluminando o espaço com um tom dourado e tranquilo. Suspirei, esticando os braços acima da cabeça antes de me levantar. Caminhei até a janela e a abri um pouco. O ar fresco entrou imediatamente, trazendo consigo o cheiro leve das flores do jardim. Era um daqueles detalhes simples que me ajudavam a acordar de verdade. Depois de alguns minutos, fui até o closet. Observei as roupas por um momento, pensando no que vestir. Acabei escolhendo uma blusa de tecido leve na cor azul-claro, com mangas longas e botões delicados nos punhos, combinada com uma calça jeans preta de cintura alta que se ajustava bem ao corpo. Para completar, coloquei um cinto fino preto e escolhi sapatos baixos nude, elegantes e confortáveis para caminhar pelo campus. Soltei o cabelo e escovei os fios castanhos com calma, deixando-os cair naturalmente sobre os ombros. No banheiro, comecei minha maquiagem diária. Primeiro apliquei uma base leve, depois um pouco de corretivo nas pequenas imperfeições. Usei um blush rosado suave, que dava um ar saudável ao rosto. Nos olhos, optei por uma sombra marrom clara, delineador discreto e algumas camadas de máscara de cílios. Finalizei com um batom rosado suave, quase natural. Observei meu reflexo por um instante e sorri levemente. Simples. Do jeito que eu gostava. Desci para a cozinha e encontrei minha mãe mexendo em algumas coisas no fogão. — Bom dia — disse. — Bom dia, Elisa. Sentei-me à mesa enquanto ela colocava café em uma xícara. — Hoje tenho uma reunião longa no trabalho — ela comentou. — Talvez eu chegue um pouco mais tarde. — Tudo bem. Peguei uma fatia de pão e um pouco de fruta enquanto conversávamos sobre coisas simples do dia. Depois de terminar o café, peguei minha bolsa e saí de casa. O trajeto até a universidade estava movimentado como sempre. Algumas pessoas caminhavam rapidamente pelas calçadas, outras conversavam em frente às lojas. Quando atravessei os portões do campus, senti aquela energia típica de início de manhã. Estudantes indo de um prédio para outro, vozes se misturando ao som distante de carros passando na avenida. Segui para o prédio de artes. A primeira aula foi prática. O professor pediu que continuássemos o projeto de composição que havíamos iniciado nos dias anteriores. Eu me sentei perto da janela e comecei a trabalhar no meu caderno de esboços. Linhas, formas, cores. A concentração veio naturalmente, como sempre acontecia quando eu desenhava. — Elisa. Levantei o olhar. Era o professor, observando o trabalho. — Gosto do equilíbrio que você criou aqui — ele disse, apontando para uma parte do desenho. — Obrigada. — Continue desenvolvendo isso. Assenti e voltei ao trabalho. Quando o intervalo chegou, senti aquele pequeno alívio nos ombros que sempre vinha depois de ficar muito tempo inclinada sobre a mesa. Encontrei Marina no corredor. — Você parece concentrada hoje — ela comentou. — Estava tentando terminar uma parte do projeto. — Conseguiu? — Mais ou menos. Descemos juntas até o pátio externo da universidade. Alguns estudantes estavam sentados nos bancos, outros espalhados pela grama conversando. Sentamos em um banco perto de uma árvore grande. — Estou pensando em ir naquele evento de arte no sábado — disse Marina. — Eu também queria ir. — Dizem que vai ter exposições interessantes. — Então talvez a gente deva ir. Continuamos conversando sobre o evento, sobre filmes e sobre algumas ideias de projetos pessoais que queríamos tentar desenvolver. Em determinado momento, Marina se levantou. — Vou buscar água. Assenti enquanto ela se afastava. Aproveitei para pegar meu caderno de esboços novamente e comecei a rabiscar algumas ideias rápidas. Desenhar ao ar livre sempre me ajudava a pensar melhor. Alguns minutos depois, percebi alguém se aproximando do banco. Levantei os olhos. Era Josué. Ele parou a alguns passos de distância, parecendo levemente surpreso por me ver ali. — Oi — disse ele, com um pequeno sorriso educado. — Oi. Ele apontou para o caderno em minhas mãos. — Desenhando? — Um pouco. Ele inclinou levemente a cabeça, observando as páginas abertas. — Posso ver? Por um instante hesitei, mas depois virei o caderno um pouco na direção dele. Josué observou o desenho com atenção. — Você é muito boa nisso. Senti um leve calor subir ao rosto. — Ainda estou aprendendo. — Parece bem mais do que isso. Ele endireitou a postura novamente. — Você estuda artes, certo? — Design. Ele assentiu. — Administração. — Eu sei. Ele pareceu levemente surpreso. — Sabe? — Uma amiga comentou. Nesse momento Marina voltou com duas garrafas de água. Ela parou ao ver Josué ali. — Oi — disse ela. — Oi — respondeu ele educadamente. Marina me lançou um olhar rápido, claramente curioso com a situação. Josué colocou as mãos nos bolsos por um instante. — Bom… eu já estava indo. Fez um pequeno gesto de despedida. — Até mais. — Até — respondi. Ele se afastou pelo pátio, caminhando em direção ao prédio principal. Marina sentou-se ao meu lado lentamente. — Então… — Então