CAPÍTULO 10: O Som do Vidro Quebrando
O casarão da biblioteca municipal, localizada no centro histórico da cidade, era o oposto do luxo asséptico do Saint-Valéry. Suas paredes eram cobertas por estantes de carvalho escuro que iam até o teto, e o aroma de café fresco misturava-se ao cheiro de papel antigo. Era ali, em uma das salas de estudos privadas com divisórias de vidro fosco, que Raissa, Lucas e Alice haviam se reunido naquela tarde chuvosa.
Lucas havia cumprido sua promessa. Sobre a mesa de madeira rústica, além de calhamaços de anotações sobre o Renascimento italiano, havia uma caixa de bombons finos de sua confeitaria familiar.
— Então, o segredo para entender a perspectiva de Brunelleschi é focar na linha do horizonte — explicava Lucas, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa para desenhar um diagrama no caderno de Raissa.
Seus cabelos castanhos quase roçavam os ombros dela, e ele riu baixinho de alguma piada que fizera. Raissa sorriu de volta, sentindo uma leveza que há muito tempo não experimentava. Ao lado, Alice fingia ler um livro, mas seus olhos verdes estavam atentos ao celular, trocando mensagens com o assistente do escritório de advocacia de seu pai sobre um arquivo antigo do hospital Saint-Mathieu.
A atmosfera tranquila, contudo, foi estraçalhada em um segundo.
O som metálico e seco de passos pesados ecoou no piso de madeira. A porta de correr de vidro da sala de estudos foi empurrada com tanta violência que o trinco bateu contra o batente com um estalo perigoso.
Bernardo estava parado no vão da porta.
### O Confronto de Bernardo
Ele usava um sobretudo preto sobre o uniforme do colégio, os ombros levemente úmidos da garoa fina que caía lá fora. Seus cabelos escuros estavam desalinhados, caindo sobre a testa, e seus olhos cinzentos pareciam duas lâminas de metal prontas para o abate. O maxilar dele estava tão cerrado que os músculos de seu pescoço pareciam cordas retas de tensão.
— Que cena patética — zombou Bernardo, a voz fria e cortante ricocheteando nas paredes estreitas da sala. Ele deu um passo para dentro, invadindo o espaço sem pedir licença.
Raissa ergueu-se da cadeira no mesmo segundo, o corpo tenso de imediato, assumindo sua postura de defesa.
— O que você está fazendo aqui, Bernardo? Este lugar não é do seu colégio particular. Saia.
— Eu vou para onde eu quiser, bolsista — Bernardo rebateu, olhando-a de cima a baixo com um desprezo que parecia gelo puro, embora seus olhos queimassem de um ciúme doentio ao notar a proximidade física entre ela e Lucas. Ele apontou com o queixo para a caixa de bombons sobre a mesa. — Vejo que você encontrou um jeito bem rápido de se alimentar de graça. Já começou a cobrar pelas horas de estudo, Raissa? Ou o herdeiro dos Dumont está pagando em doces pelas suas... atenções?
O insulto machucou Raissa como um tapa físico, fazendo-a dar um passo atrás, empalidecendo.
— Já chega, Castiglione — Lucas levantou-se abruptamente de sua cadeira, colocando-se à frente de Raissa. Seu tom de voz amigável desapareceu por completo, substituído por uma seriedade protetora e perigosa. — Você acha que o seu sobrenome te dá o direito de tratar as pessoas como lixo? Você não passa de um garoto mimado que não suporta ver alguém que não pode comprar com o dinheiro do seu pai. Some daqui.
Bernardo deu uma risada seca, um som sem nenhuma alegria. Ele deu um passo à frente, batendo de frente com Lucas. A diferença de altura entre os dois era mínima, e a tensão física que se instalou no espaço minúsculo era quase sufocante.
— Você acha que é o salvador dela, Dumont? — Bernardo sibilou, inclinando-se na direção de Lucas, a voz carregada de uma promessa sombria. — Ela é uma bolsista que entrou no meu colégio para mendigar espaço. Ela não passa de uma oportunista que usa essa cara de santa para se aproximar de quem tem dinheiro. Eu sei exatamente o tipo de garota que ela é. Ela se rebaixaria a qualquer coisa por uma migalha do que nós temos.
### O Limite do Controle
Sem pensar, tomado por uma fúria defensiva, Lucas empurrou o peito de Bernardo com as duas mãos.
— Cala a boca, seu covarde!
Bernardo cambaleou meio passo para trás, mas um sorriso doentio e c***l cruzou seus lábios. Ele adorava o caos física. Num piscar de olhos, Bernardo avançou, segurando Lucas pelo colarinho da camisa com as duas mãos e prensando-o contra a parede de vidro fosco da sala.
*Clac!*
A divisória de vidro vibrou perigosamente sob o impacto.
— Bernardo, para! — gritou Raissa, correndo para tentar separar os dois, mas Alice a segurou pelo braço, sabendo que Bernardo estava descontrolado pelo ciúme.
— Você quer jogar, Dumont? — Bernardo sussurrou na cara de Lucas, os olhos cinzentos dilatados, os nós dos dedos brancos de tanta força. — Fica longe dela. Ela é um brinquedo do Saint-Valéry, e quem dita as regras do jogo sou eu. Se eu vir você perto dela de novo, eu destruo o império de hotéis do seu pai antes mesmo do final do semestre. Eu posso fazer isso com um único telefonema.
Lucas tentou se soltar, desferindo um soco que passou raspando pelo maxilar de Bernardo, mas a força bruta e a fúria cega de Bernardo eram maiores. Ele empurrou Lucas contra o chão, derrubando duas cadeiras de madeira no processo, que se quebraram com um estalo seco.
Bernardo ofegava, o peito subindo e descendo com violência. Ele se endireitou, ajeitando o sobretudo com uma frieza assustadora que contrastava com a agressividade de segundos atrás. Ele olhou para Raissa, que o encarava com os olhos azuis marejados de lágrimas de ódio e nojo absoluto.
— Olha para você — Bernardo disse a ela, a voz fria e desprovida de qualquer emoção humana, ocultando o fato de que seu peito doía ao ver o nojo nos olhos dela. — Causando brigas em bibliotecas públicas. Você é mesmo uma praga, Raissa. Um borrão de lama na vida de qualquer um que se aproxima de você. Vá para casa e pense no estrago que você causa apenas por existir.
Sem esperar resposta, ele deu as costas e saiu da sala de estudos a passos largos, deixando o rastro de destruição física e emocional para trás.
Raissa ajoelhou-se ao lado de Lucas, ajudando-o a se levantar enquanto suas mãos tremiam incontrolavelmente. A crueldade de Bernardo havia atingido um novo patamar de brutalidade, e ela percebeu que, naquele jogo de gato e rato, a corda estava prestes a arrebentar de vez.