Capítulo 34

1222 Words
O sol já começava a desaparecer lentamente atrás do horizonte quando Noah finalmente apareceu no caminho de areia que levava à pequena casa próxima à praia. O céu estava pintado com cores intensas — laranja profundo, rosa suave e faixas douradas que pareciam flutuar sobre o oceano. As ondas reflectiam aquela luz como se fossem feitas de vidro líquido, movendo-se lentamente para frente e para trás. O vento do mar soprava com suavidade, trazendo o cheiro salgado da água e o som distante das gaivotas que voltavam para seus ninhos. Noah caminhava com passos cansados, mas tranquilos. O dia tinha sido longo. Trabalhar com os pescadores da vila nunca era fácil. Redes rasgadas, cordas pesadas, caixas de peixe… tudo exigia esforço. Suas mãos ainda estavam levemente ásperas por causa das cordas molhadas. Mesmo assim, algo dentro dele parecia mais leve. Desde que Íris tinha entrado em sua vida, voltar para casa tinha se tornado o melhor momento do dia. Quando levantou os olhos, ele a viu. Íris estava sentada na areia, a poucos metros da casa, olhando para o mar. Ela parecia completamente imersa naquele horizonte azul que se estendia até perder de vista. Seus pés estavam parcialmente enterrados na areia morna, e a espuma das ondas vinha tocar seus dedos antes de recuar novamente. Seus cabelos longos dançavam com o vento. Por um instante, Noah simplesmente parou. Aquela cena parecia quase irreal. Íris tinha algo diferente. Algo que ele não conseguia explicar completamente. Era como se ela pertencesse àquele lugar mais do que qualquer outra pessoa. Como se fosse parte do próprio mar. Talvez por isso ele tivesse se sentido tão atraído por ela desde o começo. Quando Íris finalmente percebeu a presença dele, virou o rosto rapidamente. Os olhos azuis dela brilharam imediatamente. Um sorriso iluminou seu rosto. Ela levantou-se com um pequeno impulso, ainda se acostumando com a firmeza das pernas humanas, e caminhou até ele pela areia. — Noah! — disse ela, com alegria sincera. Ele abriu um sorriso cansado, mas feliz. — Eu disse que voltaria. Íris aproximou-se dele e o observou por alguns segundos. — Você parece cansado. Noah deu uma pequena risada. — Um pouco. — Trabalhar é difícil — disse ela, pensativa. — Às vezes. Ela inclinou a cabeça levemente. — Humanos fazem muitas coisas difíceis todos os dias. — Faz parte da vida — respondeu ele. Íris ficou em silêncio por alguns segundos. O vento soprou novamente entre eles. — Como foi seu dia? — perguntou Noah. Ela olhou novamente para o mar. — Diferente. — Diferente como? — Silencioso — respondeu ela. Noah ergueu uma sobrancelha. — Silencioso? Ela assentiu. — No oceano, nunca existe silêncio completo. Sempre há movimento… água, correntes, peixes, vozes distantes. Ela respirou fundo. — Aqui… quando você saiu… parecia que o mundo ficou muito quieto. Noah percebeu algo no tom dela. — Você ficou com medo? Íris pensou na pergunta. Aquela sensação estranha que tinha sentido durante o dia voltou à mente. A impressão de que alguém estava observando. Mas ela não tinha visto ninguém. — Não exatamente medo — respondeu ela. — Apenas… estranho. Noah assentiu. — Você vai se acostumar. Ele olhou para o céu. A noite começava a cair lentamente. — Vamos entrar. Os dois caminharam juntos até a casa. A pequena casa de madeira parecia ainda mais aconchegante naquele momento do dia. A luz do entardecer entrava pelas janelas abertas e iluminava o interior com tons quentes e suaves. Noah deixou algumas ferramentas sobre a mesa. Então pareceu lembrar de algo. Ele colocou a mão no bolso da camisa. — Eu trouxe algo para você. Íris virou-se curiosa. — Para mim? Noah tirou do bolso uma pequena caixa. Era simples, feita de madeira clara, mas estava bem cuidada. Íris aproximou-se lentamente. — O que é? — Abra. Ela pegou a caixa com cuidado e levantou a tampa. Seus olhos se arregalaram. Dentro havia um colar delicado. A corrente era prateada e fina. Mas o que realmente chamava atenção era o pingente. Uma pequena sereia. Esculpida com detalhes delicados — a cauda cheia de pequenas escamas, os cabelos ondulados, o corpo elegante. Parecia quase viva. Íris ficou completamente em silêncio por alguns segundos. — É… uma sereia — disse ela em voz baixa. Noah sorriu. — Eu vi na vila hoje. Pensei em você. Íris pegou o colar com cuidado. Para um humano talvez fosse apenas um acessório bonito. Mas para ela… Era como uma pequena lembrança de quem ela realmente era. — Eu nunca tive algo assim — disse ela. Ela levantou os olhos para Noah. — Obrigada. — Quer que eu coloque? — perguntou ele. Ela virou-se de costas. — Sim. Noah levantou o colar e colocou delicadamente ao redor do pescoço dela. Seus dedos tocaram levemente a pele de Íris enquanto fechava o fecho atrás do pescoço. Ela sentiu um pequeno arrepio percorrer seu corpo. Íris levou os dedos até o pingente. A pequena sereia brilhava suavemente sob a luz da casa. — É lindo… Noah observou a expressão dela. E sorriu. — Combina com você. A noite caiu completamente pouco tempo depois. As estrelas começaram a surgir no céu, uma a uma. Dentro da casa, a luz era suave. Apenas uma pequena lamparina iluminava o espaço. Íris e Noah sentaram-se no pequeno sofá perto da janela. O vento do mar fazia as cortinas se moverem lentamente. Íris encostou a cabeça no ombro dele. — Os humanos sempre ficam assim… perto? — perguntou ela. Noah riu baixinho. — Quando gostam um do outro, sim. Íris sorriu. Ela passou o braço ao redor dele, imitando um gesto que havia observado entre humanos. Noah puxou uma manta leve e a colocou sobre os dois. O calor do corpo dele era confortável. Seguro. Íris segurou o pingente de sereia entre os dedos. — Noah? — Sim? — Eu gosto do mundo humano. Ele sorriu. — Fico feliz. Ela olhou para ele. — Porque você está nele. Noah não respondeu. Apenas aproximou-se um pouco mais. E beijou-a novamente. Dessa vez o beijo foi mais demorado. Mais natural. Íris fechou os olhos e deixou-se levar pela sensação. Quando se afastaram, ela estava sorrindo. — Eu gosto disso também — disse ela. Eles ficaram ali por muito tempo, abraçados. O silêncio da casa era confortável. Mas do lado de fora… Algo se movia na escuridão. Entre as árvores e as sombras da vila, a figura misteriosa havia voltado. A pessoa caminhava lentamente ao redor da casa. Passos silenciosos. Olhos atentos. A figura parou perto de uma das janelas. Lá dentro, podia ver os dois sentados juntos. Abraçados. O brilho do colar refletiu brevemente a luz da lua. A figura estreitou os olhos. — Um colar de sereia… — murmurou. A pessoa permaneceu observando por alguns segundos. — Ele realmente não sabe quem ela é. A figura caminhou lentamente até a parte de trás da casa. A expressão permanecia séria. — Uma sereia vivendo entre humanos… A voz saiu quase como um suspiro. — Isso nunca termina bem. Dentro da casa, Íris já estava quase adormecendo encostada em Noah. A respiração dela era tranquila. Os dedos ainda seguravam o pequeno pingente. Mas do lado de fora… A figura misteriosa continuava rondando a casa. Observando. Esperando. Como uma sombra paciente na noite. E aquela calma… Não duraria para sempre.
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