Capítulo 27

1007 Words
A manhã havia avançado lentamente na pequena casa de praia. O sol já estava mais alto no céu, e a luz atravessava a janela aberta, espalhando reflexos dourados pela superfície da água onde Íris permanecia. O vento que vinha do mar carregava o cheiro salgado das ondas e fazia as cortinas se moverem suavemente. Para Noah, aquele cenário ainda parecia um sonho. Uma sereia estava dentro da sua casa. E não apenas qualquer sereia. Íris. Ela estava apoiada na borda da bacia, os olhos curiosos observando cada detalhe ao redor, como se ainda estivesse tentando compreender completamente o mundo humano. — Então… — disse ela depois de alguns minutos de silêncio — você disse que algumas sereias conseguem mudar. Noah estava sentado na cadeira próxima, apoiando os braços nas pernas. — Foi você que disse isso ontem. Íris assentiu. — Sim. Ela passou os dedos pela própria cauda, observando as escamas brilharem sob a luz do sol. — Mas nunca tentei de verdade. Noah inclinou a cabeça. — Por quê? Íris pensou por um instante antes de responder. — Porque não há motivo no oceano. Ela olhou novamente para a cauda. — Para nós, isso é… natural. Nadar. Mover-se na água. Depois ergueu os olhos para ele. — Andar pertence ao mundo de vocês. Noah sorriu levemente. — E agora você está no nosso mundo. Íris soltou um pequeno suspiro. — Sim. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse organizando os próprios pensamentos. — Eu ouvi histórias quando era mais jovem — continuou. — Sobre sereias antigas que conseguiam assumir forma humana. — Histórias? — Lendas, talvez. Ela ergueu o olhar novamente. — Diziam que isso acontecia quando o coração de uma sereia se ligava ao mundo da superfície. Noah sentiu algo apertar dentro do peito. — Você acha que consegue? Íris respondeu com honestidade. — Não sei. Ela deslizou lentamente para fora da bacia, apoiando as mãos no chão de madeira. A cauda escorregou atrás dela, pesada e brilhante. — Mas podemos tentar. Noah levantou-se imediatamente. — Espere. Ele pegou uma toalha grande e colocou no chão para evitar que as escamas arranhassem a madeira. Íris observava tudo com curiosidade. — Vocês sempre pensam em tudo. — Tentamos. Ela riu suavemente. Depois se acomodou sobre a toalha. O brilho da cauda ocupava boa parte do pequeno espaço da sala. Noah sentou-se novamente diante dela. — O que você precisa fazer? Íris fechou os olhos por um momento. — Concentração. — Em quê? Ela levou uma das mãos ao próprio peito. — No oceano. Noah ficou em silêncio. Íris respirou fundo. Seu corpo relaxou lentamente. Por alguns instantes, nada aconteceu. Apenas o som distante das ondas. Então algo começou a mudar. Um leve brilho percorreu as escamas da cauda. Noah inclinou-se para frente. — Íris… Ela não respondeu. Estava concentrada. O brilho aumentou. As escamas começaram a vibrar suavemente, como se pequenas correntes elétricas percorressem cada uma delas. Íris abriu os olhos de repente. — Está acontecendo. Noah prendeu a respiração. A cauda começou a se mover. Não como quando ela nadava. Era diferente. As escamas começaram a se separar lentamente, como pétalas se abrindo. Íris respirou mais rápido. — Isso… dói um pouco. — Quer parar? Ela balançou a cabeça. — Não. O brilho intensificou-se. As escamas começaram a recuar. A forma da cauda mudou lentamente. Dividindo-se. Transformando-se. Noah não conseguia acreditar no que estava vendo. A estrutura da cauda estava se alterando diante de seus olhos. Os contornos começaram a formar algo novo. Duas formas. Duas pernas. Íris soltou um pequeno gemido de esforço. — É mais difícil do que imaginei. Noah segurou sua mão instintivamente. — Você consegue. O brilho percorreu o corpo dela uma última vez. E então… A transformação terminou. Onde antes havia uma longa cauda prateada… Agora estavam duas pernas humanas. Íris ficou imóvel por alguns segundos. Respirando devagar. O silêncio na casa parecia absoluto. Ela olhou para baixo lentamente. E arregalou os olhos. — Noah… Ele também estava olhando. — Eu… eu acho que funcionou. Íris moveu os pés pela primeira vez. Os dedos se mexeram com curiosidade. — Isso é estranho. Noah riu. — Bem-vinda ao clube. Ela tentou se levantar. Imediatamente perdeu o equilíbrio. — Ah! Noah correu para segurá-la antes que caísse. — Calma. Íris segurou os ombros dele. — Como vocês conseguem ficar em pé com isso? — Anos de prática. Ela olhou para as próprias pernas novamente. — Elas parecem… frágeis. — No começo parecem mesmo. Noah ajudou-a a ficar de pé novamente. — Tente apoiar mais peso aqui. Ele mostrou como posicionar os pés. Íris tentou imitar. Suas pernas tremiam um pouco. — Isso é muito difícil. — Só no início. Ela deu um pequeno passo. E quase caiu novamente. Os dois riram. Depois de algumas tentativas desajeitadas, Íris conseguiu dar três passos seguidos. Três passos. Parecia pouco. Mas para ela era algo monumental. Ela olhou para Noah com os olhos brilhando. — Eu estou andando. Ele sorriu. — Está mesmo. Íris girou devagar pela pequena sala, ainda insegura, mas claramente encantada. — O mundo parece diferente daqui de cima. — Mais alto? — Mais… amplo. Ela olhou para a janela. Para o mar ao longe. E então para ele. — Eu nunca imaginei que conseguiria. Noah cruzou os braços com um sorriso satisfeito. — Eu disse que aprenderíamos juntos. Íris aproximou-se dele lentamente. Ainda um pouco desequilibrada. — Obrigada por acreditar. Ela parou bem perto. Os olhos azuis brilhavam com emoção. — Mesmo quando eu não tinha certeza. Noah respondeu suavemente. — Eu sempre tive. Por um momento, o mundo pareceu completamente em paz. Mas longe dali… Nas águas profundas que cercavam a vila de pescadores… Karla e as guardiãs haviam chegado perto da superfície. Muito perto. Ela observava a costa através da água clara. Seus olhos atentos examinavam cada pedaço de praia. Cada enseada. Cada movimento. E algo dentro dela dizia que estava cada vez mais próxima da verdade. Muito em breve… As marés revelariam onde Íris estava escondida.
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