Acordei antes mesmo do despertador.
O quarto ainda estava escuro, e por alguns segundos fiquei olhando o teto, tentando lembrar por que meu corpo estava tão desperto. Então a lembrança veio.
A viagem.
Com ele.
Respirei fundo e me sentei na cama. O relógio marcava cinco e vinte. Ainda havia tempo, mas eu sabia que não conseguiria voltar a dormir. Levantei devagar, tentando não fazer barulho. A casa estava silenciosa, como sempre naquele horário.
Escolhi a roupa com mais cuidado do que queria admitir. Algo simples, profissional, mas confortável. Nada exagerado. Nada que chamasse atenção. Mesmo assim, demorei mais do que o normal.
Prendi o cabelo, soltei de novo, deixei solto. Passei um pouco de maquiagem leve. Olhei-me no espelho por alguns segundos.
— É só trabalho — murmurei.
Peguei a bolsa e desci.
A cozinha estava vazia. Tomei um café rápido, quase sem sentir o gosto. Meu coração parecia mais acelerado do que o normal. Não por medo. Não exatamente.
Era expectativa.
Às cinco e cinquenta e cinco, ouvi o som de um carro parando em frente à casa.
Meu estômago apertou.
Olhei pela janela.
Era ele.
Khalil estava encostado no carro, vestindo um terno escuro, como sempre, mas sem gravata. O sol ainda não tinha nascido completamente, e a luz suave da manhã deixava a cena quase silenciosa.
Respirei fundo, peguei a bolsa e saí.
Ele levantou o olhar quando me viu. Um gesto breve, discreto, mas atento.
— Bom dia — disse ele.
— Bom dia.
O ar estava frio, e eu abracei levemente o próprio corpo enquanto me aproximava. Ele abriu a porta do carro para mim, um gesto simples, natural.
— Obrigada.
Entrei.
O carro tinha um cheiro leve e agradável. Ele deu a volta e assumiu o volante. Por alguns segundos, ficamos em silêncio enquanto ele ligava o carro e saía lentamente da rua.
A cidade ainda despertava. Poucos carros, ruas quase vazias, o céu começando a clarear.
— Dormiu? — perguntou ele.
— Mais ou menos.
Ele assentiu.
— É cedo.
— Sim.
O silêncio voltou.
Mas não era desconfortável.
Era… carregado.
Eu observava a rua pela janela, mas estava consciente da presença dele. Do movimento das mãos no volante. Da postura relaxada, mas segura.
— Levou os documentos? — perguntou ele.
— Sim. Está tudo aqui.
— Ótimo.
Mais silêncio.
Meu coração batia um pouco mais rápido do que o normal. Não havia motivo claro. Era apenas a proximidade, o fato de estarmos sozinhos, o começo de algo que eu não sabia exatamente onde levaria.
— Você costuma viajar muito? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Sim.
— Sempre a trabalho?
— Quase sempre.
— Não cansa?
Ele pensou por um instante.
— Faz parte.
Assenti.
— Eu não estou acostumada.
— Vai se acostumar.
A frase veio calma, mas ficou no ar.
O carro seguiu pela avenida, o sol começando a aparecer no horizonte. A luz invadia o interior, criando um clima tranquilo.
Por um momento, ninguém falou.
E, estranhamente, aquilo parecia confortável.
Sem pressão.
Sem necessidade de preencher o silêncio.
Apenas… presença.
E, enquanto o aeroporto se aproximava, percebi que, mesmo sem palavras, aquela viagem já começava a mudar algo entre nós.