- O nascimento de uma flor:

1564 Words
Nasci em um dia quente de primavera, as flores das grandes arvores de Saumi haviam acabado de desabrochar, pequenas e delicadas flores cor de rosa, que deixavam aos poucos suas lindas pétalas se espalharem pelo chão, seguindo o fluxo do vento, a sutil brisa primaveril, deixando os caminhos de nossa residência em uma tonalidade quase unânime de rosa que se misturava com o marrom do solo. A casa onde cresci é enorme, cercada por altos muros que protegem todos os oito membros da família principal dos perigos exteriores, como ladrões e assassinos, os quais as vezes arriscavam-se neste ato de entrar, sendo parados ainda nos muros pelos inúmeros guardas que faziam a segurança do local. Porém apesar disso pelo seu território ser grande, para uma pequena criança como eu era não haviam muitos problemas referentes à isolação, já que explorar era uma das minhas diversões preferidas. Ao redor da casa ainda existiam lindos jardins e pomares extensos, que decoravam-na, tendo uma entrada rodeada daquelas árvores e arbustos, deixando um clima agradável e convidativo; além de claro as belas e cumpridas arvores de Saumi, que ultrapassavam os muros com seus imensos galhos floridos; talvez seja por essa quantidade de árvores e flores que o clã de nossa família é chamado de Huā que se refere às flores, ou talvez seja por isso que tenhamos tantas delas. Outra curiosidade sobre as flores rosas de Saumi e essa cor é que ela está ligada aos corpos das mulheres membras da grande família Huā pois todas possuem lindos e compridos cabelos cor de rosa, alguns mais claros outros mais escuros, mas todos ligados à cor rosa de Saumi. Mas retornando ao dia de meu nascimento o qual não foi muito bem recebido afinal mesmo sendo um menino nasci possuidor dos cabelos rosados de nossa família, uma tonalidade de rosa comum um pouco clara assim como nossas flores, e só isso já foi o motivo suficiente para gerar um grande escândalo, pois o que veio acontecer era algo raro e novo, jamais em nenhuma parte de nossa linhagem algo assim havia acontecido. E aquilo que as pessoas não entendem elas temem...Fui taxado como esquisito, diferente, horrível, como algo o qual nem deveria existir, minha mãe e meu pai foram jogados contra a parede pelos demais familiares, mas no fim os motivos de eu ser assim se permanecem um mistério. Envergonhado por minha existência e visando proteger a honra de nossa família em meu terceiro dia de vida meu pai ordenou para que um de seus homens cortasse-me a cabeça, porém grassas a minha mãe que intercedeu por mim minha cabeça não rolou sobre o tecido das pétalas, cujo a cor tingia meus cabelos. Desde então cresci sozinho, proibido de interagir com minhas irmãs ou minha mãe, fadado a longos treinos com meu rígido e bruto pai e a ser ridicularizado e comparado aos meus irmãos diariamente, de alguma forma ele pensava que aquilo me tornaria mais másculo, que me concertaria. Até que eu gostava dos treinos, sendo um dos únicos momentos os quais eu não estava sozinho; achava interessante a ideia de usar meus poderes que ainda floresceriam, para curar e salvar pessoas, especialidade de nossa família. Mas com toda essa comparação e comentários maldosos aos poucos o que era divertido começava a se tornar maçante, tanto que eu não via a hora das longas seções de treino acabarem. Queria fugir dos olhos frios de meu pai, correr e me esconder no colo de uma mãe assim como as demais crianças faziam quando assustadas, porém não podia, para minha família eu era um ser sem salvação, estranho e falho por natureza. ..................................... Com cinco anos de idade em uma das fugas as quais se tornavam cada vez mais frequentes, acabei me aventurando um pouco mais pela propriedade, ninguém se importava comigo então raramente alguém vinha atrás de mim, o que me fazia entrar em todos os tipos de confusões, mas era ainda sim divertido explorar a casa, sendo minha descoberta do dia um salão nos jardins dos fundos, era algo novo, como um tesouro escondido, e de dentro dele vinham sons dançantes, porém delicados, a inconfundível melodia do exaltar feminino. Era raro se ouvir música na parte que eu ficava com meu pai, o que atiçava ainda mais minha curiosidade. Dentro dele minha mãe junto de minhas três irmãs mais velhas dançavam lentamente com seus leques e tecidos exuberantes, o que parecia ser a preparação para algum tipo ritual se é que eu sabia o que era aquilo, seus vestidos longos e ornamentos dourados