No dia seguinte, cheguei ao escritório mais cedo do que o habitual.
Talvez porque quisesse me concentrar no trabalho.
Talvez porque quisesse evitar pensar demais.
Ou talvez… porque eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, o veria novamente.
E isso me deixava inquieta.
Organizei minha mesa, revisei os e-mails e comecei a separar os documentos da nova empresa. O movimento ainda era tranquilo, e o silêncio da manhã ajudava a manter minha mente focada.
Até meu pai chegar.
— Bom dia — disse ele, deixando a pasta sobre a mesa.
— Bom dia.
Ele me observou por um instante.
— Você está se adaptando rápido.
— Estou tentando.
Ele assentiu, claramente satisfeito.
— É assim que se aprende. Observando, prestando atenção, não deixando passar detalhes.
— Eu sei.
Ele puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim, algo que ele raramente fazia no meio da rotina. Isso já me deixou alerta.
— Você precisa entender uma coisa, Maitê.
Levantei o olhar.
— O quê?
— O mundo que você está entrando não funciona com impulsos.
Meu peito apertou levemente.
— Eu não estou sendo impulsiva.
— Não estou falando disso agora.
Mas eu sabia que estava.
Ele continuou:
— Homens como o Khalil, por exemplo… não chegam onde chegaram agindo por emoção.
A comparação veio direta.
E inesperadamente.
Fiquei em silêncio.
— Ele é disciplinado — continuou meu pai. — Controlado. Não mistura trabalho com vida pessoal. Não se deixa levar por distrações.
Cada palavra parecia escolhida.
Como se tivesse mais significado do que aparentava.
— Ele construiu tudo com foco — disse ele. — E é esse tipo de mentalidade que você precisa observar.
Engoli em seco.
— Eu estou observando.
— Então observe direito.
Ele se inclinou levemente.
— Khalil é o tipo de homem que não perde o controle. Não toma decisões baseadas em sentimento. Ele pensa, calcula e age.
A imagem do dia anterior voltou à minha mente.
O quase.
O afastamento.
O controle.
Meu coração acelerou.
Meu pai continuou:
— Se você aprender com pessoas assim, vai entender o que é responsabilidade de verdade.
— Eu não quero ser igual a ele.
A resposta saiu antes que eu pensasse.
Meu pai me encarou.
— Não precisa ser igual. Mas precisa entender.
— Entender o quê?
— Que emoção não constrói nada sólido.
Aquilo me incomodou.
— Nem tudo é negócio.
Ele deu um pequeno sorriso, quase cansado.
— Um dia você vai perceber que tudo envolve decisão. E decisões exigem controle.
Fiquei em silêncio.
Porque, de certa forma…
Aquilo fazia sentido.
Mas também me incomodava.
Muito.
Meu pai se levantou.
— Continue com os prazos. Khalil chega em uma hora.
Meu coração reagiu.
De novo.
Ele saiu.
E eu fiquei ali, olhando para os papéis sem realmente enxergar.
“Homens como Khalil não se deixam levar por emoção.”
A frase ecoava.
Talvez fosse isso.
Talvez o afastamento fosse exatamente aquilo.
Controle.
Disciplina.
Limite.
E, de repente, percebi algo que me deixou ainda mais inquieta:
Se ele estava se controlando…
Significava que também tinha sentido alguma coisa.
E essa ideia…
Era tão perigosa quanto reconfortante.