Capítulo 2

2062 Words
Narrado por Larissa Martins A biblioteca da Universidade Sterling estava quase vazia quando eu finalmente tive tempo de ir estudar um pouco. Minha rotina é assim, trabalho e estudo, como eu pauso meu trabalho para estudar, acabo tendo mais trabalho depois pra fazer e quando vou terminar meu horário é quase 17:00/18:00 da noite e esse horário não tem quase ninguém na biblioteca. Esse era o lugar que eu mais gostava em toda a universidade, sempre gostei de ler e a biblioteca daqui é simplesmente linda, muito grande, tem várias pinturas antigas... Até os vidros das janelas são bonitos. Normalmente venho aqui para dar uma relaxada e ler um pouco, gosto do cheiro de livros, mas hoje eu estava um pouco ansiosa. Meus olhos lacrimejavam de cansaço e meus dados tamborilavam ao lado do livro aberto de tão nervosa que eu estou. Estou muito nervosa pois tenho um trabalho muito importante para a nota de administração tributária, estou no segundo período de administração e tenho essa disciplina, gosto muito do meu curso, mas essa disciplina realmente está me fazendo perder o juízo. Meu trabalho já deveria estar pronto, é um trabalho enorme e eu não entendo muito da disciplina, muita gente tá fazendo esse trabalho em dupla ou em trio como o professor autorizou, mas eu não tenho colegas na universidade e também não forço simpatia com ninguém, não sou burra, sei que não gostam de mim então não insisto, simplesmente faço meus trabalhos sozinha. --- Parece que alguém está com dificuldades. --- A voz repentina fez meu corpo pular tamanho o susto e meu coração dar um salto pela ansiedade. Antes mesmo de eu virar a cabeça para confirmar quem era o dono dela eu já a reconhecia, reconhecia aquele tom suave e arrogante de quem sabia que o mundo era seu. Rico estava inclinado sobre a cadeira ao meu lado com um sorriso desprentecioso nos lábios. Desta vez ele vestia uma blusa branca com as mangas cuidadosamente arregaçadas que revelavam um relógio que provavelmente valia mais do que a minha vida, seu cabelo estava penteado para trás o deixando com um ar de sério e sexy. --- O que você quer? --- Não consegui me segurar as palavras simplesmente pularam da minha boca, fechei o livro com uma força desnecessária que nem eu mesma entendia o motivo de tê-la usado. Rico poderia até mesmo estar me dirigindo a palavra, mas não deixava de ser meu chefe querendo ou não, e era só uma palavra dele que eu perdia tudo, meu emprego e minha bolsa. Minha mente tava um turbilhão, imaginando vários cenários negativos com a minha atitude arrogante, por assim dizer, mas diferente do que a minha mente traiçoeira me alertava Rico apenas deu uma risada baixa e curta como se a minha desconfiança, a minha reação, o meu desconforto, fosse algo engraçado. --- Só tava passando por aqui e vi você lutando contra esse livro. --- Ele respondeu enquanto seus olhos percorriam minhas anotações bagunçadas, tava tudo uma confusão, eu não tava entendendo nada. --- Paulo de Barros Carvalho pode ser um pouco... Complicado para quem não está acostumado ou tem dificuldades com o assunto. --- Franzi minha testa me perguntando como ele sabia o nome do autor se eu tava com o livro aberto e não gostei do tom de voz que ele usou para falar aquilo como se fosse super inteligente e eu fosse incapaz de entender algo tão básico. --- Eu consigo me virar sozinha senhor. --- O respondi e o sorriso que estava no canto dos lábios dele sumiu quando eu o chamei de senhor. --- É claro que consegue Larissa, não duvido disso. --- Rico puxou a cadeira e se sentou do meu lado, podia jurar que a cadeira estava mais próxima do que deveria. --- Mas e se eu te disse que eu tirei nota máxima nessa disciplina quando eu paguei ela? --- Novamente o sorriso presunçoso estava de volta ao rosto dele. Eu estava dividida, eu realmente precisava muito manter minhas notas altas pela bolsa, precisava muito entregar aquele trabalho e realmente tava com muita dificuldade naquela disciplina pra fazer sozinha, mas eu acabei hesitando, havia algo na oferta dele que me deixava inquieta ou melhor, tudo nele me deixava assim. --- Por que o senhor me ajudaria? Porque o senhor faria isso por mim? --- Rico encostou-se para atrás e me estudou com um olhar que eu não conseguia descifrar, tudo nele parecia um mistério, mistério esse que eu não conseguia desvendar. --- Já disse pra parar de me chamar de senhor Larissa. --- Seu tom saiu um pouco autoritário, nada muito alarmante. Era normal pessoas como o Ricardo serem assim, não são acostumados a ouvir um não ou serem contrariadas, sempre acham que estão certas e que sua palavra é lei. --- Enfim, talvez eu só queria ajudar você. ---- Fez uma pausa calculada. --- Ou talvez eu queria ver se você é tão inteligente quanto parece. --- O tom de voz dele, o desafio naquela frase, poderia até mesmo ser impressão minha, mas eu juro que vi até mesmo seu queixo se erguer um pouco. --- Eu não preciso provar nada pra você Rico. --- --- Não? --- Seu tom de voz saiu debochado, ele inclinou-se para frente novamente e eu percebi, não sabia o porquê dei atenção a algo tão i****a, mas eu havia percebido que nossos joelhos quase se tocaram. --- Então é só recusar minha ajuda Larissa, vá em frente, recuse. --- Meus dedos apertaram a caneta. Eu sabia que aquilo era uma armadilha, era difícil imaginar aquele homem querendo algo comigo, eu não sabia o que era e o porquê, mas eu sabia que ele queria. Aquilo tudo era uma armadilha, mas o mais importante naquele momento era eu passar na disciplina de administração tributária. --- Certo Rico, me ajude por favor, mas é só isso, só isso mesmo. --- O sorriso no rosto dele se largou, um sorriso vitorioso, um sorriso satisfeito. --- Excelente escolha Larissa. --- O tempo foi passando e pra minha surpresa, Ricardo realmente me ajudou. Sempre achei que os filhinhos de papai sempre eram burros pois tinham tudo na mão e não precisavam estudar, mas eu me enganei muito com ele. Ricardo me explicou conceitos, me sugeriu algumas citações do livro e de mais alguns do mesmo autor. Sua voz era robótica, calma e precisa, enquanto me explicava, completamente diferente do tom arrogante que ele costuma falar. Acho que aquilo era o mais próximo que ele conseguia chegar de ser gentil. --- Você está prestando atenção? --- Ele perguntou tocando meu pulso levemente pra chamar minha atenção, eu não havia percebido mas nossos rostos estavam tão próximos que eu consegui sentir o hálito quente dele. --- Estou. --- Desviei o olhar tentando ignorar o calor que estava subia por todo o meu corpo. Quando terminamos já era tarde da noite, fiquei surpresa com o Ricardo, a forma que ele me ajudou, ter ficado até tarde fazendo o trabalho comigo, não esperava por isso. A biblioteca já estava deserta, essa hora já deveria estar fechada há muito tempo, mas tenho certeza que não fecharam por ele, quem expulsaria o herdeiro da faculdade de algum cômodo dela? Só um louco. Fechei meu caderno e arrumei minhas coisas aliviada sentindo que havia vencido mais uma etapa. --- Obrigada Rico, de verdade mesmo. --- Meu agradecimento havia saído mais baixo do que eu pretendia. Ele não falou nada de imediato, ficou me olhando com aquele olhar que eu não conseguia desvendar, mas que parecia me ler por inteira, que parecia me despir. --- Você é diferente do que eu esperava. --- A frase que ele usou me deixou curiosa. --- E o que você esperava? --- Não consegui conter, dessa vez quem deu um sorriso foi eu, mas não um sorriso soberbo mas sim vergonhoso, estava curiosa pela sua resposta mas ainda muito envergonhada. --- Alguém... Mais frágil talvez. --- Acabei rindo, achando graça da expressão dele. --- Pobre não é sinônimo de fragilidade Ricardo, muito pelo contrário. --- --- Eu sei. --- Ele respondeu simples. Por um instante, acabei vendo algo por trás daqueles olhos, algo que me fez baixar