Comparações

523 Words
No dia seguinte, cheguei ao escritório mais cedo do que o habitual. Talvez porque quisesse me concentrar no trabalho. Talvez porque quisesse evitar pensar demais. Ou talvez… porque eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, o veria novamente. E isso me deixava inquieta. Organizei minha mesa, revisei os e-mails e comecei a separar os documentos da nova empresa. O movimento ainda era tranquilo, e o silêncio da manhã ajudava a manter minha mente focada. Até meu pai chegar. — Bom dia — disse ele, deixando a pasta sobre a mesa. — Bom dia. Ele me observou por um instante. — Você está se adaptando rápido. — Estou tentando. Ele assentiu, claramente satisfeito. — É assim que se aprende. Observando, prestando atenção, não deixando passar detalhes. — Eu sei. Ele puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim, algo que ele raramente fazia no meio da rotina. Isso já me deixou alerta. — Você precisa entender uma coisa, Maitê. Levantei o olhar. — O quê? — O mundo que você está entrando não funciona com impulsos. Meu peito apertou levemente. — Eu não estou sendo impulsiva. — Não estou falando disso agora. Mas eu sabia que estava. Ele continuou: — Homens como o Khalil, por exemplo… não chegam onde chegaram agindo por emoção. A comparação veio direta. E inesperadamente. Fiquei em silêncio. — Ele é disciplinado — continuou meu pai. — Controlado. Não mistura trabalho com vida pessoal. Não se deixa levar por distrações. Cada palavra parecia escolhida. Como se tivesse mais significado do que aparentava. — Ele construiu tudo com foco — disse ele. — E é esse tipo de mentalidade que você precisa observar. Engoli em seco. — Eu estou observando. — Então observe direito. Ele se inclinou levemente. — Khalil é o tipo de homem que não perde o controle. Não toma decisões baseadas em sentimento. Ele pensa, calcula e age. A imagem do dia anterior voltou à minha mente. O quase. O afastamento. O controle. Meu coração acelerou. Meu pai continuou: — Se você aprender com pessoas assim, vai entender o que é responsabilidade de verdade. — Eu não quero ser igual a ele. A resposta saiu antes que eu pensasse. Meu pai me encarou. — Não precisa ser igual. Mas precisa entender. — Entender o quê? — Que emoção não constrói nada sólido. Aquilo me incomodou. — Nem tudo é negócio. Ele deu um pequeno sorriso, quase cansado. — Um dia você vai perceber que tudo envolve decisão. E decisões exigem controle. Fiquei em silêncio. Porque, de certa forma… Aquilo fazia sentido. Mas também me incomodava. Muito. Meu pai se levantou. — Continue com os prazos. Khalil chega em uma hora. Meu coração reagiu. De novo. Ele saiu. E eu fiquei ali, olhando para os papéis sem realmente enxergar. “Homens como Khalil não se deixam levar por emoção.” A frase ecoava. Talvez fosse isso. Talvez o afastamento fosse exatamente aquilo. Controle. Disciplina. Limite. E, de repente, percebi algo que me deixou ainda mais inquieta: Se ele estava se controlando… Significava que também tinha sentido alguma coisa. E essa ideia… Era tão perigosa quanto reconfortante.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD