capítulo 16

933 Words
CAPÍTULO 16 O estilhaçar do cristal da taça de Beatriz Albuquerque foi um prenúncio do caos. Quando a Sra. Albuquerque desceu as escadarias do camarote real com as mãos estendidas, as lágrimas borrando sua maquiagem impecável e os olhos fixos no peito de Raissa, o salão de festas do Saint-Valéry pareceu prender a respiração. — Minha filha... A medalha... É a minha menina! — o grito de Beatriz ecoou, agudo e desesperado, cortando a melodia da valsa. Arthur Albuquerque vinha logo atrás, o rosto pálido de choque, os olhos cravados na fênix de ouro que brilhava contra o vestido verde-esmeralda de Raissa. Raissa deu um passo para trás, o corpo inteiro tremendo. A intensidade do olhar daquela mulher rica, o desespero em sua voz e os sussurros de choque que imediatamente começaram a se espalhar pelos casais da pista de dança a atingiram como um golpe físico. Ela olhou para Bernardo, cujas mãos ainda envolviam sua cintura. Os olhos cinzentos dele estavam arregalados, fixos na medalha e depois no rosto de Raissa. Pela primeira vez, Bernardo parecia completamente mudo, desarmado pela magnitude do que estava acontecendo. — Não... — sussurrou Raissa, sentindo uma claustrofobia sufocante. — Isso é um engano. Vocês estão loucos. — Raissa, espere! — gritou Alice, tentando abrir caminho pela multidão de estudantes que começava a se aglomerar ao redor delas. Victória empurrou os alunos na borda da pista, o rosto vermelho de ódio e negação pura. — Mãe! O que você está fazendo?! Essa garota é uma bolsista imunda! Ela deve ter roubado essa joia! Não chegue perto dela! A palavra "roubada" e os gritos de Victória foram o limite para o psicológico de Raissa. Sentindo-se encurralada por flashes de celulares, olhares de desprezo misturados com choque, e a aproximação desesperada de Beatriz, Raissa soltou-se do aperto de Bernardo com violência. — Não me toquem! — ela gritou, a voz embargada pelas lágrimas que finalmente transbordaram. Ela deu as costas para a alta sociedade, para a pista de dança e para os Albuquerque. Apertando a saia do vestido verde-esmeralda com uma das mãos, ela correu. Suas sapatilhas batiam contra o mármore polido enquanto ela disparava em direção às grandes portas de vidro do ginásio, empurrando quem estivesse no caminho. Raissa atravessou as portas e colidiu com a barreira de ar frio da noite. A névoa de outono havia se transformado em uma tempestade violenta. A chuva caía em cortinas pesadas, ensopando seus cabelos dourados e o vestido de cetim em questão de segundos. Ela não se importou. Continuou correndo pelos jardins góticos do Saint-Valéry, as lágrimas se misturando à água fria que lavava seu rosto. Ela precisava ir para casa. Precisava da segurança dos braços de Helena. No salão de festas, dois homens não hesitaram. — Raissa! — gritou Lucas Dumont, saltando da pista de dança e correndo em direção à saída, ignorando o terno caro e as poças de água que já se formavam do lado de fora. Mas ele não foi o mais rápido. Bernardo Castiglione passou por Lucas como um raio. O ciúme possessivo que o dominava agora havia se transformado em um desespero cego e protetor. Ele viu o pânico nos olhos azuis dela antes de ela fugir. Ele sabia como aquela elite podia ser c***l, e a ideia de Raissa sozinha, desamparada sob aquela tempestade, fez seu coração bater em um ritmo frenético e doloroso. — Saia da minha frente, Dumont! — rosnou Bernardo, empurrando a porta de vidro com força e correndo sob a chuva torrencial. — Bernardo, ela está assustada por sua causa! Deixe-a em paz! — Lucas gritou de volta, correndo logo atrás pela grama encharcada. A perseguição se estendeu pelos limites do colégio. Raissa correu em direção à avenida principal, na esperança de encontrar um táxi, mas a rua estava deserta devido à força do temporal. O vento frio soprava sua pele, fazendo-a tremer violentamente. Seus pés descalços — ela havia abandonado as sapatilhas pelo caminho — doíam ao colidirem com o asfalto frio. — Raissa! Para! — a voz de Bernardo ecoou atrás dela, misturando-se ao barulho dos trovões. Ela olhou para trás por um segundo, os cabelos loiros colados ao rosto. Viu a silhueta alta de Bernardo correndo em sua direção, o terno cinza completamente encharcado, os olhos cinzentos brilhando com uma determinação obsessiva sob a luz dos postes de iluminação pública. Mais atrás, Lucas tentava alcançá-los. Raissa tentou acelerar o passo, mas seu pé escorregou na lama da calçada. Ela soltou um grito curto quando perdeu o equilíbrio, caindo de joelhos no chão molhado. Antes que ela pudesse se levantar, duas mãos grandes, firmes e quentes a ergueram com cuidado do chão. Bernardo ajoelhou-se ao seu lado na calçada encharcada. Ele a puxou contra o peito com uma força quase desesperada, envolvendo-a em seus braços robustos, protegendo-a da chuva com o próprio corpo. — Eu te peguei... Eu te peguei — Bernardo sussurrou, a respiração ofegante perto do ouvido dela. Seus braços tremiam. O herdeiro frio e arrogante estava completamente quebrado ali, no meio da tempestade, implorando silenciosamente pelo perdão da garota que ele tanto maltratou. Raissa tentou empurrar, mas estava fraca demais, consumida pelo frio e pelo choque da revelação. Ela encostou a testa molhada no peito dele, chorando baixinho enquanto a tempestade desabava sobre eles. Lucas parou a poucos metros de distância, ofegante. Ele viu a cena e, pela primeira vez, percebeu que, por mais que tentasse proteger Raissa, a ligação entre ela e Bernardo — tecida por ódio, dor e um desejo incontrolável — era algo que ninguém no mundo seria capaz de romper.
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