## CAPÍTULO 15: O Eco do Berço Vazio (Ponto de Vista de Arthur e Beatriz Albuquerque)
### Beatriz
O som das risadas fúteis e o tilintar das taças de cristal de *champagne* ao meu redor pareciam apenas um ruído de fundo irritante. Para quem olhava de fora, Arthur e eu éramos a própria imagem do sucesso e da estabilidade. Vestida em um longo de alta-costura azul-da-prússia e usando um colar de safiras que pertenceu à minha avó, eu deveria estar sorrindo ao lado do meu marido na área VIP do Baile de Outono do Saint-Valéry.
Mas, por dentro, eu era apenas uma casca. Uma mãe que vivia pela metade.
Dezoito anos. Dezoito longos anos se passaram desde aquela noite fria de inverno no hospital particular de nossa família. Eu me lembrava de cada detalhe: a dor do parto, o choro duplo e estridente que encheu a sala de cirurgia, o calor de duas meninas idênticas e perfeitas deitadas contra o meu peito. Victória e... ela.
*Minha outra menina.* Minha pequena fênix.
O sequestro na mesma noite, a falha de segurança imperdoável, os berços separados antes mesmo que tivéssemos tempo de registrá-la. Arthur moveu céus e terra. Gastamos fortunas com investigadores, detetives internacionais, subornos a policiais e buscas obsessivas por todo o país. Mas o rastro dela parecia ter evaporado no ar.
Olhei de relance para Victória na pista de dança, vestindo seu vestido vermelho-fogo, gesticulando com arrogância para as amigas. Eu a amava, é claro. Mas Victória crescera fria, mimada, vazia de empatia — uma cópia endurecida da elite que a cercava. E, em meu coração, eu sempre soube que uma parte da minha alma tinha ido embora com a irmã dela. Eu nunca parei de procurar. Toda garota loira de olhos azuis com a idade dela que eu via na rua fazia meu coração saltar no peito, numa eterna e dolorosa busca por um milagre.
### Arthur
Eu mantinha a mão firme ao redor da cintura de Beatriz, sentindo a leve tensão em seu corpo. Eu conhecia minha esposa melhor do que ninguém. Sabia que ela não estava realmente ali, no baile do Saint-Valéry. Ela estava, como em quase todos os momentos de silêncio de nossas vidas, naquele quarto de hospital de dezoito anos atrás.
Como patriarca dos Albuquerque, eu tinha que manter a postura de aço. Eu liderava um império de negócios, lidava com políticos, juízes e bilionários diariamente. Mas a minha maior derrota pessoal — o único fracasso que eu nunca consegui consertar com todo o meu dinheiro — era não ter conseguido trazer nossa filha caçula de volta para os braços de Beatriz.
— Você está bem, meu amor? — sussurrei perto do ouvido dela, apertando seu ombro de leve.
— Apenas cansada, Arthur — Beatriz respondeu com um sorriso fraco, os olhos marejados enquanto observava os jovens dançando na pista. — Às vezes, olhar para todos esses adolescentes... só me faz pensar em como ela seria hoje. Será que ela estaria aqui? Dançando? Rindo?
Eu engoli em seco, sentindo a velha e conhecida culpa queimar minha garganta.
— Nós vamos encontrá-la, Beatriz. Eu prometi a você. Eu nunca vou parar de assinar os cheques para as agências de investigação. Nem que leve a minha vida inteira.
Nossos sussurros foram interrompidos quando a dinâmica da pista de dança mudou drasticamente.
### O Choque de Beatriz
O murmúrio no salão aumentou de tom. Do camarote VIP, Arthur e eu nos inclinamos ligeiramente sobre o parapeito de mármore para ver o que estava acontecendo.
Bernardo Castiglione, o herdeiro arrogante dos nossos amigos e sócios, havia acabado de invadir a pista com uma fúria visível no olhar, interrompendo a dança de Victória... não, ele não estava ligando para Victória. Ele havia encurralado uma garota loira de vestido verde-esmeralda.
— Quem é aquela garota dançando com o Bernardo? — Arthur franziu a testa, ajustando os óculos. — Não me lembro de ter visto essa menina nas reuniões de pais.
Eu não respondi. Meus olhos travaram na garota.
Ela tinha cabelos de um dourado brilhante que caíam em ondas, a pele de uma porcelana impecável e uma postura... uma elegância natural e altiva que parecia gritar nobreza, mesmo que ela estivesse usando um vestido visivelmente sem etiquetas de grife. E quando ela ergueu o rosto para encarar Bernardo desafiadoramente, meu coração parou de bater por um segundo inteiro.
Os olhos dela. Eram de um azul-safira idêntico ao das safiras no meu pescoço. Idêntico aos olhos da minha própria mãe. Idêntico ao olhar que eu via no espelho todas as manhãs.
— Arthur... — minha voz falhou, tornando-se um fio fraco. Segurei o braço do meu marido com tanta força que minhas unhas quase rasgaram o tecido do terno dele. — Arthur, olhe para ela.
— Beatriz, acalme-se, é só uma aluna...
— Não! Olhe para o rosto dela! — eu quase gritei, sentindo uma onda de eletricidade e desespero percorrer cada terminação nervosa do meu corpo. Uma intuição materna, violenta e inquestionável, explodiu no meu peito. — Arthur, não é possível... Ela se parece tanto... tanto com...
Nesse exato momento, Bernardo girou a garota de verde na dança com uma possessividade brusca. O movimento rápido fez com que uma corrente fina de elos delicados, que estava escondida sob o decote dela, escorregasse para fora do vestido verde-esmeralda.
O pingente redondo de ouro envelhecido brilhou intensamente sob os lustres de cristal do salão.
Uma fênix entalhada à mão. Três pequenas safiras na base.
A joia de família que eu mesma havia desenhado para o batizado das minhas filhas gêmeas. A joia que sumiu junto com a minha bebê dezoito anos atrás.
Minha taça de champagne escorregou dos meus dedos, estraçalhando-se no chão de mármore em dezenas de pedaços brilhantes. O barulho foi engolido pelo meu próprio grito sufocado.
— Arthur! A medalha! É a fênix dela! — as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto descontroladamente. Eu não conseguia mais respirar. — É ela, Arthur! É a nossa menina! Ela está viva!
Sem esperar meu marido, sem me importar com as aparências, os saltos ou os olhares chocados da alta sociedade, eu empurrei os seguranças da área VIP e comecei a descer as escadarias em direção à pista de dança, movida pelo maior milagre de toda a minha vida.