Capítulo I

2299 Words
Vinte anos depois Emília Brandão — Social hoje no meu apartamento às 22:00, queremos reunir a galera antes das férias começar. — Eu me mantinha concentrada no que estava digitando em meu macbook, quando Marcelo, um cara de quem eu estava a fim há algum tempo, se aproxima repentinamente, sentando-se à minha frente, logo me entregando um pequeno cartão. Olho primeiramente para ele, que sustenta um sorriso largo para mim e depois encaro o pequeno pedaço de papel em minhas mãos, notando ser uma espécie de convite com todas as informações sobre a tal social, como por exemplo o lugar onde aconteceria, horário e afins. — Quem cria um convite em cartão para uma social? — Pergunto com um pouco de deboche em tom divertido, afinal era uma social, algo bem informal, não havia necessidade de convite em cartão na minha opinião. — Eu. — Responde como se fosse óbvio — Fala sério, já viu quem sou eu? Marcelo Andrade de Assunção, filho de um dos maiores desembargadores do Rio de Janeiro, não é qualquer um que entra na minha festa não, só entra quem tiver convite, só elite. — Se engrandece e eu rio internamente. Gostaria de falar que além de ser um dos maiores desembargadores, seu pai é um dos mais corruptos também, como todos sabem, mas não acho apropriado levando-se em conta que eu ainda quero dar uns pegas nele. Se bem que eu estou até desistindo, pensa numa pessoa metida? É ele. — Vou ver se consigo ir. — Digo fazendo pouco caso para ferir seu ego mesmo. Marcelo precisa entender que não é assim que a banda toca e nem tudo é sobre ele. — Como assim pensar? Não tem nem o que pensar. É uma festa minha. Continuo digitando, como se meu trabalho fosse mais importante que ele e na verdade é sim. Só quero que ele perceba isso. — Estamos na época de exames finais, Marcelo, se eu terminar tudo que tenho que fazer até lá, eu vou. Aliás, você já terminou seu projeto de processual civil II? — Pergunto confusa, por não vê-lo arrancando os cabelos como estou fazendo agora. — Já fiz e já enviei para o e-mail do professor. — Responde e o olho rapidamente. — Desde quando você faz um trabalho tão rápido? É só para a semana que vem… — estranho. — É porque eu não fiz o trabalho, paguei um cdf do escritório de advocacia da minha mãe para fazer para mim. — Fala como se fosse óbvio — Não vou ficar perdendo meu tempo com isso quando tem outras pessoas que podem fazer por mim. — Desdenha e a compreensão chega até mim. É óbvio, o que mais esperar dele? Agora me pergunto como foi que me senti atraída por um cara como esse? Depois se torna um péssimo profissional e não sabe porquê. É claro, pode se escorar no papai desembargador e na mamãe promotora de justiça. Não que eu não tenha família rica, meus familiares são podres de rico, mas nem por isso me escoro neles. Afinal eles são ricos, não eu. Sou apenas filha de pais ricos. — Entendo…— não estendo o assunto e começo a recolher minhas coisas. Foi uma péssima ideia sentar-me em uma das mesas dispostas pelo campus da Universidade para fazer meu trabalho. Seria melhor ter ido para o apartamento, tomar um banho quente, fazer um chá e focar nisso lá, acho que é o que vou fazer afinal.— Bom… o papo está ótimo, Marcelo — minto, não está nada interessante — mas vou para casa terminar esse trabalho, tudo bem? Nos falamos depois. — Você vai na minha social? Pode levar sua amiga Olívia com você. — É Elisa o nome dela. — Corrijo. Ele deveria saber isso, já que seu melhor amigo está ficando com ela e ela vive no apartamento que eles dividem. — Isso, Elisa, leva ela também, Théo vai gostar de encontrá-la por lá. — Não vou te dar certeza, como eu disse vou focar primeiro nos meus afazeres e depois se eu conseguir terminar tudo vejo se consigo ir, mesmo assim, obrigada pelo convite. Lhe mando um beijo no ar e ele finge pegar com a mão, fechando a palma e tocando seus próprios lábios depois com a mesma mão, como se encenasse que eu estivesse lhe beijado de fato. Meu Deus! Ele tem mesmo vinte e sete anos? Saio rapidamente dali. Pode ser contagioso. … I'm young and I love to be young And I'm free and I love to be free To live my life the way I want To say and do