As profundezas do oceano pareciam tranquilas à primeira vista, mas para aqueles que sabiam escutar o mar, aquela madrugada carregava algo diferente. As correntes não se moviam apenas por força da maré. Havia uma tensão invisível nelas, como se o próprio oceano estivesse atento a algo que ainda não havia sido revelado.
Era uma sensação difícil de explicar.
Mas Karla sentia.
Ela nadava lentamente entre as formações rochosas que delimitavam o território do Conselho. Seu corpo movia-se com a elegância silenciosa de quem havia passado décadas aprendendo a se fundir com as correntes. Cada batida de sua cauda era precisa, controlada, quase imperceptível.
Seus olhos, porém, estavam atentos.
Observadores.
A lua iluminava levemente a superfície do mar acima, e aquela luz filtrada criava caminhos prateados que desciam até as profundezas. Era uma das poucas horas em que o oceano parecia suspenso entre dois mundos: nem completamente escuro, nem totalmente revelado.
Karla passou por um campo de corais antigos, alguns tão grandes que pareciam árvores petrificadas crescendo do fundo do mar. Pequenos peixes luminosos se afastavam lentamente à sua passagem, formando nuvens de brilho azul que desapareciam na escuridão.
Ela estava procurando algo.
Ou melhor…
Alguém.
Íris.
Desde o encontro na gruta, dias atrás, a inquietação dentro de Karla não havia diminuído. Pelo contrário. Cada vez que observava Íris durante as patrulhas do Conselho, percebia pequenos detalhes que antes talvez passassem despercebidos.
Distração.
Olhares frequentes em direção à superfície.
Momentos de silêncio prolongado.
E agora… a bolsa.
Karla parou por um instante perto de uma rocha coberta por algas prateadas e fechou os olhos, deixando as mãos abertas na água.
As guardiãs mais antigas haviam aprendido a sentir o oceano de formas que iam além da visão. Correntes carregavam histórias. Vibrações na água denunciavam movimentos distantes. Pequenas mudanças de temperatura revelavam quando algo fora do comum havia atravessado aquelas águas.
Ela permaneceu ali por alguns segundos, concentrada.
Então abriu os olhos novamente.
Algo estava realmente errado.
E ela precisava confirmar suas suspeitas.
---
Enquanto isso, alguns quilômetros dali, Íris nadava lentamente entre um conjunto de formações rochosas que criavam pequenos corredores naturais no fundo do mar.
Era um lugar bonito.
Corais azuis e violetas cresciam nas paredes de pedra, iluminados por algas bioluminescentes que pulsavam com um brilho suave. Pequenos cardumes de peixes transparentes se moviam entre as estruturas como se fossem fragmentos de luz viva.
Normalmente, aquele lugar trazia paz.
Mas naquela noite, a mente de Íris estava longe de qualquer tranquilidade.
Ela diminuiu a velocidade até parar entre duas colunas de coral que se erguiam como torres naturais no fundo do oceano. Ali, o movimento das correntes era mais lento, criando um espaço silencioso onde poucos costumavam passar.
Era perfeito para pensar.
Ou pelo menos tentar.
Íris cruzou os braços sobre o peito e deixou o corpo flutuar levemente.
Quatro noites.
O número parecia repetir-se em sua mente sem parar.
Quatro noites para abandonar tudo o que conhecia.
Quatro noites para deixar o território do Conselho.
Quatro noites para atravessar uma linha que nenhuma sereia havia cruzado voluntariamente por gerações.
Ela olhou para cima.
A superfície do mar parecia distante, uma extensão ondulante de prata e sombras.
Ali em cima estava Noah.
O mundo dele.
O mundo humano.
Íris sentiu um aperto estranho no peito.
Desde pequena, sempre ouvira histórias sobre humanos. Algumas falavam de perigo. Outras de curiosidade. Mas quase todas terminavam da mesma forma: distância.
Humanos e sereias não pertenciam ao mesmo destino.
Era o que sempre diziam.
Mas então Noah apareceu.
E tudo mudou.
Ela ainda lembrava perfeitamente da primeira vez que o viu. O jeito como ele mergulhava sem medo, como explorava as águas com uma mistura de curiosidade e respeito. Não havia arrogância nele, nem o desejo de dominar o oceano como muitos humanos faziam.
Havia admiração.
E quando seus olhares finalmente se encontraram pela primeira vez…
Íris soube que algo havia mudado para sempre.
