Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 2001
— Já é tarde, vou me deitar porque estou muito sonolenta, acho que por causa da gravidez. — A voz de Angélica Erthal Brandão, esposa do filho mais velho do impiedoso fazendeiro Antônio Brandão, soa na sala de visitas onde todos se encontram reunidos à espera de Ana Carolina, a filha mais nova do velho Antônio, que ainda não havia retornado para casa.
— Vá sim, meu amor, você precisa descansar e leve Emília com você, já está na hora dela ir se deitar também. — Seu marido Emanuel diz, apontando para a filha de um ano e meio do casal que brinca com um quebra-cabeças no chão da sala. Apesar de não estar montando nenhuma peça direito, ela se diverte e faz a alegria de todos da família com suas risadas contagiantes.
— Vamos, Emília, dormir com a mamãe. — Angélica chama a menina, que resmunga um pouco por ter sua brincadeira interrompida, mas logo obedece, subindo no colo da mãe, sendo carregada escada acima. Em segundos ambas desaparecem do campo de visão dos que ficam na sala.
— Essa minha neta é uma figura, como a amo. — Antônio Brandão declara. Não é segredo para ninguém da região que apesar de ser um carrasco com todos, quando se trata de seus netos, sobretudo Emília, ele se torna outra pessoa.
A chuva cai de modo incessante do lado externo da enorme residência dos Brandão, clima comum para a Região Serrana do Rio de Janeiro, já estão acostumados.
— Já é tarde e Ana Carolina está demorando muito, pai. Acha que ela está com aquele rapaz? O filho dos Montenegro? — Emanuel indaga receoso. Não era segredo para ninguém que as famílias Montenegro e Brandão são rivais, um relacionamento entre os membros das duas famílias estava fora de cogitação.
— Ela não ousaria, já lhe disse semanas atrás que se ela se atrevesse a correr atrás daquele rapaz sofreria graves consequências. — Antônio declara com feição sombria, logo acendendo seu famoso charuto e o traga enquanto observa a chuva cair através da janela.
Antes que Emanuel possa dizer mais alguma coisa, dois dos capangas da fazenda dos Brandão, capangas estes responsáveis por seguir os passos de Ana Carolina, adentram a residência.
— Senhor, seguimos a sua filha como nos foi ordenado e ela está em um casebre não muito longe daqui com Tales Montenegro. — Informa o que ele já imaginava ouvir. — Deixamos um dos capangas de vigia para vir lhe informar e aparentemente os dois planejam fugir esta noite, pois estavam colocando algumas malas dentro de um carro, como pudemos ver de longe.
Quando processa a informação recebida, Antônio não tem outra reação, senão canalizar a raiva e desaparecer em segundos do campo de visão do filho, da esposa e dos capangas, que não entendem nada.
Quando Antônio retorna, todos se assustam.
— Antônio, o que vai fazer? — Joana, sua esposa, indaga receosa, ao visualizar o que o marido traz nas mãos, uma espingarda.
— O que já devia ter feito há muito tempo. Vou acabar com a vida daquele Montenegro e depois mandarei Ana Carolina para bem longe de Nova Friburgo.
Um silêncio cobre o ambiente, até que é rapidamente quebrado:
— Papai, não se precipite, pode ter problemas por isso. Não pode ceifar a vida de Tales Montenegro, sua família irá querer nos cobrar pela morte dele. — Emanuel, mais racional que o pai, diz em tom pacífico.
— Eu não me importo.
— Papai, por favor, pense em todos nós, não faça essa besteira, vai destruir nossa família se fizer.
Antônio, com toda sua impulsividade, apenas os encara por breves segundos e depois lhes dá as costas, deixando a casa acompanhado de seus capangas.
— Vamos, Tales, não podemos demorar com isso. — Do outro lado da cidade, em um pequeno e humilde casebre que Tales e Ana Carolina utilizavam para se encontrar às escondidas de seus pais, os dois pegam tudo que juntaram ao longo dos meses e vão colocando aos poucos no porta malas do carro. Pretendem juntos deixar tudo para trás, suas famílias e fortunas e desaparecerem de Nova Friburgo para iniciarem sua vida a dois na Capital e terem a chance de viver seu amor sem represálias de suas famílias, rivais nos negócios e na política friburguense.
— Você pegou tudo que queria? — O jovem rapaz de dezenove anos indaga sua amada, que imediatamente assente.
— Sim, eu peguei.
— Finalmente vamos conseguir ser felizes bem longe daqui. — Ele a puxa para seus braços e sob os pingos grossos da chuva se beijam apaixonadamente, até que algo lhes chama atenção.
— ANA CAROLINA… — a voz de Antônio Brandão soa de forma estrondosa em um grito, os assustando. — Não adianta se esconder, você jamais irá fugir com esse infeliz, prefiro vê-la morta do que casada com um Montenegro!
— É o meu pai, Tales, precisamos ir antes que ele nos alcance. — Diz nervosa, mas antes que consigam adentrar o carro, Antônio surge em seus campos de visão, montado em um cavalo, os encarando com ódio explícito na face.
— Papai…
— Sua vagabunda, irá pagar caro por essa afronta, mas com você me resolverei depois, minha conversa agora é com esse infeliz. — Levanta a espingarda que se encontra em suas mãos, fazendo-a presente para o casal, que encara o armamento com medo.
— Papai, por favor, não o mate… eu prometo que volto com o senhor.
— Não, Ana, vamos fugir, se lembra? — Tales chama a atenção da jovem para que não desista do plano.
— Não posso deixar que ele te mate, Tales e se a condição para isso não acontecer é eu voltar com ele, então o farei. — Faz menção de ir até o pai, porém Tales a impede.
— Seu desgraçado, largue minha filha. — Antônio rosna e aponta a arma na direção de Tales. Percebendo seu movimento, Ana Carolina faz o impensável.
— Não… — ela grita e abraça o amado, entrando na frente da bala que acabara de ser disparada pelo pai.
A jovem arregala os olhos mel ao sentir a dor se alastrar por todo seu corpo, uma queimação grande, como se um ferro quente tivesse sido fincado em sua carne e Tales a encara sem acreditar no que havia acontecido bem ali na sua frente.
— Ana… — sussurra incrédulo.
— Eu te amo, Tales. — A jovem ainda consegue sussurrar suas últimas palavras, antes de fechar os olhos para sempre.
Aos poucos o corpo inerte dela desliza dos braços do rapaz, que ainda desacreditado com a situação não consegue se manter de pé, caindo no chão junto com ela, sustentando seu corpo magro entre os braços.
— Não, Ana, não… — sussurra ao seu ouvido — não me deixa, por favor, não me deixa.
Antônio, que observava toda a cena de longe, desce do cavalo perdido, sem saber o que fazer, após a cena toda ter se desenrolado à sua frente.
O velho fazendeiro havia pagado com sua língua.
— Eu prefiro vê-la morta do que casada com um Montenegro…
Com aquele pensamento ele cai de joelhos no chão, sentindo os grossos pingos de chuva baterem em sua face. Ali à sua frente, a poucos metros de distância, sua filha jaz no chão frio daquela rua, com uma bala presa ao corpo, disparada pelo próprio pai, que colocou o ódio acima de qualquer coisa, principalmente sobre a felicidade e vida da própria filha.