Capítulo 2

1486 Words
- Eu não acredito que ele teve a ousadia de dizer que vocês vão ser da família, cretino desgraçado. - Jú rosnava enquanto eu contava a ela a desagradável surpresa no café de ontem. - Sabe a verdade é que não é de hoje que Bento merece uma surra, das bem dadas. Devia ter me dito ontem ao invés daquele seco cheguei que me contou por mensagem. - Relaxa amiga, não adianta esbravejar e estressar. Honestamente não sei qual o problema do Bento, eu fiquei sim com muita raiva no começo mas a vida seguiu, não entendo o que se passa na cabeça dele de ficar me alfinetando toda, rara vez, que nos encontramos. Se eu tivesse dito você teria ligado e não me deixaria dormir. - Você está certa quanto a eu não deixar você dormir. Quanto ao Bento, de verdade? - Concordei com a cabeça, sabia que vinha bobeira mas não havia nada em que eu pudesse fazer para segurar sua língua semeadora da discórdia - Acho que quem não superou foi ele viu, ele perdeu uma mulher linda, inteligente, educada, independente para ficar com uma magrela mimada e fútil. - Não fale assim da Clarissa, ela pode ser mimada sim mas está longe de ser fútil, ela é interessante e despojada, coisa que eu nunca fui. Ela é animada e leva muito a sério o trabalho dela na galeria da mãe dela. - Você quer dizer sua galeria também né? Até porque seu pai investiu e muito nesse negócio com a Sandra e a parte que o diz respeito é em seu nome que está. - Como se eu fosse querer qualquer tipo de relacionamento profissional com qualquer um deles, claro que não tenho nada contra Sandra, já não tinha antes mas, depois que ela deixou de apoiar a filha para ficar ao meu lado, minha madrasta subiu ainda mais no meu conceito. Agora deixemos de conversa mole a vamos voltar ao trabalho, além desta ainda temos mais obras para acompanhar. Estávamos com quatro obras em andamento em diferentes pontos da cidade, e uma delas, em uma cidade vizinha, todas elas em fase de acabamento e agora que vinha a pior parte pois além da pressão do cumprimento do prazo, é nessa hora que temos contato com empresas terceirizadas, para clientes que compraram na planta e querem fazer um apartamento planejado ou efetuar mudanças antes de se mudar para seu novo lar. Nessa hora que entra minha estimável amiga Júlia Barroso, ela é dona de uma empresa de móveis planejados, a empresa que costumamos indicar e já embutir o valor do seu serviço nas prestações, para o cliente pagar uma parcela só. Além dela temos outras empresas parceiras como de paisagismo e seguranças, então essa é a parte tensa do negócio. Já se passava das quinze horas e estávamos, eu e Júlia, agora na nossa última obra, a obra onde o tal Carlos trabalha, o que me faz lembrar que preciso saber mais dele não quero receber chantagens ou ter algum outro tipo de surpresa desagradável, o que me faz ligar no recursos humanos da empresa e solicitar a documentação completa de todos os funcionários do Edifício Coliseu e mandar uma mensagem para meu amigo Elias levantar a capivara do cidadão. Elias estudou comigo os dois primeiros anos da faculdade quando concluiu que não queria, de forma alguma, ser um engenheiro e contra todas as nossas expectativas e apostas e cursos motivacionais, decidiu seguir carreira de detetive particular. No começo jurei que ele estava ficando louco e tentei convencer ele de fazer o contrário mas fui surpreendida pela quantidade de clientes que ele conseguiu somente em seu primeiro mês, mulheres de homens poderosos pagam fortunas para saber os passos de seus maridos. Menos de duas horas depois de nossa chegada a obra estávamos praticamente no final da inspeção, eu já havia passado tudo o que consegui com o RH para o Elias e ele me prometeu um relatório completo até as vinte horas. Julia apoiou totalmente quando revelei a ela minha intenção de procurar por Elias, já que ela também estava preocupada e com certeza estaria comigo quando o relatório chegasse, ela deixou isso muito claro quando se convidou para ir da obra direto para o meu apartamento, pedirmos uma pizza e esvaziar uma garrafa dos meus vinhos