Parte 7...
Não foi fácil compreender essa verdade e começou a ficar ressentido com as pessoas, mas ele era o maior culpado por essa atitude.
Quando teve que usar uma cadeira de rodas durante um tempo, se sentiu um inútil durante os seis meses após sair do hospital e seu humor só piorava.
Começou a perceber que seus empregados em casa o evitavam com medo de suas respostas e de seu humor pesado.
Ele até admitia que estava insuportável, mas a dor no corpo, o incômodo de ter que usar aquela cadeira de rodas e a quantidade de remédios lhe dava uma sensação desagradável de vida perdida. De não ter ninguém de verdade ao seu lado.
Foi a primeira vez que ele sentiu solidão de verdade e entendeu o quanto isso é desagradável e machuca. Descobrir que não tinha pessoas que o queriam de verdade por quem ele era e não pelo que representava, era muito difícil e entendeu que uma mudança seria necessária.
Ele não confiava nas pessoas, nunca confiou na verdade, mas ver que elas não se importavam com ele por nada, foi dolorido.
Apesar de um pouco chato ás vezes, mandão e sério, ele não era uma pessoa r**m, apenas era exigente em sua vida e queria as coisas ao seu modo. Isso não é errado e nunca foi um pecado.
Mas entendeu que não era bem assim que ele era visto pelos outros. E foi prestando atenção nisso.
E se com esse acidente, ele tivesse morrido? Será que algum deles iria sentir sua falta? Alguém iria a seu enterro por boa vontade?
Talvez não. Ou talvez quem sabe, eles aparecessem só pra ter certeza de que estava mesmo morto.
Apesar dessas lembranças, abriu um sorriso sincero ao relembrar sua última conversa com um dos sócios. Teve uma conversa séria e demorada com ele. O avisou que estava decidido a vender tudo o que tinha depois que se sentisse melhor.
Queria se afastar para repensar melhor a vida para tentar melhorar sua saúde que ficara abalada com o acidente e sua mente que estava contaminada com a vida cotidiana e sua correria. Precisava parar.
— Está seguro disso? - Rômulo estava sentado no sofá confortável e grande de frente pra ele e o olhava com cara incrédula.
— Total. Já pensei muito - se ajeitou na cadeira de rodas e engoliu os comprimidos para dor.
— Você bateu forte a cabeça, não foi?
— Bati, mas não foi por causa disso que repensei minha vida - riu e esfregou o rosto, passando a mão pela marca da cicatriz — Eu só estou cansado e repensar a vida é natural.
— Sim, eu sei disso e entendo. Mas tire férias então. Passe um tempo longe dos negócios. Não tem que fazer isso agora - gesticulou — É uma loucura - ele franziu o cenho.
— Não é loucura Rômulo - balançou a cabeça — Um homem tem o direito de repensar seu comportamento e mudar de vida, não tem?
— Sim, claro que tem, mas não depois de um acidente grave que quase o matou - se inclinou pra frente — Você não está se consultando com um terapeuta? Isso ajuda muito.
— E porque eu preciso de um? - deu de ombro — Eu não estou louco, apenas quero mudar meu rumo - pausou um instante — Rômulo, eu vou fazer trinta e seis anos - suspirou — E não tenho uma família, amigos... Nem mesmo um cachorro. Ninguém se importa comigo.
Rômulo revirou os olhos fazendo careta.
— Se a questão for essa, é fácil de resolver. Eu posso te comprar um cachorro agora mesmo. Até um gato, assim você tem os dois - abanou a mão no ar — E mulher você arranja fácil. Viva com ela, curta um bom s**o e depois tenha um filho - bateu as mãos — Pronto! Aí está. Uma família completa. É só isso?
— Não é desse jeito - balançou a cabeça — Você não quer me entender. Eu realmente preciso de uma mudança, eu sinto isso dentro de mim. É algo forte.
— Dentro de você só tem um monte de porcarias que bebe e come e agora esses remédios, que estão subindo pra sua cabeça e te deixando dopado e alucinado. Você não pode vender tudo!
— Não fique nervoso. Eu sei que a decisão parece ser de última hora, mas é o melhor. Acredite em mim - afirmou.
— Ok... E que diabos você vai fazer? Já pensou bem nisso? Em uma semana você vai estar de saco cheio, agoniado, entediado até os ossos e vai se arrepender.
— É, pode ser que sim - riu — Mas eu não preciso me preocupar com isso agora, não é?. Uma coisa que não vou ter é problemas com dinheiro - deu de ombros. — Sempre fui organizado e soube investir. Eu tenho dinheiro pra gastar o quanto quiser pro resto de minha vida. Quando, e se eu me enjoar do que estiver fazendo, eu faço algo de novo. Não tenho que me preocupar.
— E por que diabos você tem que se mudar?