Parte 2...
Se aproximou do carro, não sabia que modelo era, mas dava pra ver que era caro e novo. Tinha deslizado para fora da pista e estava enfiado na neve, meio torto na lateral da estrada e por pouco não acertou uma árvore que havia ao lado.
O homem se posicionou perto dela e meio sem querer acabou se afastando. Foi uma reação natural.
— Margô, ligue o carro - gritou.
Nesse instante Beatriz deu uma olhada rápida nele. Vestia um sobretudo escuro, sapatos de bico fino e luvas grossas de couro. Ele colocou as mãos sobre o carro e ela fez o mesmo.
A lataria estava fria, é claro, bem fria e cheia de neve já se acumulando. Ela limpou um pouco para ter mais apoio.
— Vamos cara, empurre comigo - ele disse — Faça força.
Ela não gostou do modo como ele falou, achou-o mandão.
— Vamos, rapaz. Não seja mole – rosnou — O carro não vai sair sozinho. Força!
Margô pisou no acelerador e os pneus giraram rápido deslizando na neve que agora virava uma papa de lama com o atrito das rodas. Ela tentou, estava fazendo força, o máximo que podia, mas o carro era pesado e grande demais.
O homem rosnou de novo, forçando o carro para a frente.
Beatriz queria ir embora, mas não ia desistir agora. Ela pisou forte e apoiou as botas melhor, pegando um apoio a mais e encostou o peito na traseira do carro, empurrando de novo.
Ambos fizeram um esforço grande em conjunto. O carro balançou de um lado para outro, começando a deslizar para fora da lateral e finalmente se mexeu.
— Vamos... Isso... Está indo... - fez força — De novo... Está saindo... Empurre.
O carro era um Mercedez. Com Margô acelerando e os dois forçando juntos, o sedã deslizou um pouco mais e como era um carro potente as rodas giraram rápido, saindo do atoleiro.
Com isso a neve foi jogada para todos os lados, se espalhando por eles. Sujou as calças e sapatos dos dois. Pelo menos saiu do canto cheio de neve e continuou um pouco mais adiante e parou.
Gustavo bateu os pés olhando com uma careta para os sapatos. Beatriz recebeu neve até no rosto e cuspiu, limpando o queixo e batendo na roupa para cair a sujeira mais grossa.
Gustavo bateu a mão pelo sobretudo buscando a carteira para dar um agrado de ajuda ao rapaz pelo esforço.
— Não é necessário pagar nada, Gustavo – a voz feminina veio de dentro do carro — Valeu pela ajuda. Agradecemos, mas temos que ir . Vamos Gustavo. Boa noite.
Beatriz suspirou. Já tinha ideia de quem seria.
A voz fina e melosa era fácil de reconhecer. Pertencia a Margô Fontenele. A riquinha esnobe e mimada. É claro que seria ela.
O homem não precisava lhe pagar, ela ajudou por vontade própria, mas pelo menos poderia ter lhe dito um simples obrigado. Bateu as mãos limpando as luvas e balançando a cabeça se virou para sair.
Ela voltou a enfiar as mãos nos bolsos da calça e continuou seu caminho. O engraçado, por assim dizer, é que eles também continuaram o deles sem nem mesmo perguntar se precisava de uma carona.
Era noite e ela estava andando por ali sozinha. O mínimo que poderiam fazer era perguntar se precisava de algo depois de ajudá-los a sair do atoleiro.
Ela achava isso uma tremenda falta de educação. Infelizmente muitas pessoas eram assim. Pediam ajuda e nem mesmo davam um obrigado depois.
Mas o que esperar de um homem que estava saindo com Margô Fontenele?
Ela tinha acabado de os ajudar, estava frio, nevando e era noite. Uma pessoa que fosse educada oferecia ajuda em troca.
Talvez ela também estivesse atolada em algum lugar por ali. E estava, só que pior, com o carro quebrado.
Não deveria, mas isso a aborreceu um pouco. Balançou a cabeça. Era impressionante como as pessoas só se preocupavam com elas próprias, eram egoístas demais nesses dias atuais.
Nem mesmo um simples obrigado se dizia. Queriam que todos fizessem seus gostos e depois não sabiam porque o mundo andava tão difícil e r**m atualmente.
Ela sabia bem que Margô era uma pessoa egoísta e mimada. e de certa forma, a culpa não era só dela, mas de seus pais que a criaram como se ela fosse a dona do mundo.
Ou pelo menos a dona da cidade de Torres. O que aliás, a cidade quase toda sabia e pensava igual.
Não tinha muito contato com ela ou com a família em geral. Conhecia de vista alguns tios e primos dela. Margô vinha de uma família das mais antigas da cidade e era muito rica e próspera.
Tinham vários tipos de negócios em Torres, inclusive um banco e uma concessionária de carros importados. Era a única que vendia esse tipo de veículo de luxo em Torres.