Capítulo 04

1197 Words
Eu não deveria ter entrado naquele quarto. A constatação é simples. Fria. Lógica. Exatamente o tipo de pensamento que sempre guiou cada decisão que tomei na vida. Planejei manter distância. Dar ordens claras. Estabelecer limites intransponíveis. Controle absoluto começa assim: espaço suficiente para não confundir necessidade com impulso. Mas Lívia não reage como as outras. Ela não implora. Não tenta negociar. Não se quebra diante do inevitável. Ela enfrenta. Mesmo com medo. Mesmo tremendo. Mesmo sabendo que não pode vencer. E isso mexe comigo de formas que não posso permitir. Fico alguns segundos parado no escritório, olhando para a tela aberta do laptop sem realmente enxergar o que está diante de mim. As imagens das câmeras percorrem silenciosamente os corredores da casa, mostrando movimentos previsíveis, rotinas seguras, homens treinados demais para cometer erros simples. Segurança sempre foi prioridade. Antecipação sempre foi sobrevivência. Ainda assim… meus olhos não permanecem nos corredores por muito tempo. Eles sobem. Último andar. O quarto. A imagem muda, revelando o espaço amplo onde ela agora está sozinha. Observo em silêncio, sem piscar, como se qualquer distração pudesse me fazer perder algo importante. Vejo quando ela encosta na porta por alguns segundos, tentando recuperar o ar. Vejo quando se afasta devagar, como se cada passo exigisse esforço real. Vejo quando caminha até a janela. Há hesitação em cada movimento. Cuidado. Tensão contida. Mas não há rendição. Ela respira fundo diante do vidro, olhando para fora como se estivesse se preparando para uma guerra que ainda não começou. Boa. Um pensamento frio. Prático. Ela vai precisar dessa força. O mundo em que acabou de entrar não poupa ninguém. Muito menos quem demonstra fragilidade cedo demais. Fecho o laptop com um movimento seco, antes que continue olhando por tempo demais. Antes que transforme observação em outra coisa. Sirvo uma dose de uísque. O som do líquido preenchendo o copo de cristal ecoa baixo pelo escritório silencioso. Levo o copo aos lábios sem pressa, esperando que a queimação familiar traga de volta a clareza que sempre esteve ali. O álcool desce queimando pela garganta. Quente. Direto. Mas não apaga a imagem dela. Lívia parada no meio do quarto. Lívia tirando o casaco devagar. Lívia com os ombros tensos… esperando um toque que não veio. Fecho os olhos por um segundo. Eu quis tocar. A admissão surge contra a minha vontade, mas não desaparece. Quis tocar mais do que deveria. Quis diminuir a distância. Quis sentir se a pele dela seria tão quente quanto parecia. Isso é um erro. Erro não está no desejo em si. Erro está em permitir que ele exista. Homens como eu não têm espaço para esse tipo de fraqueza. Fraqueza cria brechas. Brechas criam oportunidades. E oportunidades… matam. O som de uma batida discreta na porta corta meus pensamentos antes que avancem para um território ainda mais perigoso. — Entre. A porta se abre imediatamente. Um dos meus homens cruza o limite do escritório com postura rígida, olhar atento, silêncio respeitoso. Ele não pisaria aqui sem motivo. — Capo, os Rossi estão se movimentando. Claro que estão. Eles nunca param. Nunca esquecem. Nunca perdoam. A guerra não declarada continua respirando nas sombras, esperando o momento certo para sair à luz. Sempre foi assim. Sempre será. Dou outro gole no uísque antes de responder. — Redobre a segurança. Minha voz sai estável. Sem pressa. Sem emoção. Como deve ser. — Principalmente no último andar. Ele hesita por meio segundo. Pequeno demais para qualquer um notar. Não para mim. — A esposa…? A palavra ainda soa estranha quando associada a mim. Pesada. Nova. Inconveniente. Mas necessária. — Ninguém chega perto dela sem minha permissão. A resposta vem imediata. Sem espaço para interpretação. Ele apenas assente. — Sim, capo. Não há mais perguntas. Ele sabe quando a conversa terminou antes mesmo de eu dispensá-lo. A porta se fecha atrás dele, devolvendo ao escritório o silêncio que nunca é realmente silencioso. Fico sozinho outra vez. Apoio as duas mãos na mesa, inclinando levemente o corpo para frente. Respiro fundo, tentando organizar pensamentos que raramente se mostram desordenados. Lívia não é apenas uma dívida paga. Não é apenas uma peça em um acordo antigo. Não é apenas um símbolo político dentro de um jogo maior. Ela é uma variável que não estava nos cálculos. E variáveis inesperadas… são perigosas. Passo a mão lentamente pelo rosto, sentindo o peso de um cansaço que não vem do corpo. Vem de algo mais profundo. Algo que não costumo nomear. Fraquezas matam homens como eu. Não de forma rápida. Não de forma limpa. Mas inevitável. Sempre vi isso acontecer com outros. Homens poderosos demais para serem derrubados por inimigos… e tolos o suficiente para cair por causa de sentimentos. Nunca fui um deles. Nunca permiti ser. Até agora… essa certeza não tinha rachaduras. Endireito o corpo devagar, obrigando a mente a voltar para o que importa. Estratégia. Território. Segurança. Poder. Esse é o único idioma que realmente sustenta tudo. Ainda assim… meus olhos se erguem involuntariamente em direção ao teto. Último andar. Quarto. Ela. Uma linha invisível já foi cruzada. Eu sei disso. E não há como desfazer. Não a toquei. Não a beijei. Não a levei para minha cama. Nada aconteceu. Ainda assim… aconteceu demais. Ela já está sob minha pele. A percepção é silenciosa. Incômoda. Irreversível. Caminho até a janela do escritório, observando a escuridão do lado de fora. A propriedade permanece protegida, iluminada apenas o suficiente para revelar movimento sem expor fraquezas. Tudo sob controle. Sempre sob controle. Mas controle externo nunca foi o verdadeiro desafio. O verdadeiro perigo… sempre vem de dentro. Amanhã tudo muda. Não apenas para ela. Para mim também. Quando o mundo enxergar Lívia como minha esposa, a dinâmica do poder se reorganiza. Alianças silenciosas ganham novo peso. Inimigos calculam novas rotas. Observadores aguardam sinais de fraqueza. Eles estarão esperando que esse casamento me torne vulnerável. Esperando que eu me distraia. Que eu hesite. Que eu ame. Um erro fatal. Meus dedos se fecham lentamente sobre o parapeito da janela. Eles não entendem. Não sabem que proteção, no meu mundo, não é gentileza. É posse. É território. É guerra declarada sem precisar de palavras. Se alguém tocar nela… não será apenas uma ameaça pessoal. Será um ataque direto ao que é meu. E ataques diretos… têm apenas uma resposta possível. A certeza se instala com calma absoluta, como sempre acontece quando uma decisão real é tomada. Quem tentar tirá-la de mim vai morrer primeiro. Não por emoção. Não por impulso. Não por amor. Mas porque é assim que o poder sobrevive. E, gostem ou não… Lívia agora faz parte desse poder. Fecho os olhos por um breve segundo, aceitando algo que ainda não estou pronto para analisar por completo. O erro já começou. A linha já foi cruzada. E, mesmo sabendo de tudo isso… uma parte silenciosa dentro de mim não quer voltar atrás. A noite continua avançando lá fora. Escura. Profunda. Sem promessas de descanso. Exatamente como o mundo ao qual ela acabou de ser entregue. Exatamente como o homem com quem ela agora está presa. E, pela primeira vez em muito tempo… não tenho certeza de qual dos dois representa o perigo maior.
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