capítulo 20

983 Words
CAPÍTULO 20: O grande salão de festas da mansão Albuquerque estava deslumbrante, decorado com arranjos minimalistas de orquídeas brancas e iluminado por lustres de cristal que projetavam padrões geométricos nas paredes de mármore. Era a noite do grande jantar de negócios, o evento oficial em que Arthur e Beatriz apresentariam formalmente sua filha legítima ao conselho de acionistas e às famílias mais influentes do país. Raissa vestia um longo de alfaiataria azul-marinho, com um corte elegante que realçava sua postura altiva. Ela não usava joias extravagantes, apenas a sua inseparável medalha de fênix de ouro, agora polida e brilhando orgulhosamente sobre seu colo. Ela estava linda, mas seus olhos azul-safira mantinham uma barreira fria e impenetrável. Ela sabia que aquele mundo de sorrisos ensaiados e tapinhas nas costas era um ninho de cobras. E a maior delas acabara de cruzar o portal de entrada. Bernardo Castiglione chegou acompanhado de seus pais. Vestindo um smoking sob medida que acentuava seus ombros largos e sua postura imponente, ele atraiu os olhares de metade do salão. A indicação de Arthur de que Bernardo seria o "acompanhante sugerido" para Raissa naquela noite era o assunto sussurrado nos cantos. Ao ver Raissa, os olhos cinzentos de Bernardo se fixaram nela com a intensidade de um ímã. Ele se despediu educadamente dos pais e caminhou a passos firmes na direção dela, trazendo duas taças de champanhe. — Você está espetacular, Raissa — disse ele, a voz barítona caindo para um tom suave, estendendo uma das taças. — O azul combina com a realeza que você sempre teve, mesmo quando tentava se esconder. Raissa olhou para a taça e, deliberadamente, ignorou o gesto. Ela deu um gole em seu próprio copo de água com gás e limão, sustentando o olhar dele sem vacilar. — Poupe-me dos elogios ensaiados, Bernardo — respondeu ela, o tom gélido e cortante. — Minha mãe pode achar que você é um cavaleiro perfeito, mas eu lembro muito bem do garoto que tentou infernizar a minha vida. Você estar aqui hoje só prova que o seu interesse tem um preço: o sobrenome Albuquerque. O maxilar de Bernardo travou. Qualquer outro homem teria se afastado diante de tamanha hostilidade, mas a rejeição dela apenas acendia uma chama ainda mais forte em seu peito. Ele colocou a taça sobressalente em uma mesa de apoio e deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Você sabe que isso não é verdade — ele sussurrou, os olhos cinzentos faiscando de uma frustração genuína. — Eu fui um monstro com você porque não sabia lidar com o que você me fazia sentir. Eu estava quebrado por dentro. Não espero que me perdoe hoje, nem amanhã. Mas eu não vou desistir. Eu vou provar que mudei. — Então prepare-se para se esforçar pelo resto da vida — Raissa rebateu, erguendo o queixo. — Porque eu não sou um prêmio que você ganha com um pedido de desculpas e um terno caro. Antes que Bernardo pudesse retrucar, uma voz calorosa interrompeu a bolha de tensão que os envolvia. — Raissa! Que bom ver você. Lucas Dumont aproximou-se com um sorriso aberto, vestindo um smoking clássico que lhe caía perfeitamente. Seus olhos dourados brilharam de admiração ao focar na amiga. Ao lado dele, estava um rapaz alto, de cabelos negros desalinhados e olhos verdes penetrantes, que exalava uma aura de charme rebelde e aristocrático. — Lucas — o rosto de Raissa suavizou-se instantaneamente, e ela exibiu um sorriso genuíno que fez o sangue de Bernardo ferver de ciúmes. — Eu gostaria de apresentar um grande amigo meu da Suíça, que acabou de se mudar para o Brasil — disse Lucas, gesticulando para o rapaz ao seu lado. — Este é **Theo Cavalcanti**, herdeiro de uma das maiores empresas de navegação e logística da Europa. O pai dele acabou de fechar uma parceria com o seu pai. Theo deu um passo à frente, pegando a mão de Raissa e depositando um beijo suave e demorado nas costas dos dedos dela, mantendo o olhar fixo nos olhos azuis dela. — É uma honra absoluta, Raissa — disse Theo, a voz rouca e carregada de um sotaque sutil e charmoso. — Lucas me falou muito sobre a sua força e inteligência, mas ele esqueceu de mencionar que você tem a beleza de uma pintura renascentista. Espero que possamos passar muito tempo juntos a partir de agora, já que nossas famílias estão tão próximas. Bernardo deu um passo à frente, a postura rígida, emanando um perigo silencioso que fez o sorriso de Theo vacilar por um breve segundo. A possessividade de Bernardo estava prestes a explodir, mas ele se controlou, lembrando-se de que qualquer cena ali destruiria suas chances com os pais de Raissa. — Cavalcanti — Bernardo pronunciou o nome com desdém aristocrático. — Não sabia que o Saint-Valéry estava aceitando importações de última hora. — E eu não sabia que os Castiglione agiam como cães de guarda de propriedades alheias, Castiglione — Theo rebateu na mesma moeda, com um sorriso cínico que mostrava que ele não se intimidava facilmente. Raissa olhou para os três rapazes ao seu redor. Lucas a olhava com o carinho e o respeito de sempre; Theo exibia um interesse flertante, ousado e novo; e Bernardo... Bernardo parecia um vulcão prestes a entrar em erupção, os punhos cerrados ao lado do corpo, os olhos cinzentos implorando por uma atenção que ela se recusava a dar. Pela primeira vez, Raissa sentiu que o jogo estava inteiramente em suas mãos. Ela deu um sorriso enigmático, olhou para Theo e disse: — O prazer é meu, Theo. Eu adoraria que você me mostrasse mais sobre os seus planos no Brasil. Se me dão licença, cavalheiros. Ela deu as costas ao trio, deixando Bernardo queimando em seu próprio inferno de ciúmes e orgulho ferido, ciente de que a guerra para conquistá-la havia apenas começado.
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