caros. Sempre gostei de inspecionar obras de edifícios de cima para baixo pelo simples fato de me parecer mais lógico terminar e já estar na portaria, na cara do gol, para ir embora. Quando estávamos então inspecionando o térreo com seu pequeno hall, dois banheiros de uso comunitário e os elevadores avisto Carlos. - Ele é mais bonito do que eu me lembrava. Tive que concordar com Júlia, mas o fiz somente com um aceno de cabeça pois o mesmo começou a se aproximar assim que nos viu, tirei meu capacete e ajeitei levemente os cabelos no momento exato que ele nos alcançou. - Boa tarde moças, quero dizer senhoras. - Ele estava um pouco enrolado e parecia procurar palavras. - Preciso falar que fomos vistos saindo da obra juntos ontem e está rolando um buxixo sobre nós e quero saber da senhora o que quer que eu faça quanto a isso. - Boa tarde Carlos, bom eu esperava que isso acontecesse, não tão rápido, mas já contava com isso. Espero que seja discreto, que não confirme e nem negue, afinal seremos vistos juntos algumas vezes mais aqui na obra, para dar base a nossa história. - Vocês precisam parecer que se conhecem, vão ter que parar para uma pequena conversa toda vez que se encontrarem na obra. Umas olhadas com o canto de olho aqui, um sorriso discreto ali, um esbarrão proposital uma vez ou outra e todos vão comprar a ideia. - Isso mesmo Júlia, é o que precisamos fazer. - Certo então, bom se a senhora puder anotar o meu telefone - disse me estendendo um papel - temos que combinar horários e principalmente escolher um dia para comprarmos as roupas e sapatos e seja lá o que mais a senhora dizer ser necessário. Alcancei o papel da mão dele, dei uma rápida olhada e guardei o papel no bolso do meu guarda-pó, olhei para Carlos e sorri ligeiramente. Eu ainda não havia percebido, mas Júlia me deu um cutucão o que me fez ver que estávamos sendo observados. Carlos acenou para nós duas e saiu sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. - Pai - falei recebendo um abraço caloroso dele que logo depois fez o mesmo com a minha amiga - A que devemos a honra da visita inusitada do Senhor Pedro Borges em sua humilde construção? - E isso é jeito de falar com o seu pai Marise? Eu estava fechando um negócio aqui por perto e pensei em passar para dar um abraço na minha filha fujona, sinto sua falta nos almoços de domingo, acho que já passou da hora minha filha, voltamos a conviver como uma família. Eu sei o quanto deve ser difícil meu amor, mas o que aconteceu não muda o fato de sermos família. - Infelizmente não muda pai e a família agora está para crescer não é? - Sim meu amor, mas por favor, não deixe que isso nos afaste, podemos marcar e jantarmos toda quinta, só eu e você, o que acha? Sim com tudo o que havia acontecido eu acabei me distanciando do meu pai, ele continua me amando e me protegendo mas a verdade é que ele ama Clarissa também e nunca seria capaz de escolher entre nós duas e eu sempre soube disso e jamais pediria isso a ele. - O que eu não faço pelo meu velho pai? - rimos - Quinta vai ser meu dia favorito da semana. Meu pai sorriu e me beijou no topo da cabeça, olhou para Júlia e bagunçou carinhosamente os cabelos, como fazia quando éramos mais novas, me deu uma piscadela e foi em direção ao SUV escuro e blindado, onde o seu motorista o esperava. - É minha amiga, ele está certo, não perca também o seu velho por causa da Clarissa e você sabe que ele viu né? Com certeza vai ser a primeira coisa que ele vai perguntar para você no jantar desta quinta. - Sim, eu sei. Agora vamos embora, acho que vou precisar esvaziar mais de uma garrafa dos meus “vinhos caros”. - Marise Borges optando por encher a cara no dia de semana, acredito que seja realmente o fim dos tempos. - Deixa de ser palhaça ou não te mostro o arquivo que o Elias vai me mandar. - Sua chantagista desalmada. Vamos tirar esses trecos, - disse apontando para os seus equipamentos - hoje durmo na sua casa. De fato tem horas que Júlia é mandona e folgada, mas eu não sei mesmo o que seria de mim sem ela.
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