A noite já estava completamente instalada sobre a pequena vila costeira quando Íris, Noah e a amiga dele começaram a deixar o cais. A lua havia subido mais alto no céu, iluminando o caminho de areia com um brilho prateado que fazia cada detalhe parecer mais calmo e silencioso.
O oceano respirava lentamente contra a costa, como uma criatura gigante adormecida. As ondas quebravam suavemente contra os pilares de madeira do cais, produzindo um som ritmado que ecoava na mente de Íris como uma melodia familiar.
Ela caminhava alguns passos atrás de Noah e de sua amiga, ainda sentindo aquela estranha vibração dentro de si.
Era uma sensação difícil de explicar.
Não era exatamente medo.
Nem apenas saudade.
Era como se algo no fundo do mar estivesse despertando… chamando por ela.
Íris olhou mais uma vez para o oceano.
A água estava escura, mas a lua refletia-se nela como um caminho luminoso que se estendia até o horizonte.
Por um instante, ela teve a estranha impressão de que algo se movia entre as sombras das rochas.
Mas quando piscou e olhou novamente, não havia nada ali.
Ou pelo menos… nada que seus olhos conseguissem perceber.
Escondida atrás de uma grande rocha próxima ao cais, uma figura permanecia completamente imóvel.
A pessoa observava tudo com atenção silenciosa.
O corpo permanecia oculto pela escuridão, mas os olhos refletiam levemente a luz da lua.
Fixos em Íris.
A figura havia notado desde o primeiro momento em que ela chegou perto da água.
A maneira como ela se movia.
A forma como seus passos eram leves demais.
A intensidade com que olhava para o oceano.
Como se pertencesse a ele.
— Interessante… — murmurou a figura em voz quase inaudível.
Não era comum ver alguém assim naquela vila.
Muito menos alguém que parecia carregar o próprio mar dentro dos olhos.
A figura inclinou levemente a cabeça, observando Íris caminhar pela praça ao lado de Noah.
Algo dentro daquela pessoa dizia que havia muito mais naquela garota do que qualquer humano comum poderia imaginar.
Então, silenciosamente, a figura começou a segui-los.
Passos cuidadosos.
Movimentos calculados.
Sempre mantendo distância suficiente para não ser notada.
Enquanto isso, Íris caminhava pela praça iluminada, absorvendo cada detalhe ao seu redor.
Algumas lanternas ainda estavam acesas nos postes de madeira. Pequenos grupos de moradores conversavam tranquilamente em bancos próximos às casas.
Um rádio antigo tocava uma música suave que flutuava pelo ar noturno.
Íris parou por um momento, inclinando levemente a cabeça.
— O que é isso? — perguntou.
Noah seguiu o olhar dela até o rádio.
— Música.
Ela escutou atentamente.
A melodia era diferente de tudo que já tinha ouvido no oceano.
No fundo do mar, o canto das sereias era profundo, carregado de emoção e poder.
Aquilo era mais leve.
Mais simples.
Mas ainda assim bonito.
— No oceano também temos música — disse Íris suavemente. — Mas ela vem das vozes.
— Das sereias? — perguntou Noah.
Ela assentiu.
— Sim. Cantamos para celebrar, para chamar umas às outras… às vezes para acalmar o mar.
A amiga de Noah riu levemente.
— Isso parece poesia.
Íris não respondeu.
Para ela, aquilo era simplesmente a vida.
Eles continuaram caminhando.
Aos poucos, a vila começava a ficar mais silenciosa. Algumas casas apagavam suas luzes enquanto as pessoas se preparavam para dormir.
A amiga de Noah bocejou discretamente.
— Acho que vou voltar para casa — disse ela. — Amanhã preciso acordar cedo.
Noah assentiu.
— Claro.
Ela virou-se para Íris com um sorriso amigável.
— Foi muito bom te conhecer.
Íris sorriu de volta, um pouco mais confiante agora.
— Também gostei de conhecê-la.
A amiga acenou e começou a caminhar pela rua de areia até desaparecer entre as casas da vila.
Agora restavam apenas Íris e Noah.
