Tales
Região Serrana do Rio de Janeiro
A jovem arregala os olhos mel ao sentir a dor se alastrar por todo seu corpo, uma queimação muito grande, como se um ferro quente tivesse sido fincado em sua carne e eu a encaro sem acreditar no que havia acontecido bem ali na minha frente.
— Ana… — sussurro incrédulo pelo que ela havia acabado de fazer.
— Eu te amo, Tales. — Ela ainda consegue sussurrar suas últimas palavras, antes de fechar os olhos para sempre.
Aos poucos o corpo inerte dela desliza pelos meus braços. Ainda desacreditado com a situação, não consigo me manter de pé, caindo no chão junto com ela, sustentando seu corpo magro entre meus braços.
— Não, Ana, não… — sussurro ao seu ouvido — não me deixa, por favor, não me deixa.
Desperto ofegante, respirando intensamente e com um ritmo cardíaco muito acelerado, o que com toda certeza dificultaria que eu retornasse ao sono tranquilamente. Nada que eu já não estivesse acostumado, afinal já fazem vinte anos que eu revivo aquela fatídica noite através de pesadelos.
Todos os pesadelos têm como característica em comum o fato de terem uma duração curta, mas depois de acordar sempre tenho dificuldade em retomar o sono. Aquele evento traumático realmente me marcou de tamanha forma que não consigo mais viver uma vida normal. Os sonhos sempre parecem muito reais e extremamente perturbadores, fazendo com que eu me sinta ansioso, irritado e desolado.
Jogo o cobertor grosso que me cobria para o lado da cama e levanto-me. Apesar do frio que assola a serra nesta madrugada não visto nada além de uma calça de moletom preta, porém jogo um roupão preto sobre o corpo. Precisava de uma bebida!
Deixo meu quarto e caminho pela enorme propriedade da qual sou dono. Não é possível ouvir nada, afinal apenas eu me encontro na casa.
Desde que me divorciei de minha ex-esposa Helena, que meu filho se mudou para outro estado e minha filha Elisa mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer faculdade, o silêncio virou meu companheiro, porém eu não reclamo, é exatamente disso que gosto, de viver sozinho e recluso em minhas terras.
Alcanço a sala de visitas e caminho até a mesa de bebidas que fica estrategicamente encostada em uma das paredes. Pego um copo e jogo uma pedra de gelo no mesmo, logo despejando uma boa dose do meu companheiro, o uísque.
Olho através de umas das enormes janelas da sala de visitas e percebo que um temporal assola essa madrugada, coisa comum na Região Serrana no período de dezembro a fevereiro/março.
Já é a terceira madrugada seguida de temporais e isso é claro que tem tirado o sono de muitos friburguenses, que se encontram temerosos de reviver o pesadelo da tragédia de janeiro de 2011 em que muitas famílias perderam para a enchente seus bens materiais e outros entes queridos.
Na madrugada passada o estrondo de fortes trovoadas foi sentido em diversos bairros, e alguns dos que trabalham em minhas terras relataram ter sentido seus imóveis tremerem.
Viro o uísque de uma só vez em minha boca e deposito o copo na mesa de centro, logo sentindo uma segunda presença no ambiente. Meus instintos são bastante apurados e sei bem quando mais um alguém se encontra no perímetro.
Sinto sua presença atrás de mim e em um rápido movimento giro meu corpo e trago o corpo da pessoa para perto de mim, lhe dando um mata-leão, um golpe de estrangulamento usado nas artes marciais j*******s, realizada pelas costas do oponente.
Aperto firmemente meus braços musculosos no entorno do pescoço do meu oponente, até perceber de quem se tratava.
— Senhor Montenegro, sou eu, não me mate, por favor. — A voz de Maria de Lourdes, mais conhecida como Lurdinha pelas redondezas, soa em meu ouvido em tom de desespero, implorando por sua vida.
A solto em um movimento brusco e a encaro com fúria presente no olhar.
— O que está fazendo aqui a essa hora? — Pergunto com os olhos flamejantes pela raiva.
Ela rapidamente se recompõe e percebo ao olhá-la rapidamente que traja um pijama minúsculo e ousado.
— Vim pegar um copo de água na cozinha e notei a luz da sala acesa, estranhei porque apaguei tudo antes de me recolher e vim ver o que era.
