A presença de Karla ainda ecoava na mente de Íris mesmo muito tempo depois de ela desaparecer entre as correntes escuras do oceano.
Íris permaneceu imóvel por alguns instantes na entrada da gruta, observando o espaço onde Karla estivera poucos segundos antes. A água parecia mais fria agora, mais pesada, como se o próprio oceano tivesse testemunhado aquela conversa e estivesse aguardando o próximo movimento.
Seu coração batia rápido.
Muito rápido.
Ela sabia que Karla não era do tipo que fazia perguntas sem motivo.
Se havia aparecido ali… era porque já suspeitava de algo.
Íris fechou lentamente os olhos e respirou fundo, tentando organizar os pensamentos que se chocavam dentro de sua mente.
— Ela sabe… ou está perto de saber — murmurou.
A lembrança das últimas palavras de Karla voltou com força.
“Alguns caminhos levam exatamente para o mesmo destino que destruiu sua mãe.”
Íris sentiu um aperto no peito.
Havia algo naquela frase que sempre a incomodava.
Desde pequena, sempre que mencionavam sua mãe, as guardiãs ficavam em silêncio ou mudavam de assunto. Nenhuma explicação completa, nenhuma história clara. Apenas fragmentos.
Uma guardiã que havia “desaparecido”.
Uma memória que parecia proibida.
E agora Karla falava como se houvesse algo muito mais profundo por trás daquela história.
Mas não havia tempo para pensar nisso agora.
Não quando o risco estava aumentando.
Íris apertou a pequena bolsa que carregava e começou a nadar rapidamente para longe da gruta, tomando cuidado para não seguir caminhos muito óbvios. As correntes noturnas ajudavam a esconder seus movimentos, empurrando cardumes de pequenos peixes entre as rochas e criando sombras que confundiam qualquer observador distante.
Enquanto nadava, sua mente estava completamente ocupada com uma única ideia.
Precisava avisar Noah.
Se Karla estava desconfiando, cada encontro entre eles se tornava ainda mais perigoso.
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Na superfície, o vento soprava suavemente sobre o mar.
A lua estava alta no céu, iluminando as ondas com um brilho prateado que se estendia até o horizonte.
Na pequena praia próxima à colina, Noah caminhava de um lado para o outro na areia úmida.
Ele não conseguia ficar parado.
Desde o último encontro com Íris, algo dentro dele estava inquieto. O toque entre eles ainda parecia vivo em sua memória. A sensação dos dedos dela contra os seus havia sido tão intensa que ele m*l conseguia pensar em outra coisa.
Mas junto com aquela lembrança vinha uma preocupação crescente.
O Conselho.
Se eles descobrissem…
Ele parou perto da água e olhou para o mar escuro.
— Você vai aparecer hoje… não vai? — murmurou.
Como se o oceano tivesse escutado suas palavras, uma pequena ondulação surgiu na superfície da água a alguns metros de distância.
Noah imediatamente se aproximou.
Alguns segundos depois, Íris emergiu.
Seu rosto surgiu primeiro, os cabelos molhados caindo sobre os ombros enquanto ela respirava o ar da noite. A luz da lua refletiu em seus olhos, criando um brilho quase mágico.
Mas Noah percebeu algo imediatamente.
Ela parecia tensa.
Muito mais do que antes.
— O que aconteceu? — perguntou ele.
Íris nadou até ficar perto da borda da água rasa.
— Karla.
O nome sozinho já carregava peso suficiente.
Noah franziu o cenho.
— Ela descobriu?
— Não exatamente — respondeu Íris —, mas está desconfiando.
Ela apoiou os braços sobre uma pedra próxima da superfície, aproximando-se um pouco mais dele.
— Ela me encontrou perto da gruta onde guardo minhas coisas.
Noah ficou imóvel por um momento.
— Isso é r**m.
— Muito r**m.
Íris olhou para o horizonte por um instante antes de continuar.
— Karla não faz perguntas por curiosidade. Quando ela observa algo… significa que já começou a ligar as peças.
Noah passou a mão pelos cabelos, pensando rapidamente.
— Então precisamos acelerar o plano.
Íris voltou o olhar para ele.
— Eu pensei a mesma coisa.
O silêncio entre eles foi curto, mas intenso.
O vento soprou mais forte por um instante, levantando pequenas ondas que tocaram suavemente a areia.
Noah se agachou perto da água para ficar mais próximo dela.
— Eu estive na casa de praia hoje.
Íris inclinou levemente a cabeça.
— E?
— Comecei a preparar algumas coisas.
Ela pareceu surpresa.
— Tão rápido assim?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Eu disse que estava falando sério.
Íris observou o rosto dele com atenção.
— O que exatamente você fez?
Noah começou a explicar.
— A casa fica numa enseada escondida, cercada por rochas altas. A maré cria um pequeno canal natural que entra direto na base das falésias. É um lugar onde quase ninguém aparece.
Ele fez um gesto em direção ao mar.
— Se você seguir a corrente certa durante a maré alta, pode chegar até lá sem passar perto da praia principal.
Íris escutava atentamente.
— E depois?
— Depois você pode ficar no pequeno lago de maré que existe atrás das rochas. A água entra e sai naturalmente com as marés.
Ela pareceu impressionada.
— Isso… realmente funcionaria.
Noah assentiu.
— Além disso, dentro da casa há um antigo tanque de armazenamento de água que meu pai usava para estudar espécies marinhas quando eu era criança.
Íris ergueu uma sobrancelha.
— Um tanque?
— Grande — respondeu ele rapidamente. — Muito grande.
Ela riu suavemente.
— Ainda assim… estranho.
— Temporário — disse ele. — Só até encontrarmos algo melhor.
Íris permaneceu em silêncio por alguns segundos.
A ideia de deixar o oceano ainda parecia enorme demais para ser totalmente compreendida.
— Quando? — perguntou finalmente.
Noah respondeu sem hesitar.
— Na próxima lua nova.
Ela olhou para o céu instintivamente.
— Isso é… daqui a quatro noites.
— Exatamente.
Íris respirou fundo.
Quatro noites.
Quatro dias para decidir o destino de sua vida inteira.
— É pouco tempo — disse ela.
— Eu sei.
Ele se aproximou um pouco mais da água.
— Mas também é o melhor momento. A escuridão será maior. Menos chance de alguém ver você.
Íris ficou pensativa.
As correntes suaves empurravam pequenas ondas contra a areia, criando um ritmo constante ao redor deles.
— E se o Conselho estiver me observando?
— Então precisamos ser ainda mais cuidadosos.
Ela suspirou.
— Você está apostando tudo nisso.
Noah sorriu de leve.
— Não tudo.
Íris o encarou.
— O que mais você tem?
Ele respondeu com simplicidade.
— Você.
O coração de Íris acelerou novamente.
Ela estendeu lentamente a mão para fora da água.
Noah fez o mesmo.
Dessa vez não houve hesitação.
Seus dedos se tocaram novamente.
A pele dele estava quente.
A dela, fria como o mar.
Mas naquele instante, a diferença entre os dois mundos parecia desaparecer.
— Quatro noites — murmurou Íris.
Noah apertou suavemente a mão dela.
— Quatro noites… e começamos uma nova vida.
Íris olhou para o oceano escuro atrás de si.
Por um momento, sentiu como se o próprio mar estivesse observando aquela promessa.
E em algum lugar, nas profundezas silenciosas…
Talvez Karla também estivesse observando.