Emília
Coloco minha última mala com tudo que precisaria para essas férias no Hyundai Santa Fé de Elisa e fecho o porta-malas ao perceber que todas as nossas coisas já estão guardadas.
— Tudo pronto? — Elisa indaga, após colocar seus óculos de sol.
— Tudo sim. Então o plano é: eu dirijo metade do caminho e você a outra metade, assim nenhuma das duas fica tão cansada. — Digo, logo adentrando o lado do motorista, já colocando o cinto de segurança e verificando a posição dos espelhos.
— Certo. Vai dar duas horas e pouquinho de viagem. — Elisa diz, também colocando o cinto e pegando seu celular, abrindo suas redes sociais, logo mirando a câmera em nossa direção, tirando uma foto que fica boa de primeira, logo postando em seu story do i********:.
Não demora muito finalmente pegamos estrada.
— Então, antes que eu me esqueça, vamos às regras...— ela diz, abrindo seu bloco de notas do celular, que de soslaio percebo estar com um monte de coisa escrita.
— Ãhn? — Pergunto confusa. — Regras?
Ela me olha como se fosse óbvio.
— Sim, lembra que meu pai falou ao telefone? Na fazenda sempre existiram regras e meu pai é severo demais, um carrasco, ele não suporta que as quebrem. Já disse como ele é controlador com tudo e todos ao seu redor. — Ela diz um tanto cabisbaixa e fico com pena dela, tentando imaginar como foi sua infância e adolescência com a criação de uma pessoa assim, tão rígida.
— Tudo bem, fala aí então. — Digo, trocando de marcha.
— Bom, a primeira e talvez a que você vai mais falar: na fazenda temos toque de recolher, a partir das oito todos devem estar em seus devidos quartos.
A olho arregalando os olhos.
— Oito horas? Cedo assim? Então que horas vocês costumam jantar? Cinco da tarde? — Pergunto incrédula. Quem dorme às oito da noite?
— Não, na verdade jantamos às sete, ah, esse é outro ponto, todas as refeições são servidas em um determinado horário e você precisa estar à mesa no horário caso queira comer, caso contrário fica com fome. — Diz, rindo da minha cara de surpresa. — Entendo sua reação, mas geralmente em sítios e fazendas o dia começa cedo e termina cedo. Além do mais, o jeito controlador do meu pai é em relação a tudo, como eu já disse.
Quanto mais ela fala mais fico me perguntando se foi uma boa ideia vir.
Na verdade, eu decidi de última hora, apenas há duas noites. Terminei mais um semestre na faculdade e graças a Deus, como de costume, tive um alto desempenho em todas as matérias, então decidi vir com Elisa, achei que seria legal passar as férias de dezembro aprontando todas com minha amiga no interior. Daniel não aceitou muito bem, mas ele não tem que aceitar nada também, só estamos nos curtindo mesmo, nada sério.
— Outras regras básicas são: não entrar nos cômodos proibidos, como por exemplo o quarto e o escritório do meu pai…
— O que eu iria querer fazer no quarto do seu pai? — Indago, rindo.
— Só estou dizendo, vai que você erra alguma porta, a casa é muito grande, é fácil se perder. Tem outras regras também, ah, tente não cruzar o caminho do meu pai, já digo de antemão que provavelmente ele não vai te tratar bem, então não quero me sentir m*l, caso ele a trate m*l.
— Como tem tanta certeza que ele não vai me tratar bem?
— Amiga, ele trata m*l a própria família. — Expõe e fica cabisbaixa por alguns segundos, mas logo volta a ser a Elisa risonha de sempre.
— Agora te pergunto, se tem essa regra do toque de recolher, como iremos às festas dessa forma? As melhores acontecem depois das 22:00 e você prometeu que iríamos curtir ao máximo. — Reclamo, prestando atenção na estrada.
— Fica tranquila, ainda podemos fugir sem sermos notadas, não vai acontecer nada, já fiz isso várias vezes e nunca fui pega. — Sorri e a acompanho.
— Essas férias serão mágicas. — Concluo.
…
ㅡ Ei, dorminhoca, acorda, já chegamos! ㅡ Escuto a voz de Elisa e logo me sinto ser sacudida de forma brusca.
ㅡ Ai, o que é isso? Que bela maneira de acordar alguém, hein? ㅡ Resmungo irritada. Detesto que me acordem dessa forma e ela sabe muito bem.
ㅡ É o troco por ter dormido o resto da viagem inteira e ter me deixado sozinha. ㅡ Diz com feição debochada.
ㅡ Eu estava com sono, acordamos às seis.
ㅡ Sim, mas na sua vez de dirigir te fiz companhia a viagem inteira. ㅡ Rebate.
ㅡ A culpa não é minha se você não sente sono em viagens. ㅡ Digo, enquanto esfrego os olhos, logo prendendo meu cabelo em um coque, por estar muito bagunçado e coloco meus óculos escuros para esconder o fato de que estava dormindo.