Ela levou a mão lentamente até a pequena bolsa presa à cintura.
Dentro estavam os três objetos que havia separado.
O colar de sua mãe.
A pedra energética.
E o fragmento de coral adaptativo.
Íris retirou o colar com cuidado.
As pequenas conchas presas ao fio refletiram a luz azulada das algas ao redor.
Era um objeto simples.
Mas carregava algo que Íris nunca conseguira explicar.
Sempre que o segurava, sentia uma conexão estranha com um passado que não conhecia completamente.
— Mãe… — murmurou.
Ela raramente falava aquele nome em voz alta.
Pouco sabia sobre ela.
Apenas fragmentos de histórias contadas pelas guardiãs mais antigas. Uma sereia forte. Curiosa. Diferente das outras.
E então… desaparecida.
Sempre que perguntava mais, as respostas se tornavam vagas.
E Karla… sempre evitava o assunto.
Íris apertou levemente o colar entre os dedos.
— O que você faria no meu lugar?
A água respondeu apenas com silêncio.
Mas dentro dela, uma resposta já começava a tomar forma.
Ela sabia o que queria.
Queria Noah.
Queria descobrir o mundo dele.
Queria sentir o ar da superfície sem medo.
Queria escolher o próprio destino.
Mesmo que isso significasse abandonar o único lar que já conhecera.
Íris colocou o colar novamente na bolsa e respirou fundo.
Ainda havia tempo.
Mas não muito.
---
Entre as sombras de uma formação rochosa distante, Karla observava tudo.
Ela havia seguido Íris com cuidado durante grande parte da noite, mantendo distância suficiente para que a jovem sereia não percebesse sua presença.
Era algo que Karla não gostava de fazer.
Espionar uma guardiã.
Mas algo dentro dela dizia que aquilo era necessário.
E agora, observando Íris parada entre os corais, aquela sensação apenas crescia.
A forma como ela parecia perdida em pensamentos.
A forma como tocava a pequena bolsa.
A maneira como olhava repetidamente para a superfície.
Tudo aquilo era familiar demais.
Karla sentiu uma memória antiga atravessar sua mente como uma corrente fria.
Outra sereia havia feito exatamente os mesmos gestos.
Anos atrás.
A mãe de Íris.
Ela também começara assim.
Momentos de silêncio.
Passeios solitários.
Olhares longos para o mundo acima das ondas.
E então… o humano.
Karla apertou os dedos lentamente.
— Não… — murmurou.
Ela não permitiria que aquilo acontecesse novamente.
Mas precisava de provas.
Precisava ter certeza antes de levar qualquer acusação ao Conselho.
Então observou mais.
E foi nesse momento que viu algo que fez seu coração acelerar.
Íris abriu a bolsa.
Por um breve instante, o brilho suave de uma pedra energética iluminou a água ao redor.
Karla reconheceu imediatamente.
Pedra de viagem.
Um objeto usado por sereias que precisavam se afastar do território por longos períodos.
Ou que planejavam…
Partir.
O sangue pareceu gelar em suas veias.
— O que você está fazendo, Íris…? — murmurou.
Ela observou por mais alguns segundos.
Então outra peça daquele quebra-cabeça voltou à sua mente.
O rumor que algumas guardiãs haviam mencionado dias atrás.
Um humano.
Visto perto da colina submersa.
Um humano que parecia retornar repetidamente às mesmas águas.
Karla fechou os olhos por um momento.
Tudo começou a se encaixar.
Íris.
A inquietação.
A bolsa escondida.
A energia estranha na câmara de reflexão.
E o humano.
Quando abriu os olhos novamente, seu olhar estava diferente.
Mais duro.
Mais preocupado.
— Então é isso…
Ela observou Íris mais uma vez.
A jovem sereia parecia tão pequena naquele momento, flutuando entre os corais enquanto lutava silenciosamente com seus próprios pensamentos.
Por um instante, Karla não viu uma traidora.
Viu apenas uma jovem apaixonada.
Exatamente como outra havia sido antes dela.
Mas a história daquela outra sereia havia terminado em tragédia.
E o oceano ainda carregava as consequências.
Karla respirou fundo.
Depois virou-se lentamente.
Começou a nadar em direção ao território do Conselho, desaparecendo entre as correntes escuras.
Agora ela precisava decidir.
Se estivesse certa…
Íris estava prestes a quebrar uma das leis mais antigas do povo do mar.
E desta vez…
O Conselho poderia não mostrar misericórdia.