O território do Conselho repousava nas regiões mais antigas do oceano, onde as pedras pareciam guardar memórias de eras esquecidas. Ali, as correntes eram mais lentas, como se o próprio mar respeitasse aquele lugar. Grandes colunas de coral cresciam como pilares de um templo natural, e entre elas nadavam as guardiãs mais experientes do povo submerso.
Era um lugar de poder.
E também de julgamento.
Quando Karla atravessou os limites daquele território naquela madrugada, seus movimentos estavam firmes, mas seu olhar carregava um peso silencioso. A luz suave das algas que revestiam as paredes rochosas iluminava seu caminho enquanto ela avançava lentamente pelo corredor natural que levava ao coração do Conselho.
Normalmente, aquele lugar transmitia calma.
Naquela noite, porém, parecia carregado de presságios.
Algumas guardiãs passaram por ela no caminho, inclinando levemente a cabeça em respeito. Karla respondeu com pequenos gestos, mas não diminuiu o ritmo. Sua mente estava ocupada demais para conversas.
Ela precisava pensar.
Precisava decidir o que fazer com aquilo que havia descoberto — ou quase descoberto.
Ao chegar à grande câmara central, Karla parou por um momento.
O espaço era vasto, formado por um círculo natural de pedras antigas cobertas por corais luminosos. No centro havia uma formação cristalina que brilhava com uma luz azul profunda, pulsando lentamente como se fosse o próprio coração do oceano.
Ali era onde as decisões importantes eram tomadas.
Ali era onde destinos mudavam.
Karla permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o brilho da formação central.
Uma parte dela sabia exatamente o que deveria fazer.
Informar o Conselho.
Seguir as leis.
Proteger o segredo do povo submerso.
Mas outra parte… hesitava.
Porque, no fundo, ela sabia que aquela história não era apenas sobre regras quebradas.
Era sobre algo mais antigo.
Mais humano.
Amor.
Karla fechou os olhos lentamente.
E a memória voltou.
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Anos atrás.
Muitos anos antes de Íris nascer.
Outra jovem sereia havia nadado naquele mesmo lugar com o mesmo brilho inquieto nos olhos.
Seu nome era Lyria.
A mãe de Íris.
Lyria sempre fora diferente das outras guardiãs. Enquanto muitas aceitavam as tradições sem questionar, ela observava o mundo com curiosidade. Fazia perguntas. Explorava regiões mais distantes do território.
E olhava para a superfície.
Sempre para a superfície.
Karla lembrava-se de muitas conversas que tiveram naquela época.
Lyria falava sobre o mundo humano com uma mistura de fascínio e cautela.
— Eles vivem tão rápido — dizia certa vez, enquanto nadavam perto das colinas de coral. — Mas mesmo assim conseguem sentir coisas profundas.
Karla, mais jovem naquela época, apenas balançava a cabeça.
— Humanos são imprevisíveis — respondia. — É por isso que mantemos distância.
Lyria sorria, mas seus olhos permaneciam pensativos.
— Talvez.
Naquele tempo, Karla não compreendia completamente o que aquela curiosidade significava.
Até o dia em que Lyria desapareceu por várias horas durante uma patrulha.
Quando voltou… algo havia mudado.
Seu olhar estava diferente.
Mais intenso.
Mais vivo.
E alguns meses depois, o Conselho descobriu a verdade.
Lyria havia se aproximado de um humano.
Mais do que isso.
Ela havia se apaixonado.
Karla abriu os olhos lentamente, afastando aquela lembrança dolorosa.
Ela sabia como aquela história terminara.
O Conselho havia considerado aquilo uma ameaça grave ao segredo do povo do mar.
E quando descobriram que Lyria estava grávida…
A decisão foi rápida.
Fria.
Inevitável.
Íris nasceu.
Mas sua mãe não viveu para criá-la.
Karla apertou os dedos com força.
Mesmo depois de tantos anos, aquela memória ainda pesava em seu coração.
E agora…
A filha de Lyria parecia caminhar exatamente pelo mesmo caminho.
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Enquanto isso, longe dali, Íris permanecia entre os corais azuis onde havia parado anteriormente.
O tempo havia passado sem que ela percebesse.
Seus pensamentos estavam tão mergulhados em dúvidas e planos que o mundo ao redor parecia distante.
Pequenos peixes passavam por ela sem medo.
As correntes tocavam suavemente seus cabelos.
Mas sua mente estava em outro lugar.
Na praia.
Em Noah.
Ela lembrava da forma como ele falava sobre a casa de praia.
O brilho em seus olhos quando descrevia a enseada escondida.
A convicção na voz quando dizia que eles poderiam construir algo novo juntos.
Íris nunca tinha visto aquele lugar.
Mas já conseguia imaginá-lo.
Uma faixa de areia protegida por rochas altas.
Água entrando lentamente com a maré.
Uma casa simples, talvez um pouco antiga, mas segura.
E Noah ali.
Esperando por ela.
Seu coração acelerou com aquele pensamento.
— Quatro noites… — murmurou novamente.
Parecia tão pouco.
E ao mesmo tempo… parecia uma eternidade.
Ela sabia que precisava agir com cuidado.
Karla estava observando.
Isso era quase certo.
E se Karla realmente descobrisse sobre Noah antes da fuga…
O Conselho poderia agir.
E quando o Conselho agia… raramente havia volta.
Íris sentiu um arrepio percorrer sua cauda.
Ela precisava ver Noah novamente.
Precisava confirmar o plano.
Precisava ter certeza de que tudo estava pronto.
Mas também precisava ter cuidado.
Mais do que nunca.
Ela começou a nadar lentamente para longe dos corais, seguindo um caminho menos utilizado pelas guardiãs.
Cada movimento agora precisava ser calculado.
Cada decisão… pensada.
Porque algo dentro dela dizia que o tempo estava se esgotando.
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Na superfície, naquela mesma noite, Noah estava sentado na varanda da pequena casa de praia.
O vento trazia o cheiro salgado do mar, e o som das ondas quebrando nas rochas ecoava pela enseada silenciosa.
Ele segurava um caderno aberto nas mãos.
Páginas e mais páginas estavam preenchidas com desenhos e anotações.
Mapas da costa.
Correntes marinhas.
Horários das marés.
Ele havia passado horas estudando tudo aquilo.
Porque, se Íris realmente viesse…
Nada poderia dar errado.
Noah levantou os olhos para o oceano escuro.
A lua estava parcialmente escondida atrás de nuvens, criando um céu mais sombrio do que nas noites anteriores.
Talvez fosse um sinal.
Talvez fosse apenas coincidência.
Mas algo dentro dele também estava inquieto.
Como se uma parte de sua mente soubesse que algo maior estava se aproximando.
Ele fechou o caderno lentamente.
Depois sussurrou para o vento que vinha do mar:
— Aguenta só mais um pouco, Íris…
O oceano respondeu apenas com o som das ondas.
Mas nas profundezas escuras, decisões estavam sendo tomadas.
E muito em breve…
Nenhum dos dois mundos permaneceria o mesmo.