Lurdinha trabalha na casa como uma das faxineiras. É filha de um dos meus capangas e da governanta da casa e vive me perseguindo tentando me seduzir usando seus atributos. Já a ameacei de todas as formas, mas parece que palavras não estão adiantando muita coisa, vou ter que partir para a ação.
— E o que está fazendo aqui a esta hora? Sabe muito bem que vocês estão proibidos de circular pela casa depois das oito da noite. — Digo rude, com postura rígida.
— Desculpa, senhor, é que eu queria apenas beber água. — Faz uma falsa cara de arrependida para mim, o que me deixa ainda mais puto.
— É para isso que existe a ala dos funcionários, para que vocês não circulem por aqui. Por acaso está faltando água na sua casa?
— Não senhor.
— Não a quero mais circulando por aqui fora do horário de trabalho, ouviu bem? Caso isso aconteça, você terá um ótimo encontro com Cronos, Morpheus e Kratos. — Ameaço e vejo seus olhos se arregalarem, ficando duas vezes do seu tamanho normal. Sorrio internamente. Os três são meus ferozes cachorros da raça Cane corso, raça essa que por sinal é banida de diversos países do mundo, por serem extremamente letais quando agem.
Costumo dizer que o cachorro é o melhor amigo do homem, claro, desde que esse homem não seja um criminoso.
Nem mesmo o mais ágil dos criminosos conseguiria escapar da fúria deles. Eles atacam e mordem impiedosamente. Se forem devidamente treinados, nunca irão atacar sem motivo, no entanto eu os adestrei justamente para serem máquinas de destruição, então no caso dos meus, se eles chegarem perto de alguém, será para matar e matar sem dó, nada menos que isso.
Como um fazendeiro riquíssimo, estou exposto a diversos riscos e meus cachorros são uma das minhas diversas apólices de seguro que me mantém protegido de qualquer ataque surpresa.
— Me perdoe, senhor, é que eu também achei que o senhor gostaria de uma companhia feminina esta noite… — tenta passar a mão por meu peitoral desnudo, devido ao fato do roupão ter aberto me deixando exposto, porém paro seu braço no ar com apenas um movimento.
— Achou errado, e se eu quiser uma companhia feminina com toda certeza não será de uma c****a oferecida que nem você. — Digo de modo frio e rude em sua cara, notando seus olhos começarem a lacrimejar, mas não me importo nenhum pouco, todos sabem como sou, como ajo, idiotas são aqueles que tentam se aproximar mesmo me conhecendo. — Agora suma das minhas vistas ou então amanhã mesmo boto você e seus pais a pontapés daqui da fazenda e nós dois sabemos que vocês não tem para onde ir, não é? Vou contar até três, se ainda estiver aqui quando alcançar esse número, já sabe. — Sorrio de modo sombrio e a vejo estremecer. — 1…. — me viro para pegar uma bebida e quando novamente me viro para ela para continuar a contagem percebo que ela já havia desaparecido. — Ótimo!
Pego meu drinque e me sento de forma despojada no sofá. O relógio digital ao meu lado ainda marca 3:45 e eu tenho absoluta certeza que não irei conseguir voltar a dormir.
— Merda. — praguejo para mim mesmo, com as lembranças daquela noite ainda vivas em minha mente e viro a bebida, olhando para a janela e esperando o dia clarear para iniciar minha rotina.
...
Pego as chaves da minha 4x4 e começo a caminhar em direção a porta de saída, precisava ir até a cidade resolver alguns problemas que não podiam mais ser adiados.
Para quem precisa enfrentar a estrada de terra quase todos os dias assim como eu, deve contar com um carro que atenda suas necessidades. Um modelo mais robusto, que rode bem nas estradas rurais. Tenho vários carros, mas esse com certeza é um dos meus favoritos, atende todas as minhas necessidades, assim como também gosto do meu jeep renegade.
Sigo até o veículo girando a chave nos meus dedos até que o barulho do meu celular tocando no bolso traseiro da minha calça me desperta. Bufo com raiva, mas decido atender mesmo assim. Não eram muitas pessoas que possuíam meu número pessoal, e as que tinham era porque ainda significavam alguma coisa em minha vida.
Olho para o visor e o nome da minha filha mais nova brilha juntamente com uma foto sua que foi tirada aqui na fazenda, enquanto ela cavalgava.