os quais realçavam as cores de seus cabelos cumpridos deixavam-nas ainda mais atraentes, e em seus rostos reinava uma maquiagem bela e volumosa o que indicava que uma grande comemoração realmente estava por vir. Ao olhar para o meu pequeno corpo magro e assimila-lo com minhas irmãs, pude notar finalmente a cor bela de meus próprios cabelos, que na época não eram lá muito cumpridos, mas ainda sim se pareciam com os delas, foi quando eu me encontrei, realmente acreditei que eu era uma garota assim como elas que em minha frente dançavam. Lembro-me de perguntar a mim mesmo “como eu não percebi antes? Eu não deveria estar treinando com o papai e sim dançando com a mamãe”; foi o esclarecimento que faltava, eles apenas me odiavam por eu estar do lado errado, não era culpa minha que eu não havia conseguido ser másculo como eles, nem acompanhar os treinamentos ou participar das comemorações, eu tinha certeza de que era isto. Então completamente movido pela esperança me agarrei a aquele momento, passando assim imita-las em um cantinho bem escondidinho do salão; era divertido, mesmo que desengonçado e ainda amador minha dança vinha do coração e estava incrível! Ao menos em minha percepção, era quase como se eu flutuasse, sentia a adrenalina subindo pelos dedinhos dos meus pés e explodindo em minha cabeça, eu saltava para os lados graciosamente, girava e tentava fazer aqueles movimentos estranhos com as mãos, imaginando os tecidos coloridos e deslumbrantes, como se eu estivesse mesmo junto com elas. Porém em um salto descuidado acabo me esborrachando no chão, uma das minhas irmãs me viu e começou a gritar enquanto apontava para mim. - Mãe! Tem uma criança aqui!! E ela está nos imitando. - Coloca as mãos na cintura emburrada. - O que é ele? Tem cabelos como os nossos. - Diz outra garota no ouvido da maior a qual me olha com curiosidade e surpresa. - É um menino? - Pergunta olhando-me com um pequeno e angelical sorriso. - Oi... - Respondo tímido - meu nome é Li Huā. - Aceno para ela me levantando do chão. - Oi. - Responde de volta rindo. - Meninas! Não falem com ele, não deveria estar aqui. As segura, afastando-as de mim como se eu fosse uma espécie de ameaça. - Saia já daqui Li Huā, aqui não é lugar para um garoto estar, vamos saia! - Apontava grosseiramente seu dedo indicando a saída com um olhar enfurecido o qual eu não conseguia entender. - Mas eu quero dançar com vocês também mamãe, quero ficar com você, o papai sempre briga comigo...Ele bate em mim todos os dias, e meus irmãos não se parecem em nada comigo. - Digo aos prantos segurando em seu vestido, enquanto vejo de relance as duas garotas mais novas cochichando uma para outra. - Ele é mesmo um menino. - Diz agarrando a outra. - Mas o cabelo dele é parecido com o nosso, não é estranho? - É um Yokai! - Grita assustando a outra. - Ai que medo. - Você tem que entender querido que mesmo que queira ficar comigo, não pode, é um garoto e logo se tornará um homem assim como seu pai e seus irmãos - Puxa a parte do vestido o qual eu estava segurando com força me fazendo cair no chão. - É o melhor para você. - Eu não gosto do treino! Grito desesperado enquanto me debatia no chão na tentativa de fazer birra, o que claramente foi em vão, pois logo não me ouviu e me pós para fora a força enquanto minhas irmãs observavam intrigadas, afinal sequer sabiam de minha existência até agora. Porém apesar de eu não ter sido recebido da maneira a qual esperava desde então comecei a visitar o salão as escondidas, e imita-las dançar mesmo sem saber para que aquela dança servia, sem ao menos receber um elogio, para mim só aquilo bastava. Todos os dias sem exceção eu cruzava nossa propriedade até chegar ao salão, queria observar minha mãe e minhas irmãs e me sentir uma delas, queria ser a filha a qual receberia aquele carinho e afeto, a filha a qual todos se orgulhariam provavelmente um dos desejos mais egoístas que eu já tive, mas se naquele tempo eu soubesse o quão difícil seria esse caminho o qual eu comecei a traçar, me pergunto se eu já não teria desistido desse sonho sem fundamentos, um pequeno sonho de criança. "As flores de Saumi florescem sempre ao amanhecer, assim como a pequena garota um dia irá crescer... Desejando um destino o qual ninguém sabe o final, o irreal pode sim se tornar real? Um pequeno botão atrasado em plena primavera, que luta para se abrir, tão ingênua e doce uma florsinha rara em meio às velhas podres pétalas a cair".
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