Seis da manhã

532 Words
Acordei antes mesmo do despertador. O quarto ainda estava escuro, e por alguns segundos fiquei olhando o teto, tentando lembrar por que meu corpo estava tão desperto. Então a lembrança veio. A viagem. Com ele. Respirei fundo e me sentei na cama. O relógio marcava cinco e vinte. Ainda havia tempo, mas eu sabia que não conseguiria voltar a dormir. Levantei devagar, tentando não fazer barulho. A casa estava silenciosa, como sempre naquele horário. Escolhi a roupa com mais cuidado do que queria admitir. Algo simples, profissional, mas confortável. Nada exagerado. Nada que chamasse atenção. Mesmo assim, demorei mais do que o normal. Prendi o cabelo, soltei de novo, deixei solto. Passei um pouco de maquiagem leve. Olhei-me no espelho por alguns segundos. — É só trabalho — murmurei. Peguei a bolsa e desci. A cozinha estava vazia. Tomei um café rápido, quase sem sentir o gosto. Meu coração parecia mais acelerado do que o normal. Não por medo. Não exatamente. Era expectativa. Às cinco e cinquenta e cinco, ouvi o som de um carro parando em frente à casa. Meu estômago apertou. Olhei pela janela. Era ele. Khalil estava encostado no carro, vestindo um terno escuro, como sempre, mas sem gravata. O sol ainda não tinha nascido completamente, e a luz suave da manhã deixava a cena quase silenciosa. Respirei fundo, peguei a bolsa e saí. Ele levantou o olhar quando me viu. Um gesto breve, discreto, mas atento. — Bom dia — disse ele. — Bom dia. O ar estava frio, e eu abracei levemente o próprio corpo enquanto me aproximava. Ele abriu a porta do carro para mim, um gesto simples, natural. — Obrigada. Entrei. O carro tinha um cheiro leve e agradável. Ele deu a volta e assumiu o volante. Por alguns segundos, ficamos em silêncio enquanto ele ligava o carro e saía lentamente da rua. A cidade ainda despertava. Poucos carros, ruas quase vazias, o céu começando a clarear. — Dormiu? — perguntou ele. — Mais ou menos. Ele assentiu. — É cedo. — Sim. O silêncio voltou. Mas não era desconfortável. Era… carregado. Eu observava a rua pela janela, mas estava consciente da presença dele. Do movimento das mãos no volante. Da postura relaxada, mas segura. — Levou os documentos? — perguntou ele. — Sim. Está tudo aqui. — Ótimo. Mais silêncio. Meu coração batia um pouco mais rápido do que o normal. Não havia motivo claro. Era apenas a proximidade, o fato de estarmos sozinhos, o começo de algo que eu não sabia exatamente onde levaria. — Você costuma viajar muito? — perguntei, quebrando o silêncio. — Sim. — Sempre a trabalho? — Quase sempre. — Não cansa? Ele pensou por um instante. — Faz parte. Assenti. — Eu não estou acostumada. — Vai se acostumar. A frase veio calma, mas ficou no ar. O carro seguiu pela avenida, o sol começando a aparecer no horizonte. A luz invadia o interior, criando um clima tranquilo. Por um momento, ninguém falou. E, estranhamente, aquilo parecia confortável. Sem pressão. Sem necessidade de preencher o silêncio. Apenas… presença. E, enquanto o aeroporto se aproximava, percebi que, mesmo sem palavras, aquela viagem já começava a mudar algo entre nós.
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