— Pronto. — Digo com minha voz grave e com minha seriedade costumeira. Não mudo minha postura diante de ninguém, nem mesmo dos meus familiares.
— Oi, pai, tudo bem? — A voz dela soa animada do outro lado da linha e eu realmente me questiono se ela me ligou para bater papo ou pedir algo. Como conheço a filha que tenho, já considero logo a segunda opção.
— Elisa, está precisando de alguma coisa? — pergunto diretamente, não é como se ela fosse ficar ofendida com a forma de tratamento que estou usando, como já disse, não mudo minha postura diante de ninguém. As pessoas que me aguentem como sou ou então que se afastem, para mim não faz a menor diferença.
— Como se eu ligasse apenas quando quisesse pedir algo… — reviro os olhos, ela acha que não a conheço.
— Na verdade, é o que você sempre faz sim. — Digo com o tom muito sério e continuo balançando minhas chaves e caminhando. — Diga logo o que quer, estou muito ocupado e sabe que detesto ser atrapalhado.
Digo a verdade, era uma das coisas que mais me deixava irritado,que me atrapalhem, sobretudo quando tenho algo importante para fazer.
— Quero saber se posso levar uma amiga minha para passar as férias comigo na fazenda. — pergunta e não acredito no que ouço.
Em anos Elisa nunca trouxe ninguém para cá, nem ao menos pensou nisso, porque sabe muito bem como sou, um homem quebrado e recluso. Não gosto de visitas, na verdade não as suporto. Não gosto da ideia de estranhos vagando por minhas terras porque nunca podemos saber suas intenções. E se for alguém que se aproximou da minha filha por interesses?
Mas por outro lado Elisa não é burra. Lhe dei uma criação a punhos de ferro para sempre identificar interesseiros em sua vida e não se deixar levar por tolices. Ela é dura igual a mim, apesar de puxar a aparência da mãe a personalidade dela veio toda de mim então se ela ao menos ponderou em trazer alguém, é porque gosta de fato da pessoa, já que sempre teve muitas amigas, mas nunca sequer tocou no assunto de trazer alguma para cá. Enfim, espero que essa visita não me trague dor de cabeça.
Noto que fico em silêncio durante um longo período, então logo volto a falar:
— Faça o que quiser, mas já sabe das regras. — Digo de modo frio e não preciso me estender nesse assunto, ela já sabia muito bem quais regras eram e sabia melhor ainda o que iria acontecer caso alguma fosse quebrada. — Era só isso?
— Sim, pai.
Sem dizer mais nada desligo a chamada e volto a fazer o que eu tinha para fazer, não tinha tempo nem saco para ficar de papinho no telefone como se fosse um adolescente, nem mesmo se a pessoa do outro lado da chamada fosse minha própria filha.
Adentro minha 4x4 e não demora até eu pegar a estrada, o dia para uma pessoa como eu começa cedo e termina muito tarde, são muitas demandas a atender e não aceito nada que não fosse próximo da perfeição. Não é à toa que sou o que sou hoje.
Me tornei um homem de visão, mas extremamente autoritário e controlador, faço questão de controlar absolutamente tudo ao meu redor, principalmente a questão dos negócios e fortuna da família.
Meus filhos, mesmo adultos, se precisam de algo em relação a despesas, ainda precisam pedir a mim. Nunca faltou nada a nenhum dos dois, mas eles deveriam pedir a mim. O instinto de estar no controle não permitia o contrário. Todo o dinheiro da família fica sob meu poder e só sai com minha autorização. Talvez essa tenha sido uma das principais razões pela qual meu filho Eduardo cortou laços comigo e se mudou para o Rio Grande do Sul quando passou em um concurso público para delegado e finalmente conseguiu sua independência. Ele sabia que estando aqui isso jamais aconteceria.
As pessoas que estão ao meu redor já me conhecem bem e conhecem meu lado negativo. O instinto controlador era um deles e atingia a qualquer um que fosse importante para mim, absolutamente qualquer um.
Sigo meu caminho, percebendo que meus capangas vinham em carros atrás de mim. Nunca se sabe quando irá precisar deles.
Penso nessas ideias de Elisa de levar alguém para a fazenda, espero realmente que isso não me der dor de cabeça, caso contrário serei implacável em retaliar.