Dois dias se passaram e nada do Guto. Mano, isso tá me tirando do sério. É como se a terra tivesse tragado ele. Ninguém tem notícias, só sabemos que ele saiu para o baile dizendo que não voltava pra casa naquela noite. O pior é que ele deixou tudo pendente, sem dar satisfação a ninguém. As obrigações dele ficaram jogadas pra escanteio, e eu não gosto disso. Coloquei o Beto pra fazer o que ele sempre fazia, o que aliviou a pressão. Sem contar no moleque que desapareceu, até agora não temos nenhuma notícia, isso tá mexendo com meu cabeção tá ligado? Sinto um peso gigante nos meus ombros.
A cada minuto que passa, a preocupação cresce. O Guto, sempre foi explosivo, mas nunca foi de se meter em encrenca, Após um tempo deitado na minha cama, desperto com o toque do meu telefone. Era o investigador.
— Fala? — Atendi, ainda meio sonolento.
— Rei, o Guto tá no Vidigal!
— Vidigal? Não é possível, mano! — Fiquei incrédulo. O que ele estava fazendo lá?
— É, mano. E vou te dizer mais: ele arrastou duas meninas pra lá na noite do baile e tá com elas lá em um barraco que só ele e o Cacau, o dono de lá, têm acesso.
— Como você sabe dessas paradas? — Perguntei, tentando entender aquela situação.
— Mano, tem um parça que me ajuda. Ele é de lá e quando viu a foto do Guto, soltou a voz. Disse que ele tava no barraco próximo da casa dele. Me deu todas as coordenadas. E vou te falar, descobri coisas bem pesadas sobre ele.
Meu coração acelerou, As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar. O Guto sempre teve um jeito misterioso, explosivo, mas na dele, mas onde já se viu se bandear pro lado de um mano que já tentou tomar minha quebrada.
— Que tipo de coisas? — Perguntei, mas com medo do que ia ouvir, tenho medo de sempre ter acreditado num cara que não vale nada.
— Coisas que envolvem desde abuso a agressão. Ele não é quem você pensa que é, cara. Tem muita coisa errada acontecendo ali.
Senti um nó na garganta. Meu pai sempre confiou nele, ele tá na nossa quebrada desde que meu pai assumiu, aquele parceiro que tomava umas geladas comigo ta revelando à figura de um homem que eu não conhecia. Como eu fui tão cego?
— Precisamos fazer algo — Disse, finalmente. — Não posso deixar isso assim. — Quero todas as provas contra ele, ainda hoje. Falou? — Minha voz saiu firme, mas a ansiedade pulsava dentro de mim.
— Te aviso quando tiver tudo pronto, só preciso de algumas imagens e já te mando — Respondeu o investigador.
A conversa me deixou inquieto. p***a, mano, o que esse cara tá aprontando no Vidigal? Boa coisa não é, né? Mesmo sendo do mesmo comando, o Cacau sempre mostrou interesse na Rocinha, e isso não era de hoje, Desde que ele me passou a coroa, eu sabia que precisava ser esperto.
A tensão estava no ar e eu podia sentir a pressão crescendo. Cada minuto me deixava mais inquieto. Decidi dar uma rolê pela comunidade para ver se conseguia alguma informação. O lugar estava agitado, Aquele clima pesado. — Preciso saber o que tá acontecendo — Murmurei para mim mesmo enquanto atravessava as ruas tão conhecidas por mim.
Passei na boca pra ver se tava tudo em ordem. O TH tinha acabado de sair e tava no bar do seu Zé, então, sem nada pra fazer, resolvi fazer um tour pelo morrão. Fazia tempo que não explorava aqueles caminhos. Fui até o pé do morro, sentindo a brisa e lembrando dos velhos tempos.
Quando estava quase lá, quase bati numa menor que atravessou correndo na minha frente pra pegar um filhote de cachorro. Freiei praticamente em cima dela. — Caralhö, mano! Gelei na hora. Onde tá a porrä da mãe dessa menor.
— Clara, pelo amor de Deus, você está bem? — Pergunta uma loirinha toda preocupada, analisando a garota, a menina é pequena, deve ter uns sete a oito anos, mas o que me chamou a atenção. Foi a loirinha Nunca tinha visto ela aqui no morro antes. Toda perfeitinha, peitös na medida certa, sai dos meus devaneios com a Mina falando:
— Nunca mais faça isso, tá me ouvindo? — A loirinha fala enquanto a menor segurava o filhotinho nos braços. O cachorro parecia tão perdido quanto eu me senti naquele momento observando aquela mulher à minha frente.
A menor nos olhou com uma expressão de culpa e disse: — Desculpa, Lara! É que o Pingo saiu correndo! Então esse é o nome dessa deusa.
Quando ela virou o olhar pra mim novamente, suas palavras saíram como um sussurro: — Desculpa, moço! Não foi por mäl, só queria salvar meu filhote.
Nessa hora, a pequena mulher pareceu notar minha presença de verdade. Nossos olhares se cruzaram e eu fiquei até sem ar. —Mano, que isso? Era como se o mundo ao nosso redor tivesse parado naquele momento, sabe. O jeito como a luz batia no rosto dela deixava tudo mais bonito, e eu não conseguia desviar o olhar.
O clima era tenso, havia algo na simplicidade daquela Mina que me tocou profundamente.
A preocupação da garotinha pelo cachorro era genuína e pura. A forma como ela segurava o Pingo com tanto carinho: — Mas pera aí é um filhote de Pitbull, essa garota é louca deixar a criança com um cão dessa raça? Se bem que ele filhote não faz estrago, aquela postura de dono do morro desapareceu e a raiva que eu senti por quase bater naquela menina sumiu. — Toma postura de dono de morro Rei pensei.
— Desculpa Senhor, infelizmente o filhote correu e ela acabou se afastando de mim. — Diz a Mina que sei se chamar Lara por ouvir a pequena falando.
— Tem problema não loirinha! — Só toma conta da menor, sorte que eu consegui frear e se fosse os malucos que não presta atenção, tinha batido nela.
Ela abre e fecha a boca, mas vejo que ela está putä da vida. — Sei muito bem cuidar dela não se preocupe — Vamos Clara!
Ela é linda bravinha, mas não tô pra briga, ignorei ela e disse pra garotinha: — Ele é lindo — Falei, tentando quebrar o gelo enquanto olhava para o cachorro. — Tu cuida bem dele Menor? Tá ligada né!
Ela sorriu timidamente e acenou com a cabeça.
— Sim! Eu me chamo Clara e ele pingo.
— Sou Miguel, Clara nos vemos por aí e tu se liga não sai de perto da bravinha assim beleza. Ela acena com a cabeça e sai.
O morro tinha seus desafios, mas também guardava essas pequenas surpresas capazes de mudar nosso dia, me despedi delas e segui meu caminho quando subo na minha moto vejo elas entrarem na casa do Guto não é possível! — Elas são filhas dele?