E, nas sombras silenciosas da rua, a figura misteriosa ainda os observava.
Íris caminhava ao lado de Noah em silêncio.
A brisa noturna era suave e fresca.
As estrelas brilhavam intensamente acima deles.
— Você gostou da vila? — perguntou Noah depois de alguns minutos.
Íris pensou antes de responder.
— Sim… muito.
Ela olhou ao redor.
— Os humanos criaram muitas coisas bonitas.
— Mas?
Ele percebeu que havia mais naquela resposta.
Ela suspirou levemente.
— Mas também é complicado.
Noah levantou uma sobrancelha.
— Complicado?
— Humanos sentem muitas coisas ao mesmo tempo — explicou ela. — Curiosidade, alegria… ciúmes.
Noah parou de caminhar.
— Ciúmes?
Íris ficou um pouco sem graça.
— Talvez.
Ela olhou para o chão de areia por um momento.
— Hoje… quando sua amiga estava falando com você… eu senti algo estranho aqui.
Ela colocou a mão sobre o peito.
— Como se algo apertasse.
Noah sorriu suavemente.
— Isso é ciúmes.
Ela levantou os olhos surpresa.
— No oceano também existe isso?
— Acho que sim — respondeu ele.
Íris ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou em voz baixa:
— Eu não gostei de sentir isso.
— É normal — disse Noah com calma. — Significa que você se importa.
Eles ficaram parados no meio da rua de areia.
A lua iluminava suavemente o rosto de Íris.
Seus olhos azuis brilhavam como a superfície do mar sob a luz da lua.
— Noah… — disse ela.
— Sim?
— No oceano, quando duas sereias sentem algo especial uma pela outra… elas cantam juntas.
Ele sorriu.
— E no mundo humano?
Ela hesitou.
— Eu ainda estou aprendendo.
Noah deu um passo mais perto dela.
O coração de Íris acelerou imediatamente.
Ela podia sentir o calor dele tão próximo.
Era uma sensação completamente nova.
No mar, os toques eram diferentes.
Ali, tudo parecia mais intenso.
Mais real.
Noah levantou lentamente a mão e tocou o rosto dela com delicadeza.
Íris prendeu a respiração.
O toque dele era quente.
Gentil.
Seus dedos deslizaram suavemente pela bochecha dela.
— Posso te mostrar? — perguntou ele em voz baixa.
Íris apenas assentiu.
Os rostos deles ficaram cada vez mais próximos.
Ela podia sentir a respiração dele.
Seu coração batia tão forte que parecia ecoar dentro do peito.
Por um instante, ela teve vontade de fugir para o mar.
Não por medo.
Mas porque aquela emoção era intensa demais.
Então Noah inclinou-se lentamente.
E a beijou.
Foi um beijo suave.
Delicado.
Quase como se ele tivesse medo de quebrar aquele momento.
Íris ficou imóvel por um segundo.
A sensação era completamente nova.
Seus lábios nunca haviam tocado os de outro humano.
Era quente.
Era estranho.
Mas também… incrivelmente bonito.
Ela fechou os olhos lentamente.
E respondeu ao beijo.
O mundo pareceu desaparecer por alguns segundos.
Quando finalmente se afastaram, os dois ficaram em silêncio.
Íris levou a mão até os próprios lábios.
— Isso foi…
Ela não sabia como terminar a frase.
Noah riu suavemente.
— No mundo humano chamamos isso de beijo.
Íris sorriu.
— Eu gostei.
Mas do outro lado da rua…
Entre sombras profundas formadas pelas casas e pelas árvores da vila…
A figura misteriosa observava tudo.
Sem perder um único detalhe.
Os olhos da pessoa estreitaram-se lentamente.
Agora não havia mais dúvida.
Aquela garota não era apenas estranha.
Ela era uma sereia.
A figura recuou um passo na escuridão.
— Então é verdade… — murmurou.
Ela virou-se lentamente e começou a desaparecer pela rua silenciosa da vila.
Mas antes de sumir completamente, murmurou algo quase levado pelo vento:
— O oceano sempre cobra o que lhe pertence…
E muito em breve…
Alguém viria buscar Íris.