Capítulo 2: Neta e Avô

1942 Words
​Cinco anos depois... ​— Emili, onde você está? Precisa tomar banho agora! Seu avô chega a qualquer momento e você ainda não está pronta! — A voz da Nona ecoava pelo quarto enquanto ela revirava os lençóis e olhava debaixo da cama, procurando a pequena. ​— Nona, eu não quero tomar banho! — Emili surgiu de repente, saindo do meio de uma montanha de roupas no closet. Antes que a governanta pudesse reagir, a menina disparou para fora do quarto, descendo as escadas do casarão a toda velocidade. ​— Te peguei, mocinha! — Augusto, que subia no momento, abriu os braços e capturou a filha no ar, arrancando uma risada dela. ​— Me solta, papai! Estou fugindo da Nona. Ela quer me dar banho à força e eu não quero banho agora! — Emili esperneava de brincadeira, tentando se desvencilhar do abraço forte do pai, mas era em vão. ​— Obrigada, senhor... essa menina ainda me mata do coração! — Nona exclamou, descendo os degraus enquanto recuperava o fôlego. ​— Desculpa, Nona! — Augusto riu e colocou Emili no chão. A pequena não perdeu tempo e saiu correndo pelo corredor da mansão como um raio. ​— É hoje que sou demitida... — Nona desabafou, sentando-se por um momento no degrau da escada para respirar fundo. ​— Sabemos que isso não é verdade. Se ela continuar fugindo, é melhor você colocar seu biquíni e pular atrás dela — Augusto brincou, piscando para a governanta antes de subir para o quarto à procura de Estefânia. ​No andar de baixo, Carmem cruzou o caminho da governanta. — Está tudo bem, Nona? ​— Está tudo bem sim, com licença — a Nona respondeu formalmente. Carmem apenas revirou os olhos e seguiu para a cozinha, onde as funcionárias finalizavam os preparativos. ​— Olá, meninas. Já está tudo certo para a recepção de hoje? — Carmem perguntou. ​— Quase tudo, senhorita. Só precisamos rechear o bolo. ​— Meu pai chega daqui a trinta minutos. Vou subir para me arrumar. Qualquer imprevisto, falem com a Nona. ​— Sim, senhora. ​Enquanto isso, na área externa, a Nona tentava uma nova tática. — Emili, saia dessa piscina! Seu avô vai cruzar aquele portão a qualquer momento! ​— Não quero, Nona! Aquele vestido que você escolheu é feio e aquela sapatilha aperta o meu pé! — a menina gritou de dentro da água, fazendo pirraça. ​— Eu prometo colocar outra roupa em você, uma que não aperte. Agora saia daí, por favor! ​— Tá bom... — Emili cedeu, saindo da piscina com a pele já enrugada de tanto nadar. Antes que a Nona pudesse envolvê-la na toalha, a menina parou, estática, e soltou um grito de pura alegria: ​— VOVÔ! ​Emili disparou como uma flecha em direção à entrada, jogando-se com tudo no colo de Nico, que acabara de descer do carro. ​— Emili, não! — Nona gritou, mas era tarde demais. ​Nico, porém, estava radiante. Ele parecia tão feliz por ganhar aquele abraço espontâneo que nem se importou com o fato de seu terno caro estar ficando completamente encharcado. ​— Senhor, me desculpa... A Emili já estava a caminho do banho, eu juro — Nona explicou, aproximando-se aflita. ​— Não tem problema nenhum — Nico respondeu, sorrindo para a neta. — Eu mesmo vou levá-la para o banho. Separe uma camisa seca para mim, por favor. ​— Sim, senhor. Com licença. — Nona entregou a toalha a Nico e entrou na casa, surpresa com a doçura do patrão. ​— Vovô, você demorou muito desta vez! O que estava fazendo? — Emili perguntou, curiosa. ​— Desculpe, pequena. A viagem levou mais tempo do que planejamos. Mas vamos fazer um trato: na próxima vez, se