whatever I please... Canto o trecho de uma das minhas músicas favoritas, you don't own me, quando saio do chuveiro e sigo em direção ao meu closet em busca de alguma roupa. Não é novidade para mim quando encontro Elisa bisbilhotando minhas roupas. — Eu já disse o quanto amo suas roupas? — Ela comenta quando surjo em seu campo de visão, observando ela passar cabide por cabide, até chegar até a parte em que eu estava guardando as roupas que comprei recentemente, muitas ainda com etiqueta, pois não tive a oportunidade de usar. — Vim em busca de cobre, encontrei foi ouro. — Ela sorri como o gato de cheshire ao ver as novas peças que adquiri e eu rio. A verdade é que não sou apegada a coisas materiais. Não tenho problema algum em emprestar coisas minhas para ela, assim como ela não tem de emprestar para mim. — Não precisa exagerar, minhas roupas são comuns e normais. — Comuns e normais? — Ela ri em tom de deboche — Seu closet é incrível, com os melhores estilistas e marcas nacionais e internacionais. Eu odeio tudo no meu armário, parece que já usei todas as minhas roupas… — Quando na verdade não usou quase nenhuma também. — Implico, enquanto tiro a toalha do meu cabelo, sentindo-o cair como cascata até o final das minhas costas. É, já está na hora de cortar. Talvez eu corte estilo chanel de bico, acho muito chique, só preciso arranjar coragem de onde não tenho. — Tudo bem, talvez minhas roupas sejam incríveis, mas seu closet também é sensacional. Não demora muito para se vestir, hein? Quero que faça uma maquiagem em mim. — Peço. — Mas você sabe se maquiar. — Sim, mas estou desanimada para me maquiar hoje. Está fazendo muito calor, como é comum no Rio de Janeiro, então optei por vestir uma calça flare preta com um top faixa, uma mistura de elegância e ousadia. Nos pés calço uma sandália de salto grosso, pois mesmo sendo uma social as pessoas que vão acabam por ir um pouco mais elegantes por ser a festa de Marcelo. Não que eu me importe com a opinião dos outros, muito menos sigo modinhas, mas é algo que já visto no meu cotidiano, então é o que escolho. Elisa logo desapareceu do meu campo de visão, voltando segundos depois vestida. ㅡ Ae ㅡ Ela chama minha atenção e a encaro esperando que continue sua fala ㅡ Quem foi o louco que perdeu essa menina? Quem foi o louco que perdeu essa menina? Quem fez ela sofrer? Ficar arrependida? Agora ela tá revoltada, vai dar a volta por cima. Melhor ir se preparando que hoje ela sai com as amigas. Ela canta e começa a rebolar no quarto ao som da batida de funk e eu só consigo rir. ㅡ Imagina o que sua família iria dizer se visse você cantando funk e dançando assim. ㅡ Comento em tom divertido. Não conheço ninguém da família dela, mas pelo que ela me fala deles sei que não iriam gostar nenhum pouco. Passo meu perfume e coloco um par de brincos discretos. Prendo meu cabelo em um r**o de cavalo alto, estava a fim de deixar meu rosto bem à mostra hoje e esse penteado vai ajudar. Na maquiagem Elisa marcou bem meus olhos e passou um batom nude. — Como estou? — pergunto à ela que termina de se arrumar. — Perfeita. Nossa você está muito linda! — Você está maravilhosa — digo o óbvio enquanto a analiso. Ela está usando um vestido preto justo de manga comprida com decote V nas costas. Está calçando uma sandália linda e seu cabelo está solto com ondas incríveis. Passou um batom vermelho e apenas rímel e delineador nos olhos — Bom, já podemos ir? — Pergunto. Não quero demorar mais. — Claro. Você dirige ou eu dirijo? — Deixa comigo. … Chegamos ao apartamento de luxo de Marcelo localizado na Barra da Tijuca. O local onde fica seu condomínio possui ruas largas e linhas de metrô que tornam o deslocamento dos moradores mais fácil e rápido. Além da praia praticamente no quintal de casa, quem mora ali também conta com áreas verdes que oferecem mais qualidade de vida, momentos de lazer e espaço propício para a prática de esportes. Estaciono o carro e logo adentramos o local após nos identificarmos. Realmente aquela parecia ser A festa e não apenas uma simples social. Marcelo sempre tentava demonstrar que nada no dinheiro, nada de novo sob o sol. Entramos e uma música eletrônica praticamente explodiu nas caixas de som de tão alta que estava. ㅡ Vamos beber alguma coisa para aquecer.