ㅡ Esquece isso. Nós chegamos, amiga! ㅡ Bate palmas e olho através da janela do carro, logo escutando alguém gritar ao longe: "É a filha do patrão".
Deixamos o carro rapidamente e já conseguimos sentir o clima da Serra. Venta um pouco, mas está calor.
Alguns dos empregados da fazenda pegam nossas bagagens e levam para dentro, mesmo a gente dizendo que poderíamos fazer isso.
Uma mulher trajada em um uniforme discreto vem correndo em direção de Elisa, logo a abraçando e a olhando da cabeça aos pés.
ㅡ Que saudades, menina! Como você está linda! É bom tê-la de volta conosco. A Fazenda fica tão triste sem você aqui. ㅡ Ela diz segurando as mãos de Elisa, que a encara sorrindo.
ㅡ Também estava morrendo de saudades daqui, Dita, é ótimo estar de volta. Olha, essa aqui é minha amiga Emília, ela vai passar as férias aqui comigo. ㅡ me puxa para seu lado, nos apresentando. ㅡ Emília, essa é Benedita, minha antiga babá, que agora trabalha aqui como governanta.
ㅡ Prazer, dona Benedita. ㅡ Digo sincera, tirando meus óculos e lhe lançando um sorriso ao apertar sua mão.
ㅡ O prazer é meu, mas pode me chamar somente de Dita, assim como todos por aqui. ㅡ Sorri de volta.
ㅡ Não vai cumprimentar sua melhor amiga, Elisa? Foi para a Capital e já ficou metida, foi? ㅡ Uma voz surge atrás da gente e nos viramos, encontrando uma jovem parada com os braços cruzados e um sorriso debochado nos lábios.
ㅡ Lurdinha… ㅡ Elisa diz revirando os olhos ㅡ ex-melhor amiga, você quis dizer. Não sou amiga de cobras falsas como você.
As encaro sem entender nada e olho para Dita em busca de respostas. Ela, no entanto, mantém uma feição de desgosto na face.
A garota agora me olha com desdém e eu nem ao menos entendo o motivo.
ㅡ Já me substituiu tão rápido… é claro, deve ser riquinha como você. Você finge bem gostar dos pobres, mas na verdade é igual seu pai, só se aproxima daqueles do mesmo nível social.
ㅡ Pelo amor de Deus, nossa amizade só acabou por sua causa, acabou porque a peguei transando com meu namorado. ㅡ Diz e abro a boca chocada, ela já tinha me contado aquela história. Parece que agora estou conhecendo a tal "amiga" que lhe apunhalou pelas costas. ㅡ Acha isso pouco? Olha, enquanto estivermos aqui fique bem longe da gente. Bem longe.
A tal Lurdinha só faz rir e se afastar.
ㅡ Me desculpe por isso, menina. Eu não sei mais o que fazer com essa garota. Cada dia que passa me dá mais desgosto. ㅡ Dita diz e a olho perdida.
ㅡ Tudo bem, Dita, você não tem culpa de ter uma filha assim como ela, maldosa. ㅡ Elisa diz e agora entendo a situação. Ela é mãe da traíra.
ㅡ Eu não entendo como ela pode ter nascido assim. O pai dela e eu somos bons, honestos, mas ela tem essa inveja, ganância…
ㅡ Vocês não têm culpa por ela ser como é. ㅡ Digo, tentando passar conforto.
ㅡ Bom, vamos deixar isso de lado e entrar. O almoço está quase pronto e fiz sua comida favorita, menina Elisa.
ㅡ Hmmm… strogonoff de frango, arroz e batatinha. ㅡ Diz animada. Eu também adoro strogonoff de frango, que delícia! ㅡ Eu vou mostrar a casa para a Emília, quando tiver pronto você chama a gente?
ㅡ Chamo sim, podem ir lá. ㅡ Dita diz sorrindo e logo subimos o enorme lance de escadas em direção a entrada do casarão.
ㅡAh Dita? ㅡ Elisa a chama quando já estamos na metade da escadaria. ㅡ O meu pai tá em casa?
Ela n**a.
ㅡ Não, menina. Faz alguns dias que ele foi até São Paulo resolver algumas questões de uma das empresas e das propriedades de lá, mas deixou avisado que talvez retorne hoje mesmo. ㅡ Explica e minha amiga assente.
ㅡ Tudo bem, Dita, obrigada.
Logo ela me puxa em direção a casa para conhecer tudo e confesso que estou animada.
— Bom, a fazenda é enorme, portanto hoje vou te mostrar só o casarão, você terá muito tempo para conhecer o resto durante as férias. ㅡ Ela avisa e mostra cada canto e acho tudo maravilhoso.
No andar de baixo havia uma biblioteca enorme, com os mais variados tipos de literatura. De acordo com ela, o pai era um amante fiel dos livros. Depois me mostrou a linda sala de visitas, com uma mesa de centro de madeira pura e com acabamento bem bruto, uma expressão máxima da rusticidade.
