O oceano estava inquieto naquela noite.
Não havia tempestade, nem ventos fortes o suficiente para explicar o movimento irregular das águas, mas ainda assim algo parecia diferente. As ondas quebravam com mais força contra as pedras, como se o próprio mar estivesse tentando dizer algo — um aviso, talvez… ou um presságio.
Noah sentia isso.
Sentado na areia fria da praia, ele observava o horizonte escuro com uma atenção que parecia quase dolorosa. Desde o último encontro com Íris, o tempo havia passado de forma estranha. Os dias pareciam longos demais, e as noites ainda mais silenciosas.
Mas aquela noite era diferente.
Ele sabia.
Sentia.
Íris havia dito que precisava pensar. Que precisava escolher entre o mundo dela e o mundo dele. E desde então, Noah vinha até aquela praia todas as noites, sem falhar, como se a simples presença dele ali fosse uma promessa silenciosa de que estaria esperando… não importa quanto tempo levasse.
O som das ondas se aproximando e recuando preenchia o ar.
E então aconteceu.
A água, alguns metros à frente dele, começou a se mover de forma diferente.
Primeiro um brilho.
Depois uma forma.
Íris emergiu da água com um movimento rápido, quase urgente.
Mas algo em sua expressão fez Noah levantar imediatamente.
Ela parecia… tensa.
Respirando mais rápido do que o normal.
— Íris?
Ela nadou até perto da margem, os olhos procurando os dele com intensidade.
— Precisamos falar agora.
O coração de Noah acelerou.
— O que aconteceu?
Íris olhou rapidamente para o oceano atrás dela, como se temesse ser seguida.
— O Conselho está desconfiando de tudo.
— De nós?
— Sim.
A resposta veio rápida.
— Karla fez perguntas demais hoje.
Noah franziu a testa.
— Ela descobriu?
— Não completamente.
Íris respirou fundo.
— Mas está perto.
O silêncio que se seguiu parecia pesado como o próprio oceano.
Noah sentiu o peso daquelas palavras.
— Então… o que isso significa?
Íris aproximou-se mais da margem.
A água agora batia contra os joelhos de Noah.
— Significa que se não fizermos algo agora… talvez nunca mais possamos nos ver.
As palavras ficaram suspensas no ar.
Noah demorou alguns segundos para responder.
— Você tomou uma decisão.
Não era uma pergunta.
Íris assentiu lentamente.
— Tomei.
Os olhos dela estavam cheios de emoção, mas também havia algo mais forte ali.
Coragem.
— Eu não quero viver uma vida inteira imaginando como teria sido.
Noah sentiu o coração bater com força.
— Íris…
Ela estendeu a mão para ele novamente.
Dessa vez sem hesitar.
— Você disse que havia um lugar.
— Minha casa de praia.
Ela assentiu.
— Lá ninguém viria me procurar?
— Não.
Noah respondeu com firmeza.
— Fica afastada da cidade. Quase ninguém passa por lá.
Íris olhou para o mar mais uma vez.
O oceano parecia infinito naquela direção.
Seu mundo.
Sua casa.
Tudo o que ela conhecia desde o nascimento.
Quando voltou a olhar para Noah, seus olhos estavam diferentes.
Mais decididos.
— Então vamos.
Noah ficou imóvel por um segundo.
— Agora?
Íris assentiu.
— Antes que alguém perceba que eu não estou onde deveria estar.
O coração dele acelerou de forma quase assustadora.
— Íris… você tem certeza?
Ela se aproximou ainda mais da margem.
Agora a água tocava os pés dela enquanto a cauda permanecia parcialmente submersa.
— Eu nunca tive tanta certeza de algo.
As palavras foram simples.
Mas carregavam um peso imenso.
Noah passou a mão pelos cabelos, tentando organizar os próprios pensamentos.
— Certo… certo.
Ele começou a falar mais rápido, a mente trabalhando.
— A casa fica a uns quinze minutos daqui caminhando pela praia.
