Júlia
Acordo às 11 horas da manhã por causa da fome, porque o cansaço no corpo estava grande. Cheguei quase 07 horas da manhã do hospital depois de um plantão muito difícil, desde que está tendo uma guerra entre facções rivais e tem várias favelas praticamente fechadas até a que fica perto da minha casa.
Eles não estão deixando passar muita coisa e nos postinhos está faltando de tudo, a situação está muito difícil.
Fui até a cozinha comer alguma coisa e encontro minha mãe chegando em casa com uma bolsa na mão e vem logo me beijar e me abraçar.
— Oi filha, já acordou, pensei que fosse dormir até mais tarde? Chegou era mais de 07 da manhã.
— Só vim comer alguma coisa, estou muito cansada, mas vou voltar para dormir.
— Então deixa eu preparar um sanduíche daqueles que você adora. — Ela fala e eu coloco um copo de suco e corto um pedaço de bolo.
— Estava fofocando com D.Isabel lá fora, D. Mariana?
— Me respeita menina, eu sou lá mulher de ficar fofocando? Ela estava falando que Sônia, mãe de Renata, que é mulher do subchefe do morro do Salomão, está doente a semana toda e não pode ir ao hospital, por causa da guerra.
— E é grave?
— Não sei, Isabel me disse que ela não tá nada bem mesmo.
— Nossa, se até a família deles estão correndo risco desse jeito, é porque essa guerra é mais séria do que a gente pensa.
— Parece que é, filha. Ele pode até ser bandido, mas gosta muito da sogra, trata ela como uma mãe.
— A senhora está defendendo bandido de morro?
— Não estou defendendo. — Ela resmunga e levanta da cadeira.
— Faz quanto tempo que ela está doente, mãe?
— Parece que está com febre, com dor, e agora vomitando todo dia e já faz mais de uma semana.
— Meu Deus, isso é muito perigoso.
— Fazer o que minha filha? eu só posso rezar por ela. — Escuto aquilo e como o meu sanduíche, muito preocupada. Beijo ela e volto para cama, para tentar voltar a dormir, mas não consegui. Levanto, visto uma roupa, pego minha bolsa de trabalho e saio.
— Pra onde você vai Júlia são quase 13 horas, o almoço está pronto?
— Vou na casa de D. Sônia.
— Não vá filha, o genro dela pode não gostar, pelo amor de Deus, não se meta em confusão.
— Só vou oferecer ajuda, se ela não quiser, está tudo bem, pelo menos eu vou conseguir dormir.
— Meu Deus, que menina teimosa… — Antes que ela terminasse de falar eu já me retiro e vou em direção a nossa vizinha, que mora na outra rua.
***
Bato na porta dela e não demora muito e Renatinha, filha de D. Sônia abre a porta.
— Oi, Renatinha, sua mãe está, eu queria falar com ela, soube que ela está doente?
— Oi Júlia, minha mãe não está podendo atender agora, ela está descansando, porque está bem adoentada mesmo.
— Não se você sabe, mas eu sou médica e queria saber se posso ajuda? Posso vê-la?
— Entra, eu falo com ela...
Entro e fico esperando na sala e de repente aparece o genro dela, que é sub do morro, que se chama PH. Um moreno alto, magro, bem bonitão até, com cara e jeito de marrento.
— O que você quer que aqui? Quem mandou você aqui? — Pergunta bravo.
— Calma amor, ela é aqui da vizinhança e é médica, soube que mamãe tá doente e ofereceu ajuda.
— Não tem essa não, é melhor ir embora. Vaza, vaza. — Na hora dá vontade de correr mesmo, porque eu não sou boa de enfrentar as pessoas, mas queria ajudar a amiga da minha mãe, tinha que enfrentá-lo.
— Meu nome é Júlia, eu sou médica e posso ajudar D. Sônia que está doente, só vou embora depois que eu ver ela. — Falei tentando ser corajosa.
— Muito marrenta você... Qual é a tua, em? Tô mandando tu vaza, p***a, ninguém precisa da sua ajuda aqui não, rapa. — Ele fala todo bravo.
— Filho eu conheço essa moça, desde que ela é pequena, deixe ela me atender, não tô passando bem, eu preciso de ajuda, confie, por favor. — Ela fala da porta do quarto e vejo ela quase desmaiando, muito debilitada.
Mesmo com a cara feia dele, eu faço uma avaliação nela, e no filho dele, que percebi que o menino também estava com febre. Parece que os dois estão com uma infecção severa e precisam fazer ultrassom e exames de sangue urgente. Pego um kit de coleta de sangue e um ultrassom portátil, que eu carrego no meu carro e eu mesmo vou entregar o sangue coletado no laboratório.
— Pelo que eu vi no exame de ultrassom, a senhora vai ter que ir para um hospital urgente.
— De jeito nenhum, ela não pode sair daqui, é muito perigoso.
— PH você não está entendendo, ela está com apêndice inflamado e precisa urgente de uma cirurgia, se não ela morre. Deixa eu levá-la para um hospital particular? Eu tenho um amigo lá e peço para não colocar o nome dela na ficha.
— Se isso for trairagem mina, tu sabe o que é que acontece, né? — Ele pergunta nervoso.
— Olha, eu sou médica e só estou querendo fazer o meu trabalho. Agora, você acredita se quiser... Posso falar com meu amigo?
— Diz que vai rolar dinheiro e se tiver mafiagem, morre todo mundo, começando por tu. — Ele me ameça, mas deixa.
Resolvo não enfrentá-lo e converso com meu amigo, que topa ajudar e em troca ganhar uma boa grana.
D. Sônia foi operada com urgência, porque o estado dela estava bem complicado. Já o filho dela estava com uma inflamação séria na vesícula, devido ao tempo que estava doente sem os devidos cuidados, por isso precisou também operar urgente.
Infelizmente, PH só permitiu que eles ficassem no hospital um pouco mais de 24 horas porque seus inimigos estavam na cola deles e podiam descobrir eles isso seria muito perigoso.
Dei alta aos dois e eles foram pra casa e eu corri o risco de cuidar deles em casa, junto com uma enfermeira lá do morro, a minha amiga Ana. Foi praticamente uma semana de muita tensão, cuidar de alguém debilitado, com o grau de infecção, sem a estrutura de um hospital, era uma loucura, mas não tínhamos outra saída.
***