CAPÍTULO 3
A sexta-feira chegou trazendo uma frente fria que cobriu a cidade com uma névoa densa. No pequeno bairro de classe média baixa onde Raissa morava com a madrinha, o contraste com o Saint-Valéry não poderia ser mais gritante. Ali não havia mármore ou portões banhados a ouro; havia apenas o som distante de carros antigos, o aroma de pão fresco da padaria da esquina e o barulho reconfortante da máquina de costura de Helena.
Na pequena sala iluminada por uma lâmpada amarela, Helena empurrava com habilidade um pedaço de tecido sob a agulha rápida da máquina. Ela era uma mulher de meia-idade, com linhas de expressão suaves ao redor dos olhos e cabelos grisalhos presos em um coque frouxo. Ao ver Raissa encarando o envelope preto com letras douradas sobre a mesa de jantar, Helena parou de costurar.
— Tem certeza de que quer ir a essa festa, minha querida? — perguntou Helena, a voz mansa, mas carregada de preocupação. — Esse menino... esse tal de Bernardo, ele não parece ter boas intenções.
Raissa desviou os olhos do convite e olhou para a madrinha. Havia uma determinação de aço em suas feições delicadas.
— Se eu não for, madrinha, ele vai achar que me venceu. Ele acha que pode me assustar porque não tenho o dinheiro dele. No Saint-Valéry, se você abaixa a cabeça uma vez, eles pisam em você para sempre. Eu preciso ir. Mas... eu não tenho o que vestir. O traje é esporte fino e o guarda-roupa deles custa mais do que a nossa casa.
Helena sorriu, um brilho cúmplice nos olhos. Ela se levantou e caminhou até o armário de madeira rústica nos fundos da sala, retirando de lá um cabide protegido por uma capa de plástico.
— Um bom alfaiate ou costureira não precisa de milhões para criar arte, Raissa. Seus pais... eles eram pessoas simples, mas você sempre teve a postura de uma rainha. Deixe-me ajudar a coroá-la.
Quando Helena abriu o zíper da capa, o fôlego de Raissa sumiu.
Era um vestido de crepe de seda azul-marinho, de um tom tão profundo que quase parecia preto sob a luz fraca, mas que brilhava como uma noite estrelada quando o sol o tocava. Ele tinha um decote ombro a ombro discreto e elegante, marcando a cintura fina de Raissa e caindo em uma saia fluida que ia até a altura dos joelhos. Helena passara as últimas duas noites adaptando um tecido nobre que havia sobrado do enxoval de uma cliente rica que nunca fora buscar.
— É lindo, madrinha — sussurrou Raissa, tocando o tecido macio com a ponta dos dedos.
— É digno de você — respondeu Helena, beijando a testa da afilhada. — Agora vá se arrumar. Mostre a eles de que matéria você é feita.
### A Chegada à Toca do Lobo
Às nove e meia da noite, o táxi simples em que Raissa estava parou diante dos portões monumentais da Mansão Castiglione, localizada no bairro mais nobre e vigiado da cidade. Os seguranças da guarita olharam com desdém para o veículo antigo, mas ao verem o convite oficial com o selo de Bernardo, permitiram a entrada.
A mansão era uma obra-prima da arquitetura moderna. Paredes imensas de vidro estrutural revelavam uma escadaria de mármore branco flutuante e lustres de design italiano que pareciam esculturas de luz. No jardim impecavelmente projetado, uma piscina de borda infinita refletia as luzes da festa, onde dezenas de jovens do Saint-Valéry circulavam com taças de espumante e risadas altas.
Ao descer do táxi, Raissa sentiu o vento frio da noite arrepiar sua pele. Ela ajeitou os cabelos loiros, que caíam em ondas perfeitas sobre seus ombros nus, e caminhou em direção à entrada principal.
O silêncio começou a se espalhar assim que ela cruzou o portal de vidro.
As conversas paralelas foram morrendo aos poucos. As garotas, vestidas com marcas como *Chanel* e *Gucci*, olharam para Raissa com uma mistura de choque e inveja. O vestido azul-marinho, embora simples em seus adornos, abraçava as curvas dela de forma escultural. A loira não usava joias caras, apenas um pequeno par de brincos de pérola que pertenceram à sua mãe biológica (embora ela ainda não soubesse disso). Sua beleza natural era tão avassaladora que fazia com que toda a ostentação ao redor parecesse artificial e barata.
No topo da escadaria interna, segurando um copo de uísque com gelo, Bernardo observava a entrada.
### O Choque de Bernardo
Ao ver Raissa, o copo quase escorregou dos dedos de Bernardo.
Ela parecia uma pintura. A luz azulada da piscina refletia em seus olhos safira, e o vestido ressaltava a brancura impecável de sua pele de porcelana. Ele sentiu uma onda de calor violenta atingir seu peito, uma mistura de desejo possessivo e raiva por vê-la tão deslumbrante na presença de outros homens. Bernardo notou, com o maxilar travado, que metade dos rapazes da equipe de futebol da escola já a cobiçavam com o olhar.
— Aquela é... a bolsista? — sussurrou Enzo ao lado de Bernardo, soltando um assobio baixo. — Cara, ela parece uma princesa europeia. De onde ela tirou aquele vestido?
— Cale a boca, Enzo — rosnou Bernardo, a voz perigosamente baixa.
Victória, que apareceu logo atrás vestindo um vestido vermelho sumário e caríssimo, sentiu o sangue ferver. Ela viu a expressão no rosto de Bernardo — uma mistura de choque e desejo absoluto que ele nunca havia direcionado a ela.
— Que patético — desdenhou Victória, alto o suficiente para que alguns ouvissem. — Ela deve ter gastado o salário de três meses da costureira para alugar esse trapo. Vamos ver se ela sabe como se comportar em um lugar de verdade.
Ignorando os sussurros, Raissa caminhou em direção ao bar do jardim, mantendo o queixo erguido. Ela sentia o olhar cinzento de Bernardo cravado em suas costas como uma lâmina quente, mas recusava-se a dar a ele a satisfação de vê-la intimidada.
A noite estava apenas começando, e o perigo rondava cada canto daquela mansão de vidro.