>> Maya >>
Acordei com o som do meu despertador tocando, o som que eu costumava ouvir sempre parecia mais alto do que qualquer outro dia, eu me sentei na cama com um pouco de dificuldade, a minha cabeça girava, fazendo com que tudo o que queira é voltar para cama e aproveitar o resto do dia deitada.
Mas não poderia me dar o luxo, ou trabalhava para pagar tudo ou minha vó me colocava para fora a base de vassouradas, respirei fundo e me levantei da cama indo direto para o guarda roupa. Um pequeno incômodo me atingiu, dado a noite de prazer que eu tive ontem, me fazendo sorrir e morder os lábios com a lembrança daquela boca em mim.
Durante oito anos eu lutei contra Fábio e a terrível obsessão que ele tinha pelo meu corpo, ouvindo todas as noites os gemidos de minha mãe que mais pareciam ser de dor do que de prazer, e isso fez com que a idéia de que sexo só poderia ser algo dolorido, por que para mim ,de fato, era.
Quando consegui sair de casa, mesmo sem a autorização de Fábio, e vim para o morro do JP, eu sabia que as consequências caso um dia eu me desse de frente com ele seria grande. Mas tudo parecia melhor do que continuar vivendo naquelas circunstâncias.
Balancei a cabeça para afastar os pensamentos de uma vida que já não me pertencia e prestei atenção nas roupas a minha frente, optei por um short jeans lavagem escura, uma regata soltinha branca e peguei o creme de cabelo, porque hoje eu usaria ele cacheado.
— Para onde você foi ontem a noite? — Foi a primeira coisa que a minha vó perguntou assim que eu sair do quarto, seu semblante estava fechado como sempre e seu olhar um pouco intimidador.
— Fui para o baile com a Carla — Respondi, ouvindo a mesma resmungar "é uma vagabunda igual a mãe" fazendo com que eu engolisse em seco e desse um sorriso sem mostrar os dentes — Vou tomar banho e ir para o trabalho.
Ela só assentiu, me dirigi até o banheiro e tomei um banho frio, com a esperança que toda a ressaca saísse do meu corpo e trouxesse toda a disposição que eu normalmente tinha ao acordar. Vesti a minha roupa, fiz a fitagem no cabelo e depois uma make básica, só para esconder a minha careta de ressaca que não me largou nem depois do banho.
Não dei tempo para minha vó falar mais alguma coisa quando sair do banheiro, apenas joguei a roupa suja na minha cama e pedi a benção antes de sair de casa, tomei um susto quando encontrei larga parada na porta com a maior cara cínica que eu já vi.
— Na minha defesa, eu te procurei depois que percebi a merda que eu estava fazendo, mas não te achei. — Ela falou de uma vez só, sem dar uma pausa entre as palavras e eu rir.
— Relaxa, tá de boa — Falei enquanto trancava a porta, a mesma estreitou os olhos, me encarou como se estivesse desconfiada de algo, e quando eu dei um sorriso sem graça ela arregalou um pouco os olhos.
— Você transou, não foi? Senhorita "Eu não pego ninguém" — Ela perguntou quase gritando, me fazendo colocar o dedo na boca para que ela ficasse quieta.
— Droga, Carla. Minha vó já parece tá procurando motivo para me expulsar, com você falando assim daqui a pouco ela pensa que eu tô fazendo programa — A mesma riu e eu olhei para ela com a sobrancelha erguida. A morena de cabelo rosa pressionou os lábios entre eles e passou os dedos pela boca como se estivesse fechando um zíper.
— Mas me diz, quem foi e como foi? — Ela disse, entrelaçando nossos braços e me puxando em direção ao bar do falecido Ricardo, mas que agora estava na mão do filho.
— Lembra do PK que eu perguntei? Então… — A mesma abriu a boca em um O nada discreto, fazendo com que eu desse um riso discreto.
— Mas é uma safadinha mesmo hein. — Eu revirei os olhos do olhar de descrença que a mesma estava me lançando e voltamos a caminhar morro acima.
Fomos o caminho todo conversando animadamente sobre vários assuntos, mas quando um homem com uma rosa tatuada no pescoço e o cabelo castanho um pouco grande colocou o braço em volta do pescoço da minha amiga, eu parei de falar e comecei a prestar atenção nos dois.
— Bom dia gatinha! — Ele falou com sorriso fazendo a mesma revirar os olhos e um sorriso bobo se formou nos meus lábios, não aconteceu nada demais, mas eu já estava shippando os dois.
— Só se for pra você — Ela desvia o olhar dele para mim, com um sorriso maroto ao perceber que eu encarava a tatuagem dele.
— Vão sair? — Ele perguntou olhando para a mesma e depois para mim, fazendo a Carla tirar o braço dele do pescoço dela.
— Trabalhar, essa é minha amiga, mas eu acho que eu não tenho que apresentar vocês dois depois de ontem, não é? — Ela voltou a olhar para ele, mas dessa vez com um sorriso malicioso, ele franziu a testa em confusão encarando a mesma e eu tive a mesma reação que ele.
— Satisfação… — Ele estendeu a mão para um aperto enquanto me encarava como se esperasse que eu dissesse o meu nome e eu continuei olhando para a minha amiga por um tempo antes de apertar a mão dele
— Maya — Disse com um sorriso, ele apertou a minha mão um pouco mais forte antes de me largar.
— A famosa ladra de marmita? — Perguntou rindo, eu odiava esse apelido, mas a Carla foi mais rápida do que eu ao responder ele.
— Por que você não vai ver se a gente tá na esquina, antes que eu dê um murro na sua fuça? — Perguntou com os braços cruzados fazendo o moleque rir e bater continência antes de ir em direção a alguns vapores.
— Quem era? — Perguntei rindo ao subir os degraus do bar onde trabalhávamos e ela me olhou confusa. — Bom dia, seu Paulo.
Cumprimentei o dono do bar que apenas acenou com a mão para mim e para a Carla que acenou de volta para ele, dei a volta no balcão e peguei os aventais com o slogan do bar, entregando um a minha amiga que me olhava com o cenho franzido.
— Ué, não reconhece ele? — Eu franzi a testa e fiz que não com a cabeça em resposta, fazendo com que a minha amiga ficasse tão confusa quando eu. — Ele é o PK, Maya, de ontem…
— Para de graça! — Ordenei rindo, mas quando ela continuou me olhando séria o meu sorriso foi se fechando aos poucos, eu pisquei algumas vezes tentando raciocinar em como tudo foi parar naquela confusão — Se aquele é o PK, quem é o cara que eu fiquei ontem a noite?
Nós nos entreolhamos e eu senti um nó se formando em minha garganta quando ela me olhou como se não tivesse a mínima idéia do que eu estava falando, eu havia dormido com um homem que eu não sabia nem o nome e dormir com ele só por que eu pensava que a minha amiga o conhecia… e nenhuma das possibilidades de quem ele poderia ser me agradava.
Eu apenas respirei fundo enquanto ela me encarava sem saber o que dizer, esperando que eu surtasse a qualquer momento, porque ela sabia que esse tipo de coisa não era do meu feitio.
— Vamos trabalhar — Foi tudo o que eu falei, fazendo com que a mesma me olhasse por alguns segundos antes de assentir com a cabeça.
Eu fiquei no balcão como sempre ficava, e Carla servindo as mesas, minha cabeça não parava de viajar na noite de ontem, aquelas mãos firmes, a boca carnuda que degustava cada parte do meu corpo como se fosse a sua refeição preferida…
— Pensando em mim? — Luka se jogou em minha frente, me fazendo tomar um susto e olhar para ele que estava com um sorriso de orelha a orelha.
— Claro! Até porque você não sai dos meus pensamentos — Disse com ironia e revirei os olhos quando ele colocou sua expressão de convencido no rosto.
— Obrigado! Obrigado! Eu sei que sou inesquecível — Ele diz como se fosse o último biscoito do pacote e eu dou risada negando com a cabeça.
— Onde você estava no baile ontem? — Perguntei, curiosa, começando a fazer as contas da mesa três.
— O JP me mandou ficar na ronda, esse velho não quer admitir que já tá fazendo hora extra e fica dando trabalho ao zoto — O mesmo diz me fazendo rir e eu mordo os lábios olhando para o mesmo — Vamo tomar sorvete depois?
— Não posso, vou fazer faxina quando sair do trabalho — Dei com os ombros entregando a conta para a Carla, que fez uma careta quando viu o valor.
— Por que você não diz logo que nunca ficaria com ele e acaba de uma vez com a esperança sem cabimento do meu irmão? — Ela perguntou como se fosse o óbvio,e fazendo tossir ao engasgar com a minha própria saliva e eu dei risada quando ela mandou beijo para o mesmo que estava com o dedo do meio erguido para ela.
— Ainda não acredito que essa praga é minha irmã, se não fosse, já teria arrombado a testa dela — Eu dou uma gargalhada da careta do mesmo ao olhar para a irmã e ele suspirou se levantando. — Vou pra boca, se precisar grita que eu venho correndo.
— Tá bom, Super homem. — Falei um pouco sarcástica e ele deu risada, lançou uma piscadela na minha direção e eu continuei fazendo o meu trabalho.
Eu nem conseguia reunir palavras para agradecer a Deus e ao universo por estar vivendo em paz, comparado ao que eu vivia no complexo da maré aqui era, de fato, um paraíso.
O resto da tarde passou de uma forma monótona, homens bêbados, esposas exaltadas por pegarem seus maridos com outras, vapores e suas pães sentados bebendo, fumando e conversando…
Até que a presença de alguém me chamou atenção, Sabrina entrou no bar como se fosse um soldado marchando, ela não era do morro, mas vinha aqui em todos os bailes, e segundo a Carla, antes do Coringa ser preso ela vinha aqui todos os dias e ficava parecendo aqueles macaquinhos que quando a gente era pequeno ficava pendurado no nosso pescoço.
O olhar da branquela, magra e de cabelo cacheado percorreu por todo o bar. Eu continuei a encarando por um tempo e quando ela percebeu que estava tendo telespectadores, apenas ajeitou a postura e empinou o nariz com a sua típica imagem de menina do asfalto.
— Oi, Maya! — Meu nome saiu da sua boca como se fosse algo sujo, fazendo com que eu respirasse fundo e olhasse para ela.
— Deseja alguma coisa, madame? — Perguntei em um tom de ironia e um sorriso falso no rosto, não tinha motivo para que ela me tratasse como trata, mas eu tinha o direito de não gostar disso.
— Você não viu o Coringa por aí, viu? — Perguntou com os olhos franzidos e eu tive que me conter para não rir.
— Quem deveria saber onde ele tá é você, não? — Perguntei com um certo humor ácido na voz, mas ela só arqueou a sobrancelha como se esperasse a resposta correta — Ainda não tive o desgosto.
— Ótimo! — Ela colocou as mãos na mesa e me encarou por um tempo — Eu quero uma vitamina de morango com três gotas de adoçante.
Eu tive que morder os lábios para não rir, mas quando o Seu Paulo sem querer soltou a risada, eu não consegui, acenei rindo e virando o quadril em direção a ele.
— O senhor ouviu? Vitamina de morango com 4 gotas de adoçante. — Falei com deboche e ele assentiu.
— 3 gotas — Me corrigiu olhando diretamente para o homem de meia idade e foi se sentar em uma das mesas.
Eu terminei tudo o que tinha que fazer e depois que a Sabrina foi embora as horas literalmente passaram voando, estávamos descendo para casa, conversando como sempre fazíamos e eu estava tão concentrada na conversa que não notei a pessoa que vinha na nossa direção e acabei me esbarrando.
— Desculpa! — Levantei a cabeça e arregalei os olhos quando vi o mesmo homem de ontem a noite, ele estava me encarando com aquela expressão de poucos amigos.
— Tá fazendo o que no meu morro? — A voz dele rouca e grave me fez estremecer, o mesmo continuava me olhando sério e com a mandíbula cerrada.
— Eu moro aqui… — Franzi a cenho — Você disse… Seu morro?
Meus olhos se arregalaram na mesma hora ao analisar mais uma vez as características dele, meu Deus, como eu posso ser tão lerda? Eu abrir a boca uma ou duas vezes sem saber o que responder, e fui surpreendida outra vez quando o mesmo tirou uma nota de cem reais do bolso e estendeu em minha direção.
— É o suficiente? Agora some da minha frente — Ele disse rígido, me fazendo rir incrédula e colocando o braço para impedir a Carla que estava prestes a avançar.
— Eu não quero o seu dinheiro, não sou as putas que você leva para cama. — Olhei para ele que colocou um sorriso malicioso nos lábios.
— Não foi o que pareceu ontem a noite — Ele disse olhando nos meus olhos de uma forma intimidadora, eu queria desviar o olhar, mas isso demonstraria que eu estava intimidada pela presença dele. Eu ouvi a Carla resmungar algo, mas não compreendi.
— A f**a de ontem foi tão m*l feita que eu nem lembrava até você falar — Eu percebi que ele tinha de ofendido quando o seu sorriso começou a vacilar — Mas não precisa me pagar para que eu mantenha a minha boca fechada, tudo o que eu não quero é está envolvida em alguma fofoca com você.
Eu não falei mais nada, apenas puxei a Carla o mais depressa possível para longe daquele marginal, eu sentir o ar que estava preso no meu pulmão ser solto e agradeci a Deus pela Carla não ter feito nenhuma piada sobre eu ter ido pra cama com o homem que eu jurei ser o maior i****a da terra.
Quando eu cheguei em casa a minha vó já estava dormindo, então eu aproveitei o momento para limpar a sala e todo o resto, lavar roupa e colocar a carne no tempero para cozinhar amanhã, tomei um banho frio e me joguei na cama, pensei um pouco sobre tudo o que aconteceu e acabei cochilando sem perceber.