Íris franziu a testa.
— Caminhando?
— Sim.
Ela olhou para a própria cauda.
E então para ele.
— Noah…
Ele percebeu imediatamente.
— Ah.
Um pequeno sorriso nervoso escapou.
— Verdade.
Íris também sorriu levemente.
— Eu consigo me mover fora da água… mas não como vocês.
Noah pensou por alguns segundos.
Depois teve uma ideia.
— Espere aqui.
Ele saiu correndo pela areia até um pequeno barco de pesca abandonado um pouco mais distante. Dentro dele havia uma lona grossa, usada pelos pescadores para proteger redes e equipamentos.
Ele pegou a lona e voltou rapidamente.
Íris observava com curiosidade.
— O que você está fazendo?
— Confie em mim.
Ele estendeu a lona na areia molhada perto da água.
— Se você se deitar aqui, posso puxar.
Íris olhou para o improviso.
Depois para ele.
— Isso parece… estranho.
Noah riu.
— Provavelmente é.
Ela hesitou por um momento.
Mas então respirou fundo.
— Está bem.
Com cuidado, Íris deslizou da água para a lona.
A cauda brilhava sob a luz da lua, refletindo tons azulados e prateados que Noah nunca se cansava de observar.
Quando ela se acomodou, ele segurou uma das pontas da lona.
— Preparada?
Íris riu pela primeira vez naquela noite.
— Acho que sim.
Noah começou a puxar.
Não era fácil.
A areia criava resistência, e ele precisava usar toda a força para arrastar a lona.
Mas a cada metro percorrido, a realidade da situação tornava-se mais clara.
Eles estavam fugindo.
Íris mantinha os olhos no oceano enquanto se afastavam lentamente.
A água parecia cada vez mais distante.
O som das ondas também.
— Você está bem? — perguntou Noah, respirando um pouco mais rápido pelo esforço.
Íris assentiu.
Mas havia lágrimas silenciosas nos olhos dela.
— Estou me despedindo.
Ele parou por um momento.
— Quer voltar?
Ela balançou a cabeça imediatamente.
— Não.
Íris olhou para ele.
— Estou apenas dizendo adeus.
Noah não respondeu.
Apenas continuou puxando a lona pela areia.
A casa de praia começou a aparecer ao longe.
Uma pequena construção de madeira, iluminada apenas pela luz fraca de uma lâmpada externa.
Simples.
Silenciosa.
Segura.
Quando finalmente chegaram perto, Noah parou para recuperar o fôlego.
Íris observava tudo ao redor com fascínio.
— Este é o seu mundo.
— Uma parte dele.
Ele abriu a porta da casa.
O interior era pequeno, mas acolhedor.
Um sofá.
Uma mesa.
Uma cama no canto.
Noah pensou rapidamente.
Depois pegou uma grande bacia de metal usada para guardar água.
Encheu com água do reservatório da casa e colocou perto da janela.
— Não é o oceano… — disse ele, um pouco envergonhado.
Íris observou.
Depois sorriu.
— Mas é um começo.
Com cuidado, Noah ajudou-a a entrar.
Quando Íris finalmente se acomodou na água da bacia improvisada, suspirou profundamente.
— É estranho.
— Muito?
Ela riu suavemente.
— Muito.
O silêncio que se seguiu era diferente de qualquer outro que já haviam vivido.
Porque agora…
Eles estavam no mesmo lugar.
No mesmo mundo.
Sem o oceano entre eles.
Íris olhou para Noah.
— Nós realmente fizemos isso.
Ele sorriu.
— Fizemos.
Mas, longe dali…
Muito longe, nas profundezas do oceano…
As correntes começavam a se mover de forma inquieta.
E no grande salão de pedra do Conselho, uma figura observava as águas através de antigos espelhos de maré.
Karla.
Os olhos dela estavam fixos.
E cheios de preocupação.
Porque algo no oceano havia mudado.
E ela começava a entender o motivo.
A herdeira das marés…
Tinha desaparecido.