Capítulo 10

1315 Words
O Conselho estava reunido na câmara mais profunda da cidade submersa, um espaço vasto e austero, formado por corais negros e minerais que refletiam uma luz azul intensa, criando um ambiente de poder e autoridade. Cada m****o estava sentado em um pedestal natural, envolto por correntes que mantinham a iluminação e energia do espaço equilibradas. Havia silêncio absoluto, interrompido apenas pelo suave burburinho das correntes e pelo som distante da água em movimento. Karla, com os olhos estreitos e a postura rígida, foi a primeira a quebrar o silêncio. — Há sinais. Evidências de visitas externas — disse, a voz grave ecoando pelo anfiteatro natural. — Não posso ignorar. Não podemos ignorar. Os outros membros do conselho trocaram olhares tensos. Kael, sempre o mais ponderado, inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos em seus pedestais. — Explique melhor — disse ele, a voz calma, mas carregada de autoridade. — Que tipo de sinais? — Movimentos anormais nas correntes, alterações em áreas protegidas, fragmentos de energia fora do padrão — Karla respondeu, a frieza na voz contrastando com a tensão nos ombros. — Alguém fora de nosso povo esteve presente. Observando. Tocando. Interagindo. O murmúrio percorreu o anfiteatro, embora silencioso e contido. Cada m****o do Conselho compreendeu imediatamente a gravidade da situação. Um humano, um intruso, havia violado um dos códigos mais sagrados do povo submerso. O choque não era apenas pela presença de Noah, mas pelo fato de que Íris, uma das jovens e mais promissoras guardiãs da tradição, havia permitido que isso acontecesse. — E quem é responsável por isso? — Kael perguntou, a voz agora mais firme. — Quem quebrou as regras? — Íris — disse Karla, direta, apontando com um gesto que fez a água ao redor ressoar com vibração. — Ela conduziu o intruso através de áreas proibidas, permitiu que ele interagisse com nossos rituais, nossos símbolos de p******o. Isto é inaceitável. Íris estava presente, acompanhando a sessão com silêncio pesado, seu coração acelerado. Ela sabia que não havia desculpas. Cada palavra de Karla perfurava o peito dela, e mesmo que estivesse pronta para justificar suas ações por sua própria consciência, sabia que nada poderia alterar a lei do Conselho. — Eu… — começou Íris, a voz baixa, hesitante —, eu não… — — Silêncio! — cortou Karla, a autoridade na voz inegável. — Você sabe exatamente o que fez. E sabe a gravidade de permitir que um humano tivesse acesso a nosso povo e rituais. Você colocou tudo em risco. Nossa história, nossas correntes, nosso equilíbrio. O silêncio voltou, pesado, esmagador. Noah, invisível do lado de fora, não poderia compreender completamente a intensidade daquela situação. Mas para Íris, cada olhar do Conselho era um julgamento, cada gesto uma sentença silenciosa. Ela sentiu a pressão se acumular, não apenas sobre seu corpo, mas sobre sua mente e espírito. Kael inclinou-se levemente para frente, os olhos fixos nela. — Íris — disse ele, a voz carregada de pesar —, você foi avisada inúmeras vezes sobre os perigos de interagir com humanos. Nosso povo não pode tolerar v******o das regras, e você sabia disso. Agora enfrentamos as consequências de sua escolha. — Consequências — repetiu Karla, a voz agora um sussurro que parecia cortar a água —, e essas não podem ser leves. A v******o é grave demais. Íris respirou fundo, sentindo o pânico crescer. Ela sabia que havia colocado Noah em risco, mas também sabia que o que sentia por ele não podia ser ignorado. E mesmo diante da autoridade esmagadora do Conselho, havia uma parte dela que não se arrependia completamente, uma parte que sabia que sua humanidade — ou pelo menos a conexão com o mundo humano — a transformava, a fazia mais completa, ainda que vulnerável. — O Conselho decidiu — disse Kael, a voz firme, sem espaço para discussão —. A medida será tomada imediatamente. A integridade do povo submerso deve ser preservada, e a v******o das regras não pode ser tolerada. Íris sentiu um frio percorrer sua espinha. Ela conhecia o peso da palavra “medida” naquele contexto. Não eram apenas repreensões; eram ações drásticas, às vezes irreversíveis. — Qual será a medida? — perguntou ela, a voz quase um sussurro, tentando manter a calma. — Isolamento profundo — disse Karla, os olhos frios. — Você será removida de suas funções e confinada a uma câmara de reflexão, sem contato com o mundo exterior, sem interação com outros membros do povo submerso, até que seja determinada sua reintegração. A decisão é necessária para preservar o equilíbrio e enviar aviso claro de que qualquer v******o não será tolerada. O golpe emocional foi instantâneo. Isolamento profundo significava separação total de tudo que ela amava e conhecia: do oceano como lar, de Noah, de seus companheiros, da própria rotina que dava sentido à sua existência. Cada detalhe de sua vida submersa, cada ritual, cada gesto, seria negado a ela. — Mas… — começou Íris, tentando argumentar —, Noah não representa ameaça! Ele só quer aprender, compreender… — O fato é que ele é humano — disse Kael, a voz pesada como pedra. — Humanos não podem ser confiáveis. Você não deveria ter permitido sua presença. A ameaça não está na intenção dele, mas na v******o da regra. Íris respirou fundo, sentindo o coração acelerar. Ela sabia que qualquer tentativa de contestar seria inútil. O Conselho já havia tomado a decisão, e seu destino imediato estava selado. Mas mesmo assim, havia uma chama de resistência dentro dela. Uma necessidade silenciosa de proteger Noah e justificar suas escolhas, mesmo sabendo que isso poderia custar caro. — E se eu tentar… contornar? — perguntou ela, hesitante. — Conseguir reparar o erro sem punição? — Você não deve tentar — disse Karla, fria e firme —. Qualquer ação fora do que foi determinado será considerada ainda mais grave. A punição pode se tornar irreversível. O silêncio voltou à câmara, pesado, quase sufocante. Cada respiração de Íris parecia amplificada, cada batida de seu coração ecoava na mente dela como um tambor de alerta. Ela sabia que não havia saída fácil. O conselho havia falado, e sua palavra era lei. Kael inclinou-se para trás, os olhos fixos nela. — Que fique claro — disse ele —, a medida não é apenas para punição, mas para proteger todos. O oceano, nosso povo e nossos rituais dependem do respeito absoluto às regras. E você escolheu ignorá-las. Íris sentiu lágrimas se formar, mas segurou-as. Ela sabia que mostrar fraqueza seria visto como mais desobediência. Cada m****o do Conselho parecia uma rocha viva, impassível e implacável. Mas em seu peito, havia conflito, revolta e medo. Medo de perder Noah, medo de perder sua liberdade, medo de perder a si mesma. — Então… — disse ela finalmente, a voz firme, tentando disfarçar o tremor —, aceitarei a medida. Mas saibam que não arrependerei do que fiz. Se Noah foi visto, se eu permiti sua presença, foi porque ele representa algo que nunca poderia ignorar. O Conselho permaneceu em silêncio, analisando cada palavra. Kael assentiu levemente. — Sua sinceridade é registrada — disse ele —, mas não altera a medida. Você seguirá para a câmara de reflexão imediatamente. Íris fechou os olhos por um instante, sentindo o peso da sentença. Cada batida do coração era lembrança do que estava em risco: sua liberdade, sua reputação, seu vínculo com Noah. Mas também havia uma determinação silenciosa, uma promessa feita a si mesma e ao humano que havia arriscado tudo: ela encontraria uma maneira, eventualmente, de corrigir tudo sem quebrar o equilíbrio que jurara proteger. E enquanto era conduzida para o isolamento, a sombra do oceano ao redor parecia mais densa, mais opressiva, carregando em si não apenas a autoridade do Conselho, mas o peso das escolhas que poderiam mudar para sempre sua vida e a do humano que ousara se aproximar do mundo submerso.
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