o quê? Ela abriu um sorriso divertido. — Você não mencionou que já estavam conversando. — Foi só agora. Marina bebeu um gole de água, ainda sorrindo. — Interessante. Revirei os olhos, voltando minha atenção para o caderno de esboços. O pátio continuava cheio de vozes e movimento ao nosso redor, enquanto eu tentava voltar a me concentrar nas linhas do desenho. Passei o lápis pelo papel, acrescentando alguns detalhes às formas que já tinha traçado. Às vezes, quando eu desenhava, acabava me perdendo um pouco no processo. As ideias iam surgindo aos poucos, como se cada linha puxasse outra. — Você realmente entra em outro mundo quando começa a desenhar — comentou Marina, inclinando-se um pouco para observar o caderno. — É porque me ajuda a pensar — respondi, sem tirar os olhos do papel. — Pensar em quê? — Em tudo. Ela riu baixinho. — Muito específico. Sorri de leve e continuei ajustando alguns traços. Depois de alguns minutos, fechei o caderno e o coloquei dentro da bolsa. — Já terminou? — perguntou Marina. — Por enquanto. Se eu continuar mexendo, vou acabar estragando. Ela assentiu, como se entendesse perfeitamente. Ficamos sentadas ali por mais alguns minutos, observando o movimento ao redor. Um grupo de estudantes passava discutindo animadamente sobre um trabalho, enquanto dois outros jogavam uma pequena bola de papel um para o outro perto das escadas. — Às vezes eu gosto de ficar só observando — disse Marina. — Cada pessoa parece estar vivendo uma história completamente diferente. — É verdade. Enquanto conversávamos, uma brisa leve passou pelo pátio, balançando as folhas da árvore acima de nós. Olhei rapidamente para o relógio no celular. — Ainda temos dez minutos antes da próxima aula. — Ótimo — disse Marina. — Porque eu realmente não estou pronta para voltar para aquela sala ainda. Ri. — Drama. — Não é drama. É sobrevivência acadêmica. Levantamo-nos do banco e começamos a caminhar lentamente pelo pátio. — Você vai trabalhar naquele projeto hoje à noite? — ela perguntou. — Provavelmente. — Você sempre diz isso com uma calma assustadora. — Eu gosto. — Eu sei. Esse é o problema. Pessoas normais reclamam. Sorri. — Talvez você devesse experimentar gostar também. — Vou pensar no assunto. Subimos as escadas que levavam ao corredor principal do prédio de artes. O barulho das conversas ecoava levemente nas paredes, misturado ao som de portas abrindo e fechando. Paramos em frente à sala alguns minutos antes do professor chegar. Alguns colegas já estavam lá dentro organizando materiais. — Elisa — chamou uma voz atrás de mim. Virei-me. Era Lucas, um colega da turma que frequentemente participava dos mesmos projetos que eu. — Você terminou aquela parte da composição? — ele perguntou. — Ainda estou ajustando algumas coisas. — Posso ver depois? — Claro. Ele pareceu aliviado. — Estou meio travado naquela parte das cores. — A gente pode olhar juntos depois da aula. — Obrigado. Lucas entrou na sala, e Marina se inclinou levemente na minha direção. — Você vive salvando as pessoas nesses projetos. — Eu só ajudo um pouco. — Um pouco nada. O professor entrou na sala naquele momento, encerrando a conversa. Sentamos em nossos lugares enquanto ele começava a explicar o exercício da aula. Durante a hora seguinte, ficamos concentrados em desenvolver as ideias para o projeto. O som dos lápis no papel e dos teclados sendo usados nos computadores criava um ambiente de trabalho silencioso, mas produtivo. Quando a aula terminou, alguns estudantes começaram a guardar rapidamente seus materiais. Lucas se aproximou novamente da minha mesa. — Você ainda pode olhar meu trabalho? — Claro. Abrimos o caderno dele sobre a mesa e começamos a analisar as cores que ele havia escolhido. — Talvez se você diminuir um pouco a intensidade desse vermelho… — sugeri, apontando para uma parte do desenho. Ele fez um pequeno ajuste. — Assim? — Melhor. Trabalhamos ali por alguns minutos, testando pequenas mudanças até que ele parecesse mais satisfeito. — Muito melhor — disse ele finalmente. — Obrigado mesmo. — De nada. Lucas fechou o caderno e saiu da sala, enquanto eu organizava minhas próprias coisas. Marina apareceu na porta. — Pronta? — Sim. Coloquei o caderno na bolsa e me levantei. Saímos juntas para o corredor, que já estava novamente cheio de estudantes indo de um lado para o outro. — Acho que vou passar na biblioteca antes de ir embora — comentei. — Eu vou direto para casa — disse Marina. — Meu cérebro já parou de funcionar por hoje. — Justo. Descemos as escadas e nos despedimos perto da entrada do prédio. Enquanto Marina seguia em direção ao estacionamento, eu caminhei até a biblioteca do campus. O ambiente lá dentro era completamente diferente do pátio barulhento. Silencioso. Calmo. Escolhi uma mesa perto de uma janela e abri meu caderno novamente, deixando a luz suave da tarde iluminar as páginas enquanto voltava a trabalhar no desenho.
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