Capítulo 30

1271 Words
O dia começava a declinar sobre a pequena vila de pescadores, e a luz do sol tingia cada superfície com tons quentes de dourado, laranja e rosa suave. Na pequena casa de praia de Noah, o ambiente parecia mais acolhedor do que nunca. Íris se encontrava sentada à mesa, respirando profundamente, absorvendo o cheiro do mar que entrava pelas janelas abertas, misturado ao aroma do pão fresco e das frutas que Noah preparara para o café da tarde. Cada som, cada cor e cada textura eram novos para ela, mas uma sensação de nervosismo crescia dentro do peito: hoje uma amiga humana de Noah viria visitá-los, e embora fosse uma presença amistosa, o simples pensamento de ter outra pessoa ali aumentava a tensão já existente dentro dela. — Ela deve chegar em alguns minutos — disse Noah, organizando alguns papéis sobre a mesa, mas mantendo os olhos sobre Íris. — Ela é divertida, uma ótima pessoa. Você vai ver, vai se dar bem com ela. Íris tentou acenar, mas não conseguiu esconder totalmente o aperto em seu peito. O nervosismo misturava-se à curiosidade e a um sentimento novo que ela ainda não compreendia completamente: uma ponta de ciúmes. Ela conhecia a atenção de Noah, sabia da delicadeza dele, e a ideia de outra mulher na casa despertava algo que ela ainda tentava compreender. O som de passos suaves na estrada de areia chamou a atenção de ambos. Noah levantou-se rapidamente, abrindo a porta, um sorriso caloroso iluminando seu rosto. — Ah, ela chegou! — exclamou, animado. Entrou uma jovem humana de cabelos castanhos presos num coque despretensioso, olhos verdes vivos e um sorriso aberto, carregando uma mochila leve. Sua energia preenchia o pequeno espaço de forma quase imediata, trazendo consigo uma sensação de frescor humano que contrastava com o mundo misterioso do oceano que Íris conhecia. — Noah! Que bom te ver! — disse a jovem, abraçando-o com entusiasmo. — E quem é essa? Íris levantou-se, tentando parecer natural. A sensação de suas pernas humanas ainda era estranha, e ela se apoiou levemente na mesa para manter o equilíbrio. Seus olhos azuis fixaram a nova visitante, analisando cada gesto, cada expressão, cada detalhe do comportamento humano que lhe era tão novo. — Olá… eu sou Íris — disse, a voz suave e hesitante, mas firme. — Prazer em conhecê-la. A amiga de Noah sorriu gentilmente, inclinando a cabeça. — Prazer, Íris. Noah já me falou de você. — Seus olhos verdes, curiosos, percorreram Íris com atenção quase imperceptível. Ela parecia perceber algo diferente, algo que não conseguia explicar. — Você… parece um pouco… diferente, de um jeito bom, mas estranho. Íris corou, sentindo uma mistura de constrangimento e insegurança. — Diferente? — repetiu, tentando entender o comentário, mas sem perder a compostura. — Eu… posso ser meio estranha às vezes. — Não, não é isso — respondeu a amiga, percebendo a hesitação. — É só… você tem algo especial. Difícil de explicar. O coração de Íris bateu mais rápido, e um leve aperto no peito surgiu. Cada sorriso compartilhado entre Noah e a amiga parecia aumentar aquele sentimento que ela ainda não sabia nomear. Era ciúmes, mas também curiosidade, e uma certa insegurança sobre sua própria presença no mundo humano. — Quer se sentar? — perguntou Noah, apontando para uma cadeira. — Podemos tomar algo, chá ou suco? — Suco seria ótimo — disse a amiga, com um sorriso, enquanto observava Íris de soslaio. Havia algo nela que parecia intrigante, algo que não se encaixava completamente na normalidade do mundo humano. Íris se aproximou da cadeira, cada passo carregado de atenção e cautela. Ao sentar, sentiu uma leve tremedeira nas pernas, fruto da inexperiência e do nervosismo. Observou a amiga de Noah, que a encarava de forma curiosa, sem qualquer julgamento, mas com interesse evidente. — Então… você gosta de que tipo de coisas, Íris? — perguntou a amiga, inclinando-se levemente para frente, com um sorriso aberto e sincero. Íris hesitou, olhando para Noah por alguns segundos, buscando algum sinal de aprovação. Ele apenas sorriu, encorajando-a a falar. — Eu gosto de… aprender coisas novas — disse Íris. — E… explorar o mundo. — Que ótimo! — disse a amiga, os olhos brilhando de entusiasmo. — Eu também adoro explorar. Podemos até passear pela vila mais tarde, se você quiser. O coração de Íris acelerou. A ideia de caminhar entre humanos ainda era intimidante, mas também fascinante. E, ao mesmo tempo, não pôde evitar que uma pontada de ciúmes surgisse novamente. Noah parecia tão natural com a amiga, rindo de uma piada, gesticulando, compartilhando histórias… e Íris sentiu aquele aperto no peito, tentando processar a intensidade do próprio sentimento. Enquanto conversavam, Íris tentava participar das interações, mas percebia que a amiga a observava de vez em quando, com uma expressão curiosa e intrigada, como se tentasse decifrar algo em seu comportamento, algo que ela não podia compreender. Isso fez com que Íris se encolhesse levemente, sentindo-se exposta e vulnerável. — Você é muito calma, Íris — disse a amiga, inclinando a cabeça. — Mas é diferente… parece que guarda algum segredo. Íris engoliu em seco. Não podia revelar que era uma sereia, que cada passo humano era uma descoberta, que seu corpo escondia uma cauda poderosa sob as roupas. — Talvez — respondeu Íris, tentando sorrir, mas a timidez era evidente. — Eu gosto de observar antes de falar demais. Noah percebeu a tensão crescente e decidiu intervir: — Vamos mostrar a Íris algo divertido — disse ele, pegando uma pequena caixa de música que guardava em uma das prateleiras. — Acho que você vai adorar. Íris respirou fundo, tentando afastar o ciúmes e a ansiedade que cresciam em seu peito. A música começou a tocar, notas suaves enchendo a sala, envolvendo cada canto com uma aura mágica. A amiga de Noah sorriu, encantada, enquanto Íris se concentrava, absorvendo cada melodia, deixando-se envolver pelo som e pelo momento. Por alguns instantes, a tensão diminuiu, mas a sensação de que precisava provar seu valor ainda permanecia. Cada gesto, cada risada compartilhada, cada olhar da amiga era interpretado por Íris como uma medida de sua própria presença ali — como se tivesse que merecer cada instante no mundo humano. Enquanto a tarde avançava, Íris começou a perceber algo que nunca havia sentido antes. O mundo humano podia ser fascinante, mas também complexo, cheio de emoções contraditórias. Admirava a amiga de Noah, mas o ciúmes e a insegurança ocupavam espaço dentro dela. Cada risada, cada conversa entre as duas, lembrava que amar Noah não era simples — e que a liberdade que sentia ao explorar o mundo humano vinha sempre com riscos, tanto externos quanto internos. O dia terminou com música, conversas e pequenos gestos de proximidade. Noah, atento, segurava a mão de Íris discretamente, oferecendo segurança silenciosa. Íris, por sua vez, sentia-se viva, curiosa e conectada ao mundo humano, mas ao mesmo tempo ciente de que suas emoções eram complexas e ainda precisavam ser compreendidas. E enquanto a luz do sol desaparecia lentamente no horizonte, trazendo a noite e as sombras sobre a vila, Íris sabia que, apesar do ciúmes e da estranheza do dia, havia algo que permanecia inabalável: sua ligação com Noah. Uma ligação única, profunda e insubstituível, mesmo diante de desafios, descobertas e sentimentos conflitantes. No fundo, uma pergunta começava a se formar em sua mente: seria possível equilibrar o amor, a curiosidade e a própria identidade sem se perder no meio do mundo humano e dos perigos do oceano? Ela ainda não tinha respostas, mas estava determinada a descobrir — passo a passo, nota por nota, gesto por gesto.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD