Sou Lara Alencar, tenho 20 anos, 1,55 de altura, Meus traços são um mistério, Enquanto meus pais têm a pele morena e cabelos escuros cacheados, eu sou clara, com cabelos escuros que contrastam com meus olhos claros. Minha mãe sempre dizia que herdei esses detalhes dos meus avós, mas eu nunca parei pra pensar muito nisso, para mim, isso é apenas um detalhe.
Sou calma, até certo ponto. Mas quando o assunto se trata da minha irmã Clara, que hoje tem dez anos, eu me transformo em uma verdadeira leoa. Clara é cheia de vida, super carinhosa e uma menina super esperta mesmo com tudo que nos aconteceu.
Minha mãe sempre foi uma mulher amorosa e gentil, um verdadeiro exemplo de força. No entanto, por mais que ela se esforçasse para agradar meu pai, ele sempre encontrava um motivo para descontar suas frustrações em cima dela. Não consigo entender o que o leva, ele sentir prazer em humilhá-la, é como se ele tivesse punido ela de algo pelo qual nunca entendi.
A violência do meu pai vai além da física, é emocional também. A única liberdade que conheço é ir à escola, e é triste perceber que o que deveria ser natural para mim, minha irmã e minha mãe está tão distante de acontecer.
Na escola, tento focar nos estudos, Tenho uma amiga, a Mariana, filha do dono do morro, porém tem um tempo que ela não frequenta a escola, Sinto falta das conversas despreocupadas e das risadas que compartilhávamos.
Dentro de casa, a vida é sufocante e as paredes parecem se fechar cada vez mais. Às vezes, me pergunto se conseguiremos escapar dessa realidade ou se sempre seremos prisioneiras.
Enquanto isso, minha mãe luta para manter a esperança viva. Ela me ensina a ser forte e a não deixar que as ações do meu pai definam quem somos. Em alguns momentos ela compartilha seus sonhos de um futuro melhor — Um futuro onde possamos viver sem medo.
Esses momentos preciosos me dão forças para enfrentar cada dia. Eu sonho com o dia em que poderemos sair juntas, sem olhar para trás, finalmente livres dessa dor.
Nos últimos cinco anos, minha vida virou de pernas para o ar. Naquele dia, antes de sair para a escola, minha mãe teve mais uma daquelas discussões com meu pai. Ela me abraçou forte, sussurrando o quanto me amava, e fez o mesmo com a Clarinha. Fui para a escola com o coração pesado, mas na esperança de que tudo se resolveria.
Quando voltei, encontrei a casa revirada e um silêncio ensurdecedor. Minha mãe não estava. Senti um frio na barriga e rapidamente preparei uma refeição simples para mim e para a Clarinha, tentando manter a normalidade enquanto as horas passavam.
Finalmente, meu pai chegou, mäl-humorado como sempre. Olhou para mim e para a Clara com um olhar que eu não conseguia decifrar e disparou: — A mãe de vocês meteu o pé e agora somos só nós três.
Naquele instante, meu mundo desmoronou. — Como assim minha mãe foi embora assim do nada? A pergunta escapuliu da minha boca antes que eu pudesse pensar: — Mas pai, pra onde?
Ele respondeu com frieza: — Sem perguntas, Lara. Ela juntou as coisas dela e foi embora.
As palavras dele ecoaram na minha mente como um golpe c***l. A dor da ausência da minha mãe se instalou no meu peito, um vazio que eu nunca imaginei sentir. O que fazer agora? Como seguir em frente sem ela?
Me perguntava dia e noite o porquê de tudo aquilo. A Clarinha chorava, clamando pela mamãe, enquanto eu, uma adolescente assustada, tentava segurar a barra sozinha. Era como se o peso do mundo estivesse sobre meus ombros. Meu pai, gerente do tráfico, moramos no pé do morro, seus esquemas aconteciam lá em cima, em um mundo que eu nunca conheci.
Nunca fui a bailes ou pagodes, minha vida se resumia a ir da escola para casa e vice-versa. Nem mesmo para a igreja eu ia. E assim sigo até hoje, sendo o porto seguro da minha irmã em meio ao caos.
Desde que minha mãe foi embora, meu pai se transformou. Ele não era mais o homem que conhecia, cada dia parecia pior, sempre aparece com uma mulher diferente.
Ele alugou um barraco duas casas adiante para levar as marmitas, pelo menos é um jeito de respeitar a casa onde vivemos.
Eu observava tudo isso com um misto de raiva e tristeza. O que aconteceu com nossa família? A Clarinha precisava de amor e estabilidade, e eu tentava ser essa figura para ela, mas como uma adolescente poderia carregar tanto? Cada lágrima da minha irmã era um lembrete doloroso da ausência da nossa mãe e do desmoronamento da nossa vida.
Naquele momento, eu percebi que minha missão era não apenas ser a irmã mais velha, mas também ser sua defensora e amiga.
O amor que sinto por ela é imenso. Às vezes me pego pensando em como posso ser um bom exemplo para Clara, quero que ela cresça sabendo que pode ser quem quiser, sem medo de ser feliz.
Falar em pai ele ultimamente anda muito estranho é uns caras estranhos vindo aqui conversar com ele quando o telefone toca e sai se esconde pra falar é como se ele tivesse aprontando hoje tem baile e ele resolveu ir porém mandou fechar a porta e disse que não voltaria hoje.
Cinco anos se passaram sem que eu soubesse nada sobre minha mãe. O que poderia ter levado uma mulher a abandonar suas filhas, deixando uma de quinze anos e outra de apenas cinco, sem sequer olhar para trás? A dor dessa ausência se tornou parte da minha rotina.
Hoje, finalmente terminei meus estudos e estou fazendo cursos enquanto a Clarinha está na escola. não tenho namorado parece até mentira uma mulher com vinte anos solteira mas é a realidade com o pai que eu tenho.
Falando nele, meu pai tem agido de forma cada vez mais suspeita. Estranhos vêm aqui conversar com ele, e sempre que o telefone toca, ele se esconde para atender. É como se estivesse aprontando algo. Hoje à noite, ele decidiu ir a um baile, mas não sem antes mandar fechar a porta e avisar que não voltaria.
Aproveitei a noite com minha princesa. Era por volta das 08:00 da manhã quando fui acordada por um barulho insistente no portão. Enquanto tentava organizar meu cabelo revolto, fui até a porta.
— Pois não? — Perguntei assim que abri.
Um rapaz que eu não conhecia estava ali, com um semblante sério.
— O Guto tá aí? — Ele perguntou.
— Não, moço. Ele saiu ontem pro baile e não voltou.
— Beleza. — Ele respondeu de forma rápida e virou-se para ir embora.
Fiquei ali na porta, sentindo um frio na barriga. Quem era esse rapaz? O que meu pai andava aprontando? A inquietação crescia dentro de mim enquanto eu fechava a porta lentamente.