— Essa mesa foi ideia do meu pai, disse que é para combinar com a personalidade dele. ㅡ Elisa explica. Ela fala tanto no pai dela que estou começando a sentir que o conheço há anos. Rio internamente com esse pensamento.
Também me mostrou a cozinha enorme e moderna, que faria um renomado cozinheiro ficar com inveja. Também conheci a sala de jantar, a academia e toda a área de lazer da casa que de acordo com ela quase não era usada. Percebi que quase tudo tinha um estilo mais rústico na decoração e todos os móveis são de madeira pura, inclusive o piso e o corrimão da escada.
Ela me levou na linda e enorme varanda com uma linda vista. Já me imaginei aqui sentada com ela e os amigos que ela tem na cidade. Era muito charmosa e um aconchegante espaço de convivência. As cadeiras e as mesinhas de madeira fizeram um lindo conjunto no local dando o toque final, além da decoração na parede.
Todos os quartos são suítes para uma estadia de conforto e tranquilidade, possuem lareira, banheiro bem equipado, tendo inclusive banheira de hidromassagem em alguns, além de uma vista incrível da sacada.
Apesar de tantos quartos essa noite vou dormir com Elisa no quarto dela, depois vou para um de hóspedes.
Logo que terminamos o tour pela casa descemos e almoçamos. A comida estava divina e fez até eu repetir, coisa que normalmente não faço.
Depois do almoço subimos para o quarto de Elisa e escovamos os dentes para logo descansar um pouco enquanto conversávamos bobeira.
ㅡ Cheguei a 10k de seguidores no i********:, será que agora dá para fazer recebidos? ㅡ Indaga animada.
ㅡ Só se for recebidos pagos do seu próprio bolso. ㅡ Digo em tom divertido e ela lança uma almofada em minha direção, acertando meu rosto. ㅡ Aí, eu tô brincando, você quase arrancou minha orelha. ㅡ Digo ao perceber que meu brinco havia se enroscado na almofada, como? Não sei.
ㅡ Desculpa, mas é que estou tão animada, tento trazer cada vez mais conteúdos legais para meus seguidores.
ㅡ Estou muito feliz por você, logo você chega a 100k e aí ninguém te segura. ㅡ Digo e ela ri, me abraçando.
Ficamos deitadas quase a tarde toda vendo vídeos de makes e roupas no i********: que m*l vimos a hora passar.
ㅡ Vamos na cachoeira que tem aqui na fazenda? Está tão calor. ㅡ Elisa sugere e aceito de primeira. Queria mesmo me refrescar um pouco.
Separamos nossos biquínis e os vestimos, logo colocando uma roupa por cima, já que teríamos que andar um pedaço até chegar na cachoeira e não iríamos ficar andando de biquíni pelo lugar sabendo que está cheio de empregados do seu pai por aí.
ㅡ Vamos? ㅡ Pergunto depois de pegar minha bolsinha com alguns pertences e visualizar ela fazer o mesmo.
ㅡ Vamos.
Saímos do casarão depois de avisar Dita onde estávamos indo e ouvirmos ela dizer para termos cuidado.
Andamos um bom pedaço, mas não demorou para chegarmos ao lugar e valeu muito a pena ter vindo.
ㅡ Nossa, é linda! ㅡ afirmo sobre a cachoeira, enquanto tiro a roupa para dar um mergulho.
ㅡ Eu não falei?
Mergulhamos e nadamos por um bom tempo em meio a brincadeiras, porém Elisa, sendo Elisa, logo avista um pé de manga e diz que vai pegar para levar para casa e comer. Eu rio.
ㅡ Vamos pegar? ㅡ Sugere.
ㅡ Eu não, vai você que te observo daqui. ㅡ Sorrio e ela dá de ombros, logo saindo da água e correndo até o pé que ficava um pouco afastado.
Mergulho novamente e nado mais um pouco, mas logo vou para debaixo da queda d'água, sentindo meus músculos relaxarem no mesmo instante com o contato.
Sons de galopes furiosos me despertam do meu momento de relaxamento e me assusto, logo olhando ao redor tentando encontrar de onde vem aquele barulho.
Olho ao redor mas não vejo nada e logo começo a achar que estou ficando louca.
ㅡ Tô doida. Vou chamar Elisa e dar o fora daqui. ㅡ Murmuro para mim mesma e saio da água.
E é então que o vejo.
Ali, escondido entre alguns galhos de árvore, a uma boa distância, que não me permite ver muito de suas características, vejo um homem montado em um enorme cavalo n***o.
Mantém uma pose imponente e rígida, mas me observa com uma feição incrédula, como se não acreditasse no que está vendo. Chega a ser uma feição de pavor.
Franzo o cenho, um tanto assustada, não entendendo nada.
Saio do meu torpor com o alto barulho do galope e visualizo ele partir para longe, me deixando atordoada com o que havia se passado ali. Em segundos já não consigo vê-lo mais em meu campo de visão.