o vovô passar mais de três dias longe, eu mando buscarem você para ficar comigo, combinado? ​— Promete de dedinho? — Ela estendeu o mindinho com seriedade. ​— De dedinho. — Eles entrelaçaram os dedos, selando o pacto. ​Já dentro do quarto, Nico cuidou do banho da neta com paciência. Depois, levou-a para o closet e começou a secá-la. ​— Vovô, eu não quero usar a roupa que a Nona escolheu. Me aperta toda. ​— Tudo bem. Então, que roupa você quer usar hoje? ​— Eu quero aquela azul que você me deu! ​— Já sei qual é. E é perfeita para a ocasião — Nico concordou. Ele pegou o conjunto: um shortinho branco impecável e uma regatinha azul vibrante, com uma delicada borboleta branca bordada no peito. — Agora, um pouco de perfume para ficar bem cheirosa... e prontinho! Agora sim você está pronta. ​— Com licença, aqui está sua camisa, senhor — Nona entrou no closet, trazendo a peça seca. ​— Olha, Nona! Foi o meu vovô quem me vestiu! — Emili deu voltinhas, exibindo o look. ​— Você está linda, querida. Já podemos descer? Já temos alguns convidados lá embaixo. ​— Ainda não. Quero esperar o vovô se trocar. ​— Pode deixar, Nona. Já vamos descer juntos — Nico avisou, e a governanta se retirou. ​Quando ficaram a sós, Nico olhou seriamente para a neta. — Ei, mocinha, nós precisamos ter uma conversa muito séria. ​— Vai me dar bronca logo agora, vovô? — Emili fez um biquinho. ​— Não vai ser uma bronca. E nem será agora. Depois a gente conversa com calma, tá bom? ​— Tá bom! ​Nico pegou Emili no colo e desceu para o salão de festas. Ao chegar ao pé da escada, colocou-a no chão e segurou sua mãozinha pequena. Ele cumprimentava os convidados com a postura imponente de sempre, enquanto caminhava em direção a Augusto e Estefânia. ​— Boa tarde, papai — Augusto saudou. ​— Boa tarde, senhor — Estefânia completou. ​— Boa tarde — Nico respondeu de forma breve. Ele se abaixou para ficar na altura de Emili. — Agora você vai ficar aqui com os seus pais, tá bom, minha pequena? ​— Não, vovô! Quero ficar com você. Já fiquei "muitão" de tempo com eles hoje. ​— Filha, por favor... Seu avô tem muitos convidados importantes para cumprimentar agora — Estefânia interveio, também se abaixando para tentar convencer a menina. ​— Mas, mamãe, eu já fiquei muito longe do vovô! Agora quero ficar grudada nele. ​Nico sorriu e propôs um novo acordo: — Vamos fazer um combinado, então. Agora você me deixa cumprimentar as pessoas e, assim que a festa acabar, nós vamos assistir a um filme e comer muitas guloseimas. O que acha? — Ele ergueu o mindinho novamente, mergulhando nos profundos olhos verdes da neta. ​— Tá bom, vovô! — Ela juntou os dedos e deu um abraço apertado nele. — Eu te amo, vovô! ​— Também te amo, minha pequena. — Nico levantou-se, ajeitou a camisa e seguiu pelo salão, retomando sua postura de líder. ​— Emili, depois nós precisamos ter uma conversa muito séria, mocinha — Augusto avisou, tentando soar severo. ​— Vai ter que entrar na fila, papai! O vovô chegou primeiro! — a menina respondeu, pronta para outra. ​— Olá, senhores Cesarini — Noah aproximou-se, cumprimentando os adultos educadamente. ​— Olá, Noah! ​— Posso brincar um pouco com a Emili? ​— Claro, mas sem bagunça — Augusto autorizou. ​As duas crianças saíram do salão correndo. Augusto pegou o celular e enviou uma mensagem para a Nona pedindo que ficasse de olho neles. ​— Noah, faz muito tempo que você não vem na minha casa! Meu vovô aumentou o meu quarto de brinquedos — Emili contou, orgulhosa, enquanto