Angelina Garcia Há dores que não sangram. A dor de nascer. A dor de fazer aniversário. A dor de encarar um novo ciclo como quem enfrenta um abismo. Eu já estava divorciada havia tempo — mas não na alma. Ainda havia, lá no fundo, a esperança tola de que Raul voltaria. Que a gente se reconstruiria. Mas agora... era oficial. Ele seguia com outra mulher. E eu? Apaixonada por um homem que jamais seria meu. Era essa constatação que me esmagava o peito. Enquanto Saulo dirigia, não perguntei para onde. Apenas fui. Ele parecia saber — ou sentir — que aquele era o meu luto. E, de alguma forma silenciosa, era o dele também. Éramos dois perdidos, cada um digerindo uma perda diferente, mas entrelaçados pela dor. Ele parou o carro no acostamento e desceu, batendo a porta. Não foi raiva. Foi aviso.

