Capítulo 19

1252 Words
O oceano estava mais silencioso naquela noite, como se cada criatura, cada corrente e cada pedra submersa estivesse guardando um segredo antigo. A lua pairava alta no céu, derramando sua luz prateada sobre a superfície do mar, transformando as ondas em espelhos quebrados que refletiam o infinito. Noah estava novamente na água. Mas dessa vez não havia apenas curiosidade em seu olhar. Havia decisão. Ele nadava lentamente, mantendo o corpo próximo às rochas que formavam um pequeno labirinto natural perto da colina submersa. Aquela área, que antes parecia apenas parte da paisagem marinha, agora era quase familiar para ele. Cada pedra, cada sombra, cada corrente tinha se tornado parte de um mapa invisível que ele vinha construindo em sua mente. Mesmo assim, o risco era enorme. O Conselho poderia sentir sua presença. As guardiãs podiam patrulhar a qualquer momento. E Íris ainda estava sob vigilância indireta. Mas ele precisava vê-la. Precisava falar com ela. Precisava encontrar uma solução. Quando alcançou o ponto onde a água se tornava mais profunda e silenciosa, Noah parou de nadar por um instante e apenas flutuou, olhando para o abismo azul escuro à sua frente. — Íris... — murmurou ele, quase como se estivesse chamando o próprio oceano. Por alguns segundos, nada aconteceu. Apenas o som distante das correntes. Então a água mudou. Foi algo quase imperceptível. Um movimento suave, delicado, como se a maré tivesse decidido respirar mais fundo. Noah sorriu imediatamente. Ele sabia. Ela estava ali. Entre as sombras azuladas, Íris surgiu lentamente. Seu corpo deslizou pela água com aquela graça que sempre parecia impossível para qualquer criatura humana. A cauda cintilava sob a luz da lua que atravessava a superfície, e seus cabelos escuros flutuavam ao redor do rosto como fios de seda movidos pelo mar. Mas havia algo diferente em sua expressão. Preocupação. Quando seus olhos finalmente encontraram os de Noah, o coração dele apertou. — Você voltou… — disse ela em voz baixa, aproximando-se lentamente. — Eu sempre volto. A resposta veio simples, mas carregada de uma verdade que nenhum dos dois podia negar. Eles ficaram alguns segundos apenas se olhando. A água os separava por pouco mais de um metro agora. Muito mais perto do que antes. Muito mais perigoso também. Íris foi a primeira a quebrar o silêncio. — O Conselho está inquieto. Noah franziu o cenho. — Eles sabem? — Não exatamente… — respondeu ela. — Mas sentem que algo está errado. A energia da câmara mudou depois que você se aproximou. Ela suspirou, passando a mão pela água lentamente. — Karla me observa o tempo todo. Noah sentiu um peso no peito. — Então é pior do que eu imaginava. Íris assentiu. — Muito pior. Ela se aproximou mais alguns centímetros. Agora estavam próximos o suficiente para ver cada detalhe um do outro. O brilho suave na pele de Íris. O movimento sutil da respiração de Noah. O reflexo da lua dançando entre eles. — Nós precisamos ser mais cuidadosos — disse ela. Noah ficou em silêncio por um instante, como se estivesse organizando pensamentos que vinha carregando há dias. Então falou. — Eu tenho pensado em uma saída. Íris inclinou levemente a cabeça. — Uma saída? Noah respirou fundo. — Um plano. Ela permaneceu imóvel, esperando. Ele continuou. — Minha família tem uma casa de praia… um pouco afastada da cidade. Quase ninguém vai lá. Fica perto de uma enseada escondida. Os olhos de Íris se estreitaram com curiosidade. — E? — Eu poderia levar você para lá. O silêncio que se seguiu foi pesado. Não de raiva. Não de rejeição. Mas de algo muito maior. Íris piscou lentamente. — Levar… para o mundo humano? — Sim. Ela parecia tentar compreender cada palavra. — Noah… isso é impossível. — Não é. A resposta dele veio rápida, firme. — Eu já estudei o suficiente sobre correntes, marés, rotas. Há uma entrada escondida naquela enseada. Se você vier à noite, ninguém vai ver. Íris ficou completamente imóvel. Apenas sua cauda se movia lentamente, como se estivesse refletindo o conflito dentro dela. — Você está falando de fugir. Noah não desviou o olhar. — Sim. A palavra pairou entre eles como uma pedra afundando lentamente. Íris soltou um pequeno suspiro. — Fugir do Conselho… do meu povo… da minha vida inteira. — Fugir de uma prisão — respondeu Noah. Ela olhou para baixo. — Você não entende. — Então me explique. Íris levou alguns segundos antes de responder. — Eu fui criada para proteger este oceano. Para obedecer às regras que existem há séculos. Para manter distância dos humanos. Seus olhos voltaram a encontrar os dele. — Fugir significaria abandonar tudo. Noah nadou um pouco mais perto. Agora apenas cinquenta centímetros os separavam. — E ficar significa abandonar o quê? Íris não respondeu imediatamente. Ele continuou. — Significa abandonar nós dois. Aquelas palavras atravessaram o silêncio da água como um raio. Íris fechou os olhos por um momento. Seu coração parecia bater tão forte que ela tinha certeza de que o oceano inteiro podia ouvir. — Eu tenho medo — confessou ela, finalmente. Noah suavizou o olhar. — Eu também. Ela abriu os olhos. — Medo de perder tudo. Ele respondeu com calma. — Às vezes precisamos perder o que nos prende para encontrar o que nos pertence. Íris aproximou-se mais. Agora estavam tão perto que podiam sentir o calor um do outro através da água fria. — E se der errado? Noah deu um pequeno sorriso triste. — Então pelo menos tentamos. Ela observou o rosto dele por alguns segundos. — E o que aconteceria comigo… na sua casa? Noah respondeu sem hesitar. — Eu cuidaria de você. Ela ergueu uma sobrancelha. — Como? Ele riu suavemente. — Primeiro, com um tanque de água grande o suficiente para você não odiar minha existência. Íris não conseguiu evitar um pequeno sorriso. — Um tanque? — Temporário — explicou ele. — Até encontrarmos uma forma melhor. Ela ficou pensativa. — E se alguém descobrir? — Ninguém vai descobrir. Íris balançou a cabeça. — Você está apostando sua vida inteira nisso. — Eu sei. Ela o encarou profundamente. — Por mim? Noah não precisou pensar. — Sempre foi por você. O silêncio voltou. Mas dessa vez não era pesado. Era cheio de sentimentos que nenhum dos dois sabia explicar completamente. Íris levantou lentamente a mão. Por instinto, Noah fez o mesmo. Eles sabiam o que estavam fazendo. Sabiam o risco. Mas naquele momento parecia impossível parar. Suas mãos se aproximaram. A água entre eles vibrava levemente. Um centímetro. Dois. Três. E então… A ponta dos dedos de Íris tocou a ponta dos dedos de Noah. Foi apenas um toque. Leve. Delicado. Mas o mundo inteiro pareceu parar naquele instante. Íris prendeu a respiração. Noah fechou os olhos por um segundo. O primeiro toque. Real. Quando abriram os olhos novamente, havia algo diferente entre eles. Algo que não podia mais ser negado. Íris falou primeiro. Quase sussurrando. — Se fizermos isso… não haverá volta. Noah apertou levemente os dedos dela. — Eu sei. Ela respirou fundo. O oceano parecia observá-los. Esperando. — Então precisamos de um plano perfeito — disse Íris. Noah sorriu. — Eu já comecei a pensar em um. Ela inclinou a cabeça. — Conte. E assim, naquela noite silenciosa, entre o brilho da lua e o movimento eterno das marés, um humano e uma sereia começaram a planejar algo que poderia mudar seus destinos para sempre. Uma fuga. Um amor proibido. E um futuro que nenhum dos dois conseguia prever.
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