## CAPÍTULO 19: O Castelo e o Intruso
A transição de Raissa para a mansão dos Albuquerque ocorreu com uma delicadeza que ela não esperava. Arthur e Beatriz cumpriram cada promessa. Helena não foi denunciada; pelo contrário, recebeu uma pensão generosa vitalícia dos Albuquerque como agradecimento por ter cuidado tão bem de Raissa, e a jovem tinha passe livre para visitar a madrinha quando quisesse.
Na mansão, Raissa ganhou um quarto que parecia saído de um conto de fadas, mas o que ela mais valorizava era o respeito de seus pais biológicos. Beatriz passava horas conversando com ela sem pressioná-la, enquanto Arthur fazia questão de incluí-la em todos os detalhes da rotina da família.
Até mesmo Victória havia sido silenciada. Sob a ameaça real de perder seus luxos e ser enviada para a Suíça, a gêmea má limitava-se a lançar olhares venenosos de longe, mantendo uma distância segura.
No entanto, a nova realidade de Raissa trouxe um elemento que ela não previu: **o livre acesso de Bernardo Castiglione.**
### Aliados Inesperados
Os Castiglione e os Albuquerque eram parceiros de negócios históricos e compartilhavam os mesmos círculos sociais há gerações. Para Arthur e Beatriz, Bernardo não era o garoto c***l que Raissa conhecia; aos olhos deles, ele era o jovem herdeiro brilhante, focado e de excelente linhagem que, inclusive, havia corrido sob uma tempestade violenta para proteger Raissa no dia do baile.
— Ele foi extremamente nobre, minha querida — comentou Beatriz, enquanto as duas tomavam chá no jardim de inverno da mansão. — Bernardo poderia ter ignorado tudo, mas ele se importou com a sua segurança. Ele é um bom rapaz, de uma família impecável.
Raissa quase engasgou com o chá. Ela sabia que a máscara de Bernardo para a alta sociedade era perfeita, mas a lembrança do bullying, das humilhações e da possessividade doentia dele ainda estava viva em sua mente. Ela não esqueceria o que sofreu tão facilmente.
A prova de que Bernardo agora tinha passe livre veio no fim daquela tarde.
Arthur havia convidado Bernardo e seu pai para uma reunião de negócios informal no escritório da mansão. Após o término, o patriarca dos Albuquerque fez questão de chamar Bernardo para se juntar à família na sala de estar.
Quando Bernardo entrou no recinto, Raissa sentiu o corpo tensionar imediatamente. Ele não usava mais o uniforme do colégio. Vestia uma camisa de linho preta com os primeiros botões abertos e uma calça de alfaiataria escura. Seus olhos cinzentos, antes sempre frios e distantes, focaram nela no mesmo segundo, brilhando com uma intensidade que fez o estômago de Raissa dar voltas.
— Obrigado pelo convite, Sra. Albuquerque — disse Bernardo, sua voz barítona soando impecavelmente educada enquanto ele cumprimentava Beatriz com um beijo na mão e Arthur com um aperto firme.
— É sempre um prazer, Bernardo. Raissa estava justamente nos contando sobre as aulas no Saint-Valéry — mentiu Beatriz, sorrindo e gesticulando para o sofá. — Por que não se senta ao lado dela? Vamos pedir que tragam mais café.
Bernardo assentiu e caminhou até o sofá onde Raissa estava. Ele se sentou ao lado dela — não tão perto a ponto de parecer desrespeitoso diante dos pais dela, mas perto o suficiente para que ela sentisse o calor de seu corpo e o aroma marcante de seu perfume amadeirado.
### A Muralha de Raissa
Aproveitando um momento em que Arthur e Beatriz se afastaram para conversar com o mordomo na cozinha, Bernardo inclinou-se sutilmente na direção de Raissa.
— Você fica ainda mais bonita sob a luz dessa mansão, *minha* herdeira — ele sussurrou, a voz carregada daquela velha possessividade, embora agora houvesse um tom de suavidade que ela nunca tinha ouvido antes.
Raissa virou o rosto lentamente, encarando-o com os olhos azul-safira frios como gelo.
— Não me chame de sua, Bernardo. E não ache que por estar sentado na sala dos meus pais, as coisas mudaram entre nós. Eu não esqueci o que você fez no colégio. Não esqueci as suas ameaças ao Lucas e muito menos a sua crueldade.
Bernardo não recuou. Em vez de se irritar com a frieza dela, ele deu um sorriso de canto de boca, um brilho de determinação obstinada surgindo em seus olhos cinzentos.
— Eu sei — Bernardo respondeu, a voz caindo para um tom sério e quase vulnerável. — Eu fui um i****a. Eu estava cego pelo ciúme e pelo meu próprio orgulho ridículo. Mas agora que você está aqui, no meu mundo... eu não tenho mais desculpas para me esconder, Raissa.
Ele estendeu a mão e, por um segundo, seus dedos roçaram de leve no dorso da mão dela. Raissa puxou a mão imediatamente, mas o toque foi o suficiente para fazer sua pele queimar.
— Eu não vou facilitar para você — ela sibilou, o queixo erguido. — Você vai ter que lutar muito se quiser que eu dirija a palavra a você sem sentir raiva. Eu não sou uma das suas conquistas fáceis de Saint-Valéry.
Bernardo endireitou o corpo quando Beatriz e Arthur retornaram à sala, mas manteve os olhos fixos em Raissa. A expressão em seu rosto era a de um predador que havia encontrado seu maior desafio — e que estava disposto a ir até o inferno para vencê-lo.
— Eu adoro uma boa luta, Raissa — ele sussurrou, audível apenas para ela. — E eu não pretendo perder esta.