CAPÍTULO II

1868 Words
Emília Sinto o sol beijar minha face e recosto mais na cadeira de praia observando os rapazes jogando futvôlei um pouco mais distante de onde estou. Noite passada Daniel e eu nos conhecemos melhor e ele me convidou para vir à praia hoje com alguns de seus amigos. Como é sábado e já adiantei todas as minhas pendências, não vi problema algum em me divertir um pouco. A verdade é que realmente estou curtindo ficar com ele, é um homem muito bonito, centrado, que possui objetivos e metas claras em mente, ao contrário de seu primo Marcelo que parece viver em uma realidade paralela. Gosto de homens que sabem o que querem, gosto mais ainda se forem mais velhos que eu. Noite passada ele queria ir para meu apartamento, mas não permiti. Apesar de ser um gato ainda estou o conhecendo e não consigo me envolver sexualmente com alguém se não rolar um sentimento, ou uma ligação, por menor que seja. Não consigo t*****r, só por t*****r, não adianta. Observo ao redor como a praia está lotada. Famílias ocupam a areia, curtindo o sol carioca e alguns grupos de amigos curtindo jogos de vôlei e futvôlei. O clima do início do mês de dezembro está agradável, pois ainda não começou o verão de fato, então ainda não está aquele sol escaldante que ninguém merece. — E então, já pensou na minha proposta? — Minha atenção é desviada com a chegada repentina de Elisa e ela senta-se ao meu lado depois de voltar com duas águas de côco que havia comprado em um quiosque ali perto de onde nossas cadeiras estão posicionadas. Ainda observo os rapazes por mais alguns segundos, até que finalmente a encaro com feição confusa. Apesar de saber do que se trata, prefiro me fazer de doida e fingir que não me lembro de nada. — Proposta? Que proposta? — Devolvo a pergunta, fazendo minha melhor cara de sonsa do mundo. Ela arqueia a sobrancelha e com esse movimento já sei que ela sabe que estou fingindo que não me lembro. — Você sabe muito bem, Emília, não adianta fugir. Estou falando do convite que te fiz para passar as férias de dezembro lá na fazenda da minha família. — Explica. É óbvio que era isso, eu me recordo muito bem quando surgiu esse assunto. Foi exatamente uma semana atrás, quando estávamos fazendo a noite das garotas. Eu havia comentado com ela que não tinha certeza se iria para a fazenda da minha família e isso por duas razões, a primeira é meu avô, que foge de mim igual o d***o foge da cruz e eu nem ao menos sei o porquê. Ele sempre tenta me manter longe e partiu dele a ideia de me mandar para o Rio de Janeiro para estudar. Estudei nos melhores colégios de Friburgo, sempre recebi a melhor educação possível, mas tão rápido que me formei no ensino médio fui enviada pela minha família, contra minha vontade, para o Rio de Janeiro para fazer faculdade. As opções em Friburgo não eram muitas, apenas universidades que de acordo com meu avô não estavam à altura da educação que eu deveria receber. Balela, mas não consegui tirar a ideia da mente deles. A segunda razão pela qual não quero voltar, é que agora que me acostumei com a vida na Capital e a tudo que ela tem para me oferecer, não quero voltar ao interior jamais, nem para uma visita. Ao chegar na Capital, eu, que vivi minha vida no interior, fui vítima de algo que atinge a muitos da minha idade, a atração pela gandaia, pela vida boêmia. Para mim, que sempre vivi em uma redoma criada pela minha família, estar em um lugar distante era incrível, pela primeira vez eu me sentia livre. Não havia como fugir, aquilo era tão irresistível para mim. No interior praticamente todo mundo se conhecia, você sabia detalhes da vida de todo mundo, quem se casou, ficou grávida, quem era caloteiro, enfim… tudo que você faz vai ser observado e comentado pelos outros e repassado de boca em boca, mas no Rio de Janeiro não era assim… ninguém sabia da vida de ninguém. Rica, bonita e jovem, era praticamente impossível para mim resistir a tudo que a cidade poderia oferecer. É claro que tenho me mantido firme nos estudos, mas isso não quer dizer que também não encontro tempo para me divertir. Nas muitas férias costumava ir para o interior, apesar de não gostar muito, porque desde que conheci a vida na cidade grande era isso que queria para mim. — Não estou fugindo de nada, Elisa, é só que não quero ir para Friburgo nas férias. — retorno ao assunto, após beber um pouco da água de côco que ela havia trazido para mim. — Por que, Emília? Vamos sim, por favor. Eu já fiz tantos planos para nós. Podemos sair para cavalgar, fazer trilhas, ir nas cachoeiras, ir nas festas do interior, vai ser demais! — Dá um gritinho de animação. — Se esqueceu que minha família também mora por lá? Imagina se eles descobrem que fui para a cidade e não os visitei? — Você mesma diz que seu avô não a quer por perto… — É verdade, apesar de eu não saber porquê, mas a cidade não é enorme, posso encontrá-los por lá a qualquer momento. Além do mais, sabe-se lá se sua família quer receber alguém na casa deles? — Não liga para isso. Olha… desde que meus pais se separaram, minha mãe vive viajando. Faz meses que nosso contato é apenas por telefone. Meu irmão mora no Rio Grande do Sul desde que passou em um concurso público para delegado e meu pai é tranquilo, desde que não fiquemos em seu caminho. — Ela explica. Lembro que ela havia dito que sua família é bem complicada. Ela não teve receio de se abrir para mim, assim como não tive de me abrir com ela. Revelou que seu pai é um homem extremamente c***l e controlador, que vive recluso em suas terras. Possui uma das maiores fortunas do Rio de Janeiro, e que é um homem de hábitos antigos, como por exemplo, utiliza de torturas para aniquilar aqueles que entram em seu caminho e que possui capangas para resolver muitas de suas pendências, como cobrar devedores. Só isso já fez com que eu não me sentisse à vontade para ir conhecer a fazenda. — Não sei não, Ellisa, acho que prefiro ficar por aqui mesmo. — tento mais uma vez. — Quer ver só? Vou ligar agora mesmo para meu pai para ver se posso te levar. — Vejo ela pegar rapidamente seu celular de última geração de sua bolsa e procurar rapidamente pelo contato do pai. — Não, Elisa… — digo, mas percebo que já estava chamando. — Deixa comigo. Chama algumas vezes e ela coloca no viva voz para que eu possa escutar a conversa. — Pronto. — A voz grave soa do outro lado da linha e no mesmo instante sinto um arrepio estranho passar por toda minha coluna. — Oi, pai, tudo bem? — Elisa, está precisando de alguma coisa? — Indaga e eu acho estranho a forma como ele fala com a própria filha, mas minha amiga parece não se importar, pelo contrário, ela sorri. — Como se eu ligasse apenas quando quisesse pedir algo… — Na verdade, é o que você sempre faz sim. — Diz com o tom muito sério e parecia estar fazendo outras coisas, pois conseguimos ouvir barulho de chaves e movimentação. — Diga logo o que quer, estou muito ocupado e sabe que detesto ser atrapalhado. Com todo modo rude com que ele fala percebo que foi uma péssima ideia Elisa ligar para ele para pedir algo e agora que eu não estou mais considerando ir. Faço sinal para ela desligar a chamada, mas ela finge que nem vê e continua a falar com o pai. — Quero saber se posso levar uma amiga minha para passar as férias comigo na fazenda. — Ela pergunta, enquanto olha para as próprias unhas. Um silêncio faz presente e penso que ele tenha desligado, quando depois de segundos volta a falar. — Faça o que quiser, mas já sabe das regras. — Diz de modo frio. — Era só isso? — Sim, pai. Sem dizer mais nada ele desliga a chamada e a encaro com pena pela forma que foi tratada por ele, entretanto ela não parecia afetada. — Viu só? Você pode ir. — Não se importa de ele tratá-la assim? — Indago confusa e ela dá de ombros. — Já estou acostumada, desde criança foi assim. Ele trata a todos dessa forma fria e distante, até mesmo minha mãe ele tratava assim. Ela queria até mesmo pedir o divórcio por causa disso, mas antes que ela fizesse isso ele o fez. Para falar a verdade todos sabemos que ele nunca a amou de verdade, se casou apenas por conveniência. — Não sei se quero ir para lá. — Não suportaria conviver alguns dias com uma pessoa assim. — Fica tranquila, contanto que fiquemos afastadas dos locais onde ele passa seu tempo, não haverá problema algum. — Afirma, mas não tenho tanta certeza assim. Visualizamos os rapazes caminharem em nossas direções. — Churrasco na casa do Dante, topam? — Daniel nos convida, após sentar-se ao meu lado e deixar um beijo em meus lábios. — Tô dentro. — Elisa se antecipa e eu também concordo. Por que não? … — Então você vai passar suas férias na Serra? Já estava pensando em te convidar para passar uns dias comigo em Búzios, tenho uma casa de praia com uma vista incrível, estou muito a fim de te conhecer melhor. Você me intriga de uma forma… — Daniel sussurra ao meu ouvido, logo deixando beijos por meu pescoço e alisando minha perna. Por fim deixa um forte aperto em minha coxa. — Ainda não tem nada confirmado, mas é uma possibilidade. Elisa quer muito que eu vá e meio que já estou devendo essa visita à ela há muito tempo. — Digo a verdade. — Mas você vai passar todas suas férias lá? Porque talvez podemos combinar de passarmos o réveillon juntos, mas aí vamos para Copacabana, você que sabe. Gosto de sua ideia, mas no momento não confirmo nada. Apenas puxo seu rosto, atacando seus lábios e logo o sinto ficar animado embaixo de mim. — Se continuar sarrando assim em cima do meu p*u não vou aguentar e vou te arrastar lá para cima. — Ele diz e eu só faço rir. — Vamos com calma aí. — Ele ri. — Pega mais uma cerveja para mim? A minha latinha já acabou. Ele assente e se levanta, ajeitando sua bermuda. A sua excitação é nítida, pois está bem marcada. Sorrio com maldade e ele pisca, logo se distanciando. Deito na cadeira, observando o pessoal na piscina, alguns se pegando e outros perto da churrasqueira, assim como alguns caras jogando sinuca A conversa de Elisa com o pai volta novamente à minha mente. Ele parece ser um homem muito rígido. A indecisão me toma: Eu deveria mesmo ir passar as férias em sua casa?
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