ㅡ Elisa diz do meu lado, enquanto balança o corpo de acordo com a música e seguimos até o bar improvisado que tinha ali. Ela pede uma vodka e eu peço apenas um coquetel de frutas sem álcool, já que estou dirigindo. Haviam vários barmans preparando drinques diversos, desde os não alcoólicos até os que poderiam levar a um coma alcoólico. Logo as bebidas chegam, nós brindamos e por fim bebemos. ㅡ Wow! Desceu queimando. ㅡ Elisa se refere à vodca. ㅡ Sim, mas pega leve, não vou carregar ninguém para casa. ㅡ Sorrio. ㅡ Vou dançar um pouco, você vem? Vou ver se encontro o Théo por aí. ㅡ Não, eu vou ficar por aqui por enquanto, depois eu vou. Ela logo segue para a pista de dança, começando a se soltar. Percebo que metade das pessoas que estavam ali eu não conhecia. Muitas pareciam ser bem mais velhas. Dou de ombros e caminho até o banheiro para retocar a maquiagem. Quando saio me choco contra alguém. ㅡ Me desculpaㅡ digo e tento seguir caminho, porém a pessoa me segura. ㅡ Ei, espera, como é seu nome? ㅡ encaro o rapaz que é um pouco mais alto que eu. Muito bonito, mas aparentemente arrogante. ㅡ Se me soltar posso pensar em responder sua pergunta. ㅡ digo, encarando sua mão no entorno do meu braço com feição nada agradável. ㅡ Qual é gata, vai bancar a difícil? Reviro os olhos e me solto do aperto com brusquidão, logo seguindo meu caminho até a sala, onde me sento em um dos sofás de couro. No mesmo segundo meu olhar cai sobre um rapaz do outro lado da sala me encarando. Lindo e muito bem vestido. Ele parecia meio deslocado estando ali naquele ambiente. Fala sério, ele vestia roupa social e tinha o olhar mais perdido que o meu. Quando ele percebe que sustento seu olhar, rapidamente ele deposita o copo com sua bebida no balcão e se aproxima com um andar confiante. ㅡ Com licença, te observei do bar e realmente gostaria de te conhecer um pouco mais. Posso saber seu nome? ㅡ ele puxa assunto. Sorrio. ㅡ Emília. ㅡ Prazer, Emília, sou Daniel. Em poucos minutos de conversa descobri que Daniel tem trinta anos, é médico e só está aqui porque é primo do Marcelo e achou interessante vir, mas acabou se decepcionando com o ambiente que encontrou. ㅡ Você realmente é extremamente interessante, Emília. Eu realmente quero saber mais sobre você, mas a música está muito alta. Vamos ali na sacada? Está uma noite tão bonita. ㅡ Sugere e não identifico segundas intenções em sua fala. Decido ir, afinal era apenas uma conversa. … ㅡ Tô curtindo pra c*****o ficar com você. Os beijos de Daniel fazem uma trilha do meu pescoço até minha boca e quando a alcança a ataca ferozmente. Tudo bem, não lembro quando passou do estágio conversa para amassos quentes na sacada do apartamento dos outros, mas também não estou reclamando, ao contrário, estou adorando. E que pegada tem esse homem, meu Deus. Estava curtindo bastante até sentir um puxão no braço. ㅡ Aí ㅡ reclamo sem saber o que era aquilo. ㅡ Que p***a é essa aqui, Emília? Você vem na minha festa pra f***r com meu primo debaixo dos meus olhos sabendo que curto você? ㅡ Marcelo indaga indignado e eu franzo o cenho com aquele show dele. ㅡ Dá uma segurada nessa emoção aí, Marcelo, não temos nada e você pega todas da Universidade, agora pouco mesmo estava com uma garota. Que isso agora? ㅡ Solta ela, Marcelo. ㅡ Daniel diz ao perceber que ele ainda apertava meu braço, se aproximando dele. ㅡ Qual é a sua, Daniel? ㅡ Marcelo o questiona, o peitando.ㅡ Tanta mulher nessa festa e você mira justo na que eu tô de olho. ㅡ Como se eu pudesse saber… agora solta ela. ㅡ Daniel diz extremamente sério. Marcelo parece relutante, mas faz o que ele diz. ㅡ Você tá fodido na minha mão. ㅡ Marcelo o ameaça antes de sair e logo desaparece do nosso campo de visão. ㅡ Me desculpa por isso, meu primo é um mimado que acha que pode ter tudo que quer. ㅡ Daniel diz. ㅡ Tudo bem, desde que ele não volte a me atormentar. ㅡ Ele não vai.ㅡ diz convicto ㅡ mas agora vem cá, não vamos deixar ele estragar nossa festa. Ele me puxa e sorrio, novamente atacando seus lábios.
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