Narrado por Christopher Junqueira
O barulho das rodas do skate deslizando no asfalto era como um ruído de fundo reconfortante. Eu gostava de estar ali, na pista, longe do silêncio estranho da casa do meu pai. Era diferente da casa dos meus avós, onde tudo era mais quente, mais familiar.
Mas agora essa era minha vida.
E, para minha surpresa, ele apareceu lá.
Fiquei tão chocado ao ver meu pai parado perto da pista que quase me espatifei no chão. O que diabos ele estava fazendo ali?
A princípio, achei que ele fosse me arrastar de volta para casa ou perguntar algo i****a como “Você está bem?”, mas não. Ele só ficou me olhando. Depois, ainda tentou subir no meu skate.
E falhou miseravelmente.
Não vou mentir: foi engraçado.
Eu nunca tinha visto meu pai parecer... normal. Ele sempre era sério, rígido, distante. Mas ali, tentando não cair do skate, ele parecia outra pessoa.
Naquela noite, quando voltei para casa, joguei minha mochila em um canto e fui direto para o quarto. Tirei o sketchbook da mochila e o abri.
Os desenhos estavam lá, como sempre. Algumas páginas com rabiscos rápidos, outras com esboços mais detalhados. Eu gostava de desenhar desde pequeno, mas nunca achei que alguém se importaria com isso.
Meu pai me deu aquele caderno, e desde então eu não conseguia parar de pensar nisso.
Fechei o sketchbook rapidamente quando ouvi batidas na porta.
— Christopher?
Suspirei.
— O que foi?
Ele abriu a porta e entrou, parecendo hesitante.
— Só queria saber se quer jantar. Anastácia pediu comida.
Revirei os olhos.
— Eu como depois.
Ele ficou ali, parado, como se estivesse tentando encontrar algo para dizer.
— Você gosta mesmo de desenhar, né?
Meu corpo enrijeceu.
— Já disse que sim.
— Eu queria ver alguns dos seus desenhos.
Senti um nó na garganta.
— Por quê?
Ele não desviou o olhar.
— Porque quero conhecer mais do meu filho.
Fiquei quieto por um momento, segurando o sketchbook com força. Então, sem dizer nada, o abri em uma página qualquer e virei para ele.
Ele pegou o caderno com cuidado, analisando o desenho. Era um lobo, de perfil, com os olhos intensos e selvagens.
— Você desenhou isso? — perguntou, parecendo genuinamente impressionado.
— Não, eu roubei da internet — ironizei.
Ele riu baixinho, e aquilo me pegou desprevenido.
— Ficou incrível, Pequeno Lobo.
Meu peito se apertou de um jeito estranho.
— Não me chama assim.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
Desviei o olhar.
— Só não gosto.
Ele não insistiu. Apenas fechou o sketchbook e me devolveu.
— Você tem talento — disse antes de sair do quarto.
Fiquei olhando para a porta fechada por um tempo, sentindo algo diferente. Algo que eu não sabia bem como lidar.
Meu coração batia rápido, e eu não sabia exatamente por quê.
Ele disse que eu tinha talento.
E pior: parecia sincero.
Eu deveria achar isso normal, certo? Pais elogiam os filhos o tempo todo. Mas não era assim comigo e ele. Nunca foi.
Suspirei e fechei o caderno, jogando-o ao lado da cama. Eu não sabia o que fazer com aquilo, então fiz o que sempre fazia quando algo me deixava desconfortável: coloquei os fones de ouvido, peguei meu skate e saí.
A noite estava fresca quando cheguei à pista. Havia alguns garotos por lá, mas eu não estava com vontade de conversar com ninguém.
Subi na rampa e comecei a deslizar, deixando que o movimento automático me distraísse. Meu corpo sabia o que fazer sem que eu precisasse pensar. Era por isso que eu gostava tanto do skate. Quando eu estava ali, nada mais importava.
Por um tempo, funcionou. Mas depois de alguns minutos, percebi que minha mente ainda estava presa na conversa com meu pai.
Ele realmente queria ver meus desenhos? Ou só estava tentando ser um daqueles pais que fingem se importar?
Talvez Anastácia tivesse falado algo para ele.
Talvez ele só estivesse com pena.
Me desequilibrei por um segundo e quase caí.
— Ei, cara, tá bem? — um dos garotos perguntou.
Balancei a cabeça e fui para um canto da pista, sentando-me no chão com o skate ao lado. Passei as mãos no cabelo e fechei os olhos.
Por que isso estava mexendo tanto comigo?
Quando voltei para casa, já passava da meia-noite.
A sala estava escura, e eu pensei que todo mundo já estivesse dormindo, mas, para minha surpresa, encontrei meu pai sentado no sofá, mexendo no celular.
Ele levantou os olhos quando me viu.
— Você demorou.
— Eu sei.
Ele não pareceu bravo, o que foi estranho.
— Quer comer alguma coisa? — perguntou.
Franzi o cenho.
— Por quê?
— Porque você deve estar com fome.
Fiquei sem resposta.
Eu esperava um sermão, uma cobrança, qualquer coisa que ele sempre fazia. Mas não isso.
— Não precisa — murmurei, indo para a escada.
— Christopher.
Parei no primeiro degrau, mas não olhei para ele.
— Boa noite, Pequeno Lobo.
Senti meu peito apertar de novo, daquela forma estranha.
Engoli em seco e subi sem responder.
(...)
Na manhã seguinte, acordei mais tarde que o normal.
O cheiro de café e pão fresco veio da cozinha, e, antes que eu percebesse, meus pés já me levavam para lá.
Anastácia estava sentada na bancada, tomando suco.
— Bom dia, Chris!
— Bom dia — murmurei, pegando uma caneca e servindo café.
— Dormiu bem?
Dei de ombros.
Antes que ela falasse mais alguma coisa, meu pai entrou na cozinha.
Nos encaramos por um segundo, e, pela primeira vez, não senti aquela tensão estranha.
— Bom dia — ele disse.
— Bom dia — respondi, sem pensar.
Ele pareceu surpreso, mas não comentou nada.
— O que vai fazer hoje? — perguntou.
Ergui uma sobrancelha.
— Por quê?
— Pensei que talvez pudéssemos sair.
Olhei para ele desconfiado.
— Você quer sair comigo?
Ele assentiu.
— Só se você quiser.
Cruzei os braços.
— E pra onde você quer ir?
Ele sorriu de lado.
— Você escolhe.
Fiquei surpreso. Meu pai nunca me deixava escolher nada.
Mas, no fundo, algo em mim gostou da ideia.
Então, antes que elepudesse mudar de ideia, soltei:
— Quero ir à loja de material de desenho.
O sorriso dele aumentou um pouco.
— Então vamos.
Eu ainda não acreditava que isso estava acontecendo.
Meu pai, Christian Junqueira, o cara sério e fechado que nunca parecia ter tempo para nada além de trabalho, estava dirigindo comigo para uma loja de materiais de desenho.
Era estranho.
E, ao mesmo tempo, não era tão r**m assim.
O caminho foi silencioso no começo. Eu não sabia bem o que dizer, e ele também parecia estar escolhendo as palavras com cuidado.
— Você desenha desde quando? — ele perguntou de repente, quebrando o silêncio.
Mordi o lábio.
— Desde pequeno. Minha avó me deu meu primeiro sketchbook quando eu tinha uns seis anos.
Ele assentiu, mantendo os olhos na estrada.
— Você já pensou em seguir isso como profissão?
Dei de ombros.
— Não sei. Eu gosto, mas não acho que seja bom o bastante.
Ele franziu a testa.
— Quem disse isso?
Ri sem humor.
— Ninguém precisa dizer. Eu só sei.
Meu pai ficou em silêncio por um momento.
— Você tem talento, Christopher. De verdade.
Engoli em seco, desviando o olhar para a janela.
Não sabia como responder a isso.
Quando chegamos à loja, tentei não demonstrar, mas estava animado.
Era o tipo de lugar onde eu poderia passar horas, olhando cada lápis, cada caderno, cada tinta.
Fui direto para a seção de sketchbooks, passando os dedos pelas capas, sentindo o peso do papel.
— Qual você costuma usar? — meu pai perguntou atrás de mim.
— Depende. Para esboços rápidos, eu gosto desses aqui. Mas para desenhos mais detalhados, prefiro esses.
Ele pegou um dos cadernos mais caros e analisou.
— Esse parece bom.
— É — murmurei, tentando não demonstrar interesse.
Ele segurou o sketchbook e olhou para mim.
— Quer levar?
Olhei para ele, desconfiado.
— Você vai comprar?
Ele deu de ombros, como se não fosse grande coisa.
— Se você quiser.
Hesitei. Eu nunca pedia nada para ele.
— Tá, então... esse.
Ele assentiu e pegou alguns lápis profissionais também.
Fiquei acompanhando tudo em silêncio, tentando entender por que ele estava fazendo isso.
Quando voltamos para casa, fui direto para o meu quarto.
Abri o novo sketchbook, passei os dedos sobre as páginas em branco e, pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de desenhar sem me esconder.
Peguei um lápis e comecei a rabiscar sem pensar muito.
Quando me dei conta, estava desenhando um lobo.
Não um lobo comum.
Era um filhote, pequeno, mas forte. Com olhos atentos, como se estivesse aprendendo a caçar. E, dessa vez, eu não odiei o apelido que meu pai me deu.
Talvez, no fundo, eu realmente fosse um Pequeno Lobo.