a guarda por um segundo e aparentemente era isso que Rico estava esperando, era o suficiente. Ele se moveu tão rápido que eu só vim perceber quando sua mão já estava enlaçada na minha cintura me segurando com firmeza, enquanto sua outra mão tocava o meu rosto. Meu corpo congelou quando ele se inclinou ainda mais sobre mim e seus lábios ficaram centímetros dos meus. --- Você é fascinante. --- Ele sussurrou e seu hálito quente contra a minha boca me fez tremer. Pude ver seus olhos azuis brilhando rapidamente enquanto me encarando mas não era um brilho puro, era diferente. Por um momento, um momento de loucura e fragilidade quase que eu cedi, eu disse quase. Meu instinto foi mais forte, meu medo foi mais forte e eu o empurrei com força e me levantei rapidamente me afastando da mesa com o coração batendo forte e minha garganta seca. --- Não faça isso de novo. --- Minha voz saiu trêmula mas alta o suficiente pra ele ouvir. Pra minha surpresa Rico não parecia irritado, na verdade ele parecia... Divertido, como se eu fosse algo intrigante, mas também algo bobo que ele saberia lidar, aquele jeito soberbo dele estava lá. --- Como você quiser Larissa. --- Ele se levantou, ajustando a camisa como se nada tivesse acontecido. --- Mas isso não vai mudar o fato de que você também queria. --- Não respondi nada, apenas fiquei o olhando, não sabia o que responder. --- Vamos, irei te deixar em casa. --- Meus olhos arregalaram com o que ele havia acabado de falar e minha cabeça logo começou a fazer sinal de negação, nem morta que eu ia entrar num carro com ele. --- Não precisa, eu... Eu vou de ônibus. --- Acabei gaguejando mais do que queria, o sorriso de Ricardo logo sumiu novamente. --- Está muito tarde, não vou deixar você voltar sozinha pra casa. --- --- Não precisa, eu... Eu posso... --- --- Não irei falar novamente Larissa, vamos, irei te deixar em casa. --- Percebi que discutir com Ricardo não ia dar em nada, ele ainda era meu chefe, querendo ou não e havia me ajudado com o trabalho. Sem falar que sou tom, não abria brechas para argumentos, engoli em seco e apenas assenti com a cabeça. No estacione tinha pouquíssimos carros naquela hora da noite, os que tinham acho que eram dos funcionários que trabalhavam como segurança na parte da noite, mas havia um que se destacava de todos. Um carro preto, de luxo, baixo, eu não entendia de carros, mas sabia que aquele carro era um carro esportivo, desses de luxo bem caros. Ele destravou o carro e num gesto automático, abriu a porta para mim. --- Pode entrar. --- Falou educado dando a volta no carro e assumindo o lado do motorista. Entrei no carro, ele tinha cheiro de couro novo e algo amadeirado, o perfume dele impregnado no interior do carro. Ajustei minha bolsa no colo e coloquei o cinto de segurança. --- Você mora muito longe da universidade? --- ele perguntou enquanto o carro deslizava pelo estacionamento. --- De carro não fica muito longe, moro num bairro estudantil, algumas quadras depois do centro. --- Respondi e vi ele apenas assentindo. Quando o carro finalmente parou em frente ao meu prédio, senti meu rosto esquentar. Normalmente eu não sentia vergonha por ser pobre, era a minha realidade, não tinha nada o que fazer a respeito. Mas naquele momento, olhando para o meu prédio velho, estreito, grades enferrujadas e a tinta descansando... O contraste com o carro dele, era quase c***l. --- É aqui. --- Falei rápido demais, abrindo a bolsa pra pegar minha chaves, escutei a porta ao lado do Ricardo abrir, acho que ele ia abrir a porta pra mim mas eu não ia esperar por isso. --- Obrigada pela carona e por ter me ajudado com o trabalho. Muito obrigada Rico. --- Respondi de forma rápida e saí do carro sem olhar para trás. Eu sabia, sabia que aquele homem era um perigo e que eu ia acabar me afundando, lutar não ia adiantar de nada. Mas ele me chamava, eu estava enfeitiçada.
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