abria a porta da imensa brinquedoteca. ​Eles começaram a brincar entre os carrinhos e bonecas. De repente, Noah parou e olhou para ela. — Emili, sabia que quando crescermos vamos ter que nos casar? ​— Quem te contou isso? ​— Meus pais. ​Ele subiu no escorregador e desceu. Emili fez o mesmo e parou de frente para ele. A Nona, que chegava bem na hora com uma bandeja, parou na porta e observou a cena. Mesmo sendo apenas crianças, ela sentia que havia uma conexão inexplicável entre os dois. ​— Crianças, trouxe alguns salgadinhos para vocês. ​Eles correram para comer, esquecendo o assunto sério por um momento. Horas depois, exaustos de tanto brincar, foram para a sala de cinema da mansão. Colocaram um desenho e, em meio ao escurinho e ao cansaço, acabaram pegando no sono. ​Mais tarde, Estefânia entrou na cozinha. — Nona, você viu as crianças? ​— Vi sim, senhora. Deixei os dois assistindo a um filme no cinema. ​— Obrigada. Vou lá buscar o Noah. ​Quando Estefânia abriu a porta da sala de cinema, seu coração apertou. Os dois pequenos estavam dormindo profundamente, e suas mãozinhas estavam dadas. ​— Achou o meu filho? — Ricardo perguntou, aparecendo logo atrás dela. ​— Achei sim... — Estefânia abriu mais a porta, revelando a cena. ​— Ótimo. — Ricardo entrou, pegou Noah no colo com cuidado e murmurou um "boa noite" antes de sair. ​Estefânia suspirou e aproximou-se de Emili. — Filha, acorda... Vamos para a cama. ​— Não estou dormindo... — Emili resmungou, sem abrir os olhos. — Estou apenas relaxando os olhos... esperando o vovô vir ver filme comigo. ​— O seu avô está ocupado, querida. Ele não vai conseguir vir agora. ​— Mentir é feio, mamãe... Ele vai vir sim... — a pequena disse, a voz sumindo de tanto sono. ​Augusto entrou na sala, pegou a filha no colo e levou-a para o quarto, ajeitando-a entre as cobertas. Ao voltarem para a cozinha, o silêncio da casa era quase absoluto. ​— Hoje o dia foi bem cansativo — Augusto comentou. ​— Foi mesmo. Preciso de um banho bem relaxante. — Ele pegou um copo de água na geladeira e notou que Estefânia estava aérea. — Aconteceu alguma coisa? ​— Não... apenas percebi que talvez eu estivesse errada esse tempo todo. ​— Como assim? ​— Nada... acho que é só o cansaço mesmo. Vou subir para descansar. — Estefânia deu um selinho nele e subiu as escadas. ​— Maninho, sua esposa está um pouquinho estranha, não acha? — Carmem comentou, entrando na cozinha. ​— É o cansaço, Carmem. Com licença, vou me deitar também. ​Lá embaixo, Nico finalmente saiu do escritório. Subiu as escadas em silêncio e foi até o quarto de Emili. Abriu a porta devagar e caminhou até a cama, depositando um beijo carinhoso na testa da neta. ​— Vovô... você veio — ela sussurrou, ainda entre o sono e a vigília. ​— Claro, minha pequena. Fui até o cinema, mas você não estava lá. ​— É... minha mãe não me deixou ficar lá esperando você. ​— Tudo bem. Amanhã, depois que você chegar da escola, nós assistimos ao filme, combinado? — Ele estendeu o dedinho e ela entrelaçou o dela no dele. — Agora durma, pequena. ​— Você pode dormir comigo, vovô? ​— Dormir não... mas posso ficar um pouquinho aqui com você. ​— Tudo bem... ​Nico sentou-se na beira da cama e colocou um travesseiro em seu colo. Emili apoiou a cabecinha ali enquanto ele começava um cafuné suave. O tempo passou e, embalado pelo silêncio do quarto, o grande patriarca Nico acabou adormecendo ali mesmo, cuidando